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Atentado de Orlando: Homofobia, terrorismo e controlo de armas

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O atentado de domingo que provocou 49 mortos na discoteca “Pulse” de Orlando é o mais mortífero de sempre na história dos EUA, mas, para os ativistas que denunciam a violência armada, trata-se de mais um incidente numa longa lista que volta a revelar as falhas do sistema de controlo de venda de armas no país.

Segundo a associação Everytownresearch, que recenseia o número de ataques armados nos EUA, trata-se da 150a ação deste tipo nos últimos sete anos e da quarta a ser investigada desde o ano passado pelo FBI como ato terrorista (depois de San Bernardino, Chattanooga e Charleston em 2015).

O autor do ataque, um funcionário de uma empresa de segurança, que beneficiava da licença de porte de arma apesar de ter sido investigado duas vezes por terrorismo, teria reivindicado a ação em nome do grupo Estado Islâmico, durante uma chamada ao número de emergência 911, durante o ataque.

O diretor do FBI, James Corney, precisou, no entanto, que Omar Mateen, de 29 anos, teria igualmente evocado os irmãos Tsarnaev (responsáveis pelos atentados contra a maratona de Boston em 2013) e um bombista suicida do grupo islamita Al-Nusra na Síria, durante a chamada telefónica para a polícia. Matteen teria igualmente manifestado o seu apoio, no passado, tanto à rede terrorista al-Qaida como ao grupo rival, xiita, o Hezbollah libanês.

Um suspeito de terrorismo ilibado pelo FBI

Acusado de ter descurado uma potencial ameaça, o FBI defende-se, ao afirmar que Mateen teria sido ilibado depois de uma investigação de 10 meses em Maio de 2103 ter concluído que o suspeito, de religião muçulmana, pretenderia apenas responder às provocações dos seus colegas de trabalho.

A empresa para a qual trabalhava Mateen, a firma britânica G4S tinha sido denunciada no passado à justiça, pelas posições extremistas e homofóbicas defendidas abertamente por alguns dos seus superiores. Em Outubro do ano passado , quatro funcionários da G4S tinham apresentado uma queixa por discriminação religiosa contra a companhia, acusando um dos superiores, “um supervisor, cristão devoto, de insultar os familiares gay dos seus empregados e de alertar para o risco de ataques levados a cabo por demónios”.

Lista terrorista não impede acesso a armas

Apesar de ter sido incluído na lista de potenciais terroristas, antes de ser retirado da mesma em 2014, Mateen não se encontrava impedido de adquirir armas. Uma lei federal , defendida pelo poderoso lóbi NRA, permite que indivíduos incluídos na lista de potenciais terroristas possam adquirir livremente armas. Segundo um relatório do Senado , publicado no ano passado, cerca de 2 mil armas teriam sido adquiridas assim, em toda a legalidade, nos últimos 11 anos.

O presidente Barack Obama que tentou, sem sucesso, desafiar o Congresso – dominado pelos republicanos – para reforçar o controlo sobre a venda de armas, tinha mesmo reconhecido há alguns meses, “posso proibir os cidadãos que consultam sites islamitas de sair do país, mas não posso impedir estas pessoas de adquirir uma arma”.

Omar Mateen, que tinha adquirido recentemente uma pistola e uma carabina, detinha duas licenças de porte de arma, mas estava autorizado apenas a utilizá-las durante as horas de trabalho como segurança. Na Florida, estas licenças são concedidas pelo Departamento de Agricultura que, ao contrário da polícia, não tem acesso a determinados ficheiros criminais.

Um crime com motivações homofóbicas

Segundo o pai do susposto autor do atentado, Mateen teria levado a cabo a ação depois de ter visto dois homossexuais a beijarem-se em público em Miami. Outros relatos publicados estes dias na imprensa norte-americana dão conta de que o suspeito frequentaria o meio homossexual desde há vários anos e que detinha mesmo uma conta na aplicação de encontros gay “Jack’d”.

Segundo um amigo do autor do atentado, entrevistado pelo site Daily Beast , há dez anos atrás Mateen seria um frequentador assíduo de bares gay e de espetáculos de “drag-queen”, pouco antes de começar a trabalhar para a empresa de segurança G4S.

Se o móbil do ataque permanece incerto, o atentado na discoteca Pulse representa igualmente o mais grave crime contra a comunidade homossexual nos EUA, inserindo-se numa tendência crescente nos últimos anos no país, a par com o reconhecimento oficial de alguns direitos cívicos da comunidade.

Segundo o FBI um em cada cinco crimes de ódio levados a cabo nos EUA são motivados por preconceitos contra a orientação sexual. Dos 6.148 crimes de ódio registados nos EUA em 2014, 18,4% envolveram motivações anti-gay, anti-lésbicas, anti-transexuais, anti-heterossexuais ou anti-bissexuais. Nas estatísticas do FBI, os crimes com motivações homofóbicas surgem em segundo lugar – ainda que a uma grande distância – logo após os crimes raciais.

Na cronologia deste tipo de ataques nos EUA, encontra-se não só o assassínio e tortura de Matthew Sheppard em 1998 no Wyoming, como o caso menos conhecido, de um homossexual abatido em Maio de 2013, por entre insultos, no bairro de Greenwich Village em Nova Iorque.

A campanha Free & Equal lançada pela ONU para lutar contra a violência homofóbica sublinhava num relatório, no ano passado, que, “em vários países, as autoridades notaram um aumento drástico de casos de violência homofóbica ou contra transexuais no rescaldo de grandes avanços legislativos destinados a proteger os direitos da comunidade LGBT”.

O atentado contra a discoteca Pulse continua assim a levantar várias questões, quanto ao perfil e móbil do autor, mas também quanto ao sistema de controlo de venda de armas e ao clima de intolerância que permitiu que um homem, denunciado como “racista, homofóbico e violento” pudesse alvejar quase um terço dos 300 clientes da discoteca “Pulse” no domingo, com armas adquiridas em toda a legalidade.

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