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Eutanásia: "Todas as pessoas devem ter o direito a uma morte digna", Alexandros Velios

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“A morte é como uma parede. Ou acabamos por bater nela com a cabeça, cheios de dores e em pânico, ou tentamos lidar com a realidade de forma racional. Eu escolho a segunda opção”. É com estas palavras que, Alexandros Velios, um jornalista e escritor grego, explica à euronews a decisão em prosseguir com a eutanásia, depois de um longo ano a lutar contra o cancro.

Velios acredita que tem menos de 100 dias de vida. “A minha força física já não é a mesma. Sinto-me muito cansado. Começou a descida em espiral”.

Decidiu viajar até à Suíça para morrer dignamente, por ser um dos países que permite a morte assistida a estrangeiros. Quando soube que estava doente, que sofria de um tumor maligno, optou por seguir o caminho da eutanásia: “Seria infeliz se me sentisse preso a um corpo que me traiu. Estaria em desespero. Escapei ao pânico”.

A lei da eutanásia na Grécia

Na Grécia, a morte assistida é considerada crime. O Código Penal grego classifica-a como homicídio. Por isso, Velios recorreu à sua história pessoal para mudar esse quadro jurídico, que diz ser “ultrapassado”.

“A maioria dos países europeus está, cultural e institucionalmente, atrasada na questão da eutanásia”, diz Alexandros. Porquê? “Uma explicação está na religião. O Cristianismo sempre se opôs, com grande resistência. Todas as autoridades recusam-se a aceitar que as pessoas tenham o direito a decidir sobre a própria morte, porque essas pessoas vão exigir mais direitos e liberdades”.

“Penso que o direito à eutanásia, o direito de cada um escolher a morte que deseja é um direito fundamental. Acredito que todas as pessoas têm o direito de escolher uma morte digna, a não serem forçadas a ficar numa cama de hospital ligadas a uma máquina, como um pedaço de carne, irreconhecíveis até para a própria família”.

As reações da família e amigos

“O meu filho tem 20 anos e encara o meu problema com tranquilidade. A minha filha tem seis anos e meio e terá de enfrentar a minha perda no futuro, porque ainda não entende muita coisa”.
Alexandros diz que nenhum dos familiares ou amigos tentou demovê-lo. “Ninguém pôs qualquer objeção ou resistência. Todos concordam e apoiam a minha decisão em prosseguir com a eutanásia”.

Saber que deixa o seu trabalho, uma pequena herança para as futuras gerações, dá-lhe algum conforto. “Me and my death, the right to euthanasia” (“Eu e a minha morte, o direito à eutanásia”, em tradução livre), é um livro onde Alexandros narra a sua luta e que “dará ao filho uma oportunidade para ‘falar’” com ele e ajudará a filha “a conhecer o pai, que morreu quando era ainda muito pequena”.

Escrever este livro foi uma espécie de “psicoterapia ativa”, refere. Nele pode ler-se sobre as suas experiências e sobre o direito de as pessoas escolherem como devem terminar as suas vidas quando já não há esperança. “Prefiro estar calmo e preparar-me moral e espiritualmente para lidar, não com a morte, que é algo que já venci e se tornou apenas numa sombra, mas com algo mais horrível: o facto de, eventualmente, não restar nada de mim”.

A morte assistida no mundo

A morte assistida consiste em antecipar e abreviar a morte de uma pessoa doente, sem esperança de cura, através da administração de um fármaco. Pode ser concretizada de duas formas: através da eutanásia, em que a droga é administrada por um médico; ou, através do suicídio assistido, quando é o próprio doente que a administra, sob a supervisão de um médico.

Atualmente, a eutanásia é legal na Irlanda e na Colômbia.
O suicídio assistido está autorizado na Alemanha, Japão, Albânia, Canadá e nos Estados Unidos, em Washington, Oregon, Vermont, Montana e Califórnia.
A Holanda, em 2001, e a Bélgica, em 2002, foram os primeiros países europeus e legalizar tanto a eutanásia como o suicídio assistido. O Luxemburgo juntou-se poucos anos depois, em 2009.
A Suíça permite a eutanásia ativa, mas não o suicídio assistido.

Em Portugal, de acordo com o Código Penal, a morte assistida é considerada crime. Mas um estudo realizado pela Eurosondagem para o semanário Expresso e para a SIC, em março de 2016, mostra que mais de 60 por cento da população é a favor da eutanásia. No dia 26 de abril, entrou no Parlamento uma petição com oito mil assinaturas a pedir a legalização da eutanásia.

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