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Rio2016: Rafaela Silva é carioca, negra e de ouro

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Rio2016: Rafaela Silva é carioca, negra e de ouro

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Com Francisco Fuentes, Reuters e The Associated Press

A comunidade carioca da Cidade de Deus já foi considerada como uma das mais perigosas da cidade brasileira do Rio de Janeiro. Imortalizada na literatura, com a obra de Paulo Lins, de 1997 e no cinema, com o filme de Fernando Meirelles et Kátia Lund, 2002, parecia ter ficado na moda, dando ao mundo uma imagem do Brasil que a elite sempre nacional sempre tentou evitar e, sobretudo, confrontar.

Reflexo das contradições da maior economia da América do Sul, as favelas, como são conhecidas as comunidades como a Cidade de Deus são carentes de recursos e de infraestruturas.

A Cidade de Deus, em particular, apresenta um dos Índices de Desenvolvimento Humano mais baixos de todas as regiões municipais consideradas no Brasil para efeitos estatísticos.


Apesar do interesse despertado pelo filme de 2002 e pela série Cidade dos Homens, também de Meirelles e Lind, e dos processos de pacificação levados a cabo pelas autoridades cariocas em várias zonas até então controladas pelo tráfico de droga, as favelas continuam pobres e os seus habitantes também.

O ouro vale mais do que o racismo


Assim é Rafaela Silva.

Judoca, mulher, negra e humilde. Mas nunca derrotada.

Depois dos insultos racistas de que foi alvo ao ser eliminada nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, pensou em desistir do judo, mas mudou de ideias. Afinal, tinha lutado a vida toda, quase desde o dia em que nasceu, na Cidade de Deus.

A medalha de ouro de Rafaela Silva parece representar assim uma batalha constante. Contra tudo e contra todos, começando pelo preconceito. Até macaca lhe chamaram quando voltou da capital britânica, há quatro anos. Chegou a reagir mal na rede social Twitter, tendo depois pedido desculpa e dito que estava, na altura “de cabeça quente.” Seguiu-se uma recuperação progressiva, a luta contra a depressão, como conta a edição brasileira do Hufftington Post.

Orgulho da Cidade de Deus


Rafaela cresceu numa pequena casa da Rua Jessé. O pai, Luiz Carlos Silva, tem 53 anos e possui uma pequena empresa de mudanças.

Encara a vitória da filha com uma espécie de dignidade tranquila. Diz que o importante é que Rafaela não se esqueça de onde vem:

“Eu acho que a comunidade vai ficar feliz porque ela não esconde de onde vem. Tem gente que esconde. Ela não. Sempre falei para ela não esquecer de onde saiu. De onde vem. E aqui todo o mundo gosta disso, de ver que ela leva o nome da Cidade de Deus. Ela não mora na Barra, não. Eu sempre ensinei isso.”


E é com a mesma dignidade e serenidade que os amigos e vizinhos da Rua Jessé falam de Rafaela. Alan Ramos mora na Cidade de Deus. Conta que nunca escondeu o seu otimismo em relação a uma possível vitória da judoca:

“Tem uns 15 dias atrás que eu disse ‘Ih, vai ser o ouro, agora!’ Não tem outro jeito, não. É ouro. E é isso aí, ganhámos.”

Desporto, importante para jovens em risco


A verdade é que o judo, como tantos outros desportos, tem sido fundamental para livrar muitos jovens das zonas mais pobres das grandes cidades brasileiras das garras do narcotráfico e da delinquência.

Tatiane também foi judoka e é amiga de Rafaela. Define o poder de atividades como o judo em comunidades como a Cidade de Deus com uma só palavra:

“Transformação,” disse Tatiane.

“Ontem, a gente estava conversando com os meninos lá que fazem luta e eles mesmos falavam ‘Tia, a minha mãe falou várias vezes pra eu sair do judô, mas eu não saio não, porque eu quero algo melhor para a minha vida.’ Então, dentro da comunidade onde não tem muita oportunidade, e onde as crianças, muitas vezes, não têm muito gosto pelo estudo, eles vêm o esporte como uma transformação de vida.”


Uma transformação de vida acompanhada por muita determinação que, no caso de Rafaela Silva, acabou por dar os seus frutos. Parece que se não se escolhe onde se nasce, às vezes, sempre se pode ir escolhendo onde se chega.

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