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França: O debate sobre o "burkini"

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França: O debate sobre o "burkini"

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Biquíni sim. “Burkini” não, pelo menos em algumas praias francesas.

O debate está ao rubro em França, depois de algumas municipalidades, como Cannes, terem proibido o fato de banho que tapa todo o corpo, usado por algumas muçulmanas na praia. É tido como não “correto e respeitoso da moralidade”.

O decreto municipal de Cannes, apoiado pelo Tribunal Administrativo de Nice, evoca o contexto do terrorismo e os riscos de distúrbios da ordem pública. Segundo o documento, o fato de banho muçulmano demonstra, “de forma ostensiva, a pertença a uma religião, numa altura em que a França e os seus locais de culto religioso são alvo de ataques terroristas, o que pode provocar distúrbios da ordem pública”.

Embora não designe diretamente o “burkini”, o texto exige obrigatoriamente um vestuário de praia que respeite a laicidade.

O presidente da câmara de Villeneuve-Loubet, Lionel Luca, proibiu também o uso do “burkini” na sua autarquia e argumenta: “Quero que acabem de se singularizar para se colocarem numa espécie de apartheid, antes de mais, em termos de vestuário, fora da comunidade republicana. Isto é França, é a república francesa, toda a gente é igual, sem distinção de raça ou religião”.

O fato de banho de corpo inteiro foi criado em 2003 na Austrália, por uma estilista libanesa, para as mulheres muçulmanas tomarem banho, respeitando os princípios religiosos.

A legislação francesa não enquadra o uso do “burkini”, como explica Feiza Mohamed, representante da Associação de Muçulmanos de França: “A única roupa que é proibida é a burca, que esconde a cara. Não é o caso. Hoje, as mulheres tomam banho com o ‘burkini’, que esconde a mesma superfície que o véu islâmico. Estamos a estigmatizar e a excluir das praias e zonas balneares as mulheres muçulmanas”.

Algumas mulheres foram já multadas pelo uso do “burkini”.

Entre as muçulmanas reina a incompreensão e uma jovem destaca: “É ridículo. Porque vejo pessoas todas nuas e não percebo porque não nos podemos vestir”.

Fora de França, o debate surpreende e originou comentários irónicos sobre as justificações dos autarcas. E nas redes sociais há quem se interrogue sobre a diferença entre o “burkini” e uma combinação de mergulho ou de surfe.

Hervé Lavisse, representante da Liga dos Direitos Humanos, fala de decisões perigosas: “Incita o ódio. Transforma esta guerra num combate entre populações e é abominável. Vai-se, entre franceses, fazer uma distinção permanente para encontrar o salafista ou a salafista”.

O debate sobre o fato de banho integral surge num período de forte tensão, após uma vaga de terrorismo, e de interrogação sobre o lugar do Islão em França.

Neste contexto, em Sisco, na ilha da Córsega, o “burkini” originou violentos incidentes entre famílias locais e magrebinas. Tudo por causa de fotografias a mulheres muçulmanas que tomavam banho no mar.

Durante os desacatos, um habitante da Córsega gritava:
“Queremos mostrar-lhes que estão na nossa terra, na Córsega, nós estamos em casa”.

Os incidentes em Sisco fizeram cinco feridos e vários danos materiais. O presidente da câmara acabou também por proibir o “burkini”.

O debate chegou já ao governo. A ministra da Família, Infância e Direitos das Mulheres apoia a decisão dos autarcas. Laurence Rossignol qualifica o “burkini” como “a versão balnear da burca” e qualifica este vestuário como “arcaico”.

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