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Porque é que a França poderá ser o próximo país a deixar a UE?

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Porque é que a França poderá ser o próximo país a deixar a UE?

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França é um dos países candidatos a seguir as pisadas do Reino Unido na votação para sair da União Europeia. Os peritos deixam o alerta dois meses depois do “Brexit.”

Problemas económicos, ataques terroristas e o ressurgimento de Nicolas Sarkozy poderão beneficiar Marine Le Pen nas eleições presidenciais de 2017, de acordo com Simon Usherwood, perito em euroceticismo, criando as condições que podem precipitar um referendo idêntico ao realizado no Reino Unido em junho.

Os especialistas também colocam países como a Holanda, Dinamarca, Itália e Áustria entre o grupo de nações a exercer pressão para obter uma nova relação com Bruxelas. No entanto, alertam que o contexto particular do Reino Unido não é facilmente replicável em outro lado e que seria preciso que vários elementos se conjugassem para caminhar para a realização de um referendo.

União Europeia: Amo-te, eu não?

Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, está entre o grupo de vários líderes eurocéticos que apelaram à realização de referendos idênticos no rescaldo do “Brexit.” E com razão, pelo menos à primeira vista.

Uma sondagem da TNS Sofres divulgada dias depois da votação no Reino Unido revelou que 45 por cento dos inquiridos queriam um referendo idêntico em França. 44 por cento mostraram-se contra.

Le Pen espera agora poder passar à prática vencendo nas eleições presidenciais francesas, previstas para abril e maio de 2017.

“O país em que vamos assistir a uma maior pressão é França,” disse Usherwood em entrevista à Euronews. “Temos Marine Le Pen que parece muito bem posicionada para as eleições presidenciais.”

“Se olhar para os dois principais partidos em França, nenhum parece estar em grande forma. Hollande foi uma grande deceção para a esquerda. Não foi capaz de reforçar a reputação depois dos vários atentados terroristas. Quando o opositor mais credível a Le Pen é Sarkozy, que regressa para dar energia ao centro-direita, não parece estarmos perante uma nova política.”

A história também pode dar um impulso a Le Pen: Os franceses aprovaram, por uma margem curta, o Tratado de Maastricht, num referendo em 1992 (51 por cento – 49 por cento). Os eleitores rejeitaram estabelecer uma Constituição europeia em 2005.

A narrativa de que a Frente Nacional poderá vir a ser derrotada na última volta do escrutínio é repetida por outros analistas mas Usherwood, professor na Universidade de Surrey, acredita que a história não terminará aí.

“Mesmo que não saia das eleições presidenciais do próximo ano um referendo sobre a União Europeia é preciso perceber que ao longo dos próximos cinco a dez anos haverá muito mais pressão sobre os países para seguir este rumo, em particular se as coisas correrem bem para o Reino Unido [fora da União Europeia]”, lembra Usherwood.

Mais candidatos à saída?

A Dinamarca lidera o grupo de países a seguir à França – que inclui Itália, a Holanda e a Áustria – nos quais o euroceticismo pode deixar uma marca, de acordo com Usherwood.

O analista diz que a posição da Dinamarca no seio do projeto europeu, os laços com a economia do Reino Unido e a força dos eurocéticos – o Partido Popular Dinamarquês (DPP) – no parlamento, são fatores de peso.

Os dinamarqueses também votaram contra a União Europeia em três referendos em 1992, 2000 e 2015.

Mas se por um lado o Partido Popular Dinamarquês tem um papel-chave no governo de coligação, por outro não está claro – no caso de se precipitar um referendo – se este será sobre a saída União Europeia ou sobre a renegociação dos termos de adesão.

“Assistiu-se a uma certa viragem da política dinamarquesa nos últimos anos. Não é tão aberta e amigável como antes”, diz Usherwood.

Itália, país famoso pela instabilidade dos governos, também pode vir a ter eurocéticos no poder e avançar para um referendo sobre a filiação do país na zona euro.

O primeiro-ministro Matteo Renzi admitiu que errou ao dizer que se demitiria se perdesse um referendo sobre a Constituição de Itália, a acontecer entre outubro e dezembro. Se Renzi perder e se demitir, o Movimento 5 Estrelas, eurocético, que venceu recentemente em eleições municipais, poderia vir a capitalizar qualquer votação nacional.

“Se analisarmos os níveis de descontentamento político e frustração, os níveis de sentimento anti-imigração, anti-muçulmano, e os níveis de hostilidade em relação à UE, veremos que são incrivelmente elevados em Itália,” refere Seán Hanley, professor da University College London.

Tal como em Itália, o outono pode ser uma estação decisiva para a Áustria, onde o candidato de extrema-direita Norbert Hofer lidera as sondagens rumo à repetição das eleições presidenciais.

Uma sondagem realizada sobre a visão em relação à União Europeia revelou que 37 por cento dos austríacos consultados tinham uma perspetiva negativa sobre Bruxelas, o terceiro nível mais elevado no bloco comunitário.

Usherwood diz que mesmo que Hofer ganhe não teria o poder, como presidente, para convocar um referendo, mas pode estimular a realização de uma consulta no percurso para as eleições legislativas.

A Holanda é outro país com uma forte formação eurocética e uma votação nacional iminente.

Os holandeses vão às urnas para as eleições gerais de março de 2017 e o Partido para a Liberdade (extrema-direita) de Geert Wilders liderava as sondagens de opinião em junho.

O professor Seán Hanley diz que o sistema eleitoral que ajuda a dar uma voz a formações como o Partido da Liberdade pode também ser o mecanismo que os vai deter.

Deixar a União Europeia ou imitar Viktor Orbán

Uma imitação do “Brexit” é a direção mais óbvia e desejável para a maioria dos líderes eurocéticos, mas pode não ser realista ou possível, argumenta Hanley, que diz que a conversa do contágio do “Brexit” foi exagerada.

Em vez disso, acrescenta, os eurocéticos poderão seguir o modelo do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, que iniciou uma guerra com a UE sobre aspetos da sua política, como a reinstalação de migrantes.

O que se segue? Datas-chave para perceber se o “Brexit” terá um efeito de contágio

  • Referendo constitucional em Itália: outubro a dezembro de 2016
  • Eleições presidenciais francesas: abril/maio 2017
  • Eleições gerais na Holanda: março 2017
  • Repetição das eleições presidenciais na Áustria: outubro 2016

Ouça a entrevista completa com Simon Usherwood

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