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Colômbia: "Não" ao acordo de paz, sim a quê?

Depois de um resultado inesperado no referendo sobre o acordo de paz com as FARC, a Colômbia está numa incerteza ansiosa

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Colômbia: "Não" ao acordo de paz, sim a quê?

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O inesperado “Não” saído do referendo ao acordo de paz com as Forças Armadas da Colômbia (FARC) mergulhou a Colômbia na incerteza e na suspensão sobre o caminho do futuro.

Com uma vitória magra de pouco mais de 55 mil votos sobre o “Sim”, o resultado fixou-se em 50,21% contra 49,78%. A abstenção, geralmente alta no país, atingiu os 62% sobre os 34,9 milhões dos eleitores inscritos.

Um acordo de paz renegociado parece depender agora da aceitação por parte das FARC de sanções contra a guerrilha.
Os defensores do “Não” querem garantias de que os rebeldes entregam o dinheiro proveniente do tráfico de droga, cumprem penas de prisão e ganham o seu futuro político nas urnas ao invés de o garantirem através do acordo obtendo lugares não elegíveis no Senado.

O acordo assinado oferece a possibilidade de os guerrilheiros entregarem as armas às Nações Unidas, confessarem os crimes e formarem um partido político com raízes na ideologia marxista.
As FARC, que tiveram origem numa revolta campesina em 1964, teriam a possibilidade de concorrer às presidenciais de 2018 e às eleições legislativas e teriam 10 lugares garantidos no Senado em 2026.

Alvaro Uribe, ex Presidente da Colômbia com importantes vitórias militares sobre as FARC, liderou a campanha pelo “Não” desde que o actual Presidente,Juan Manuel Santos, deu inicio às negociações de paz em 2012 e que se mantiveram por 4 anos, em Havana, culminando a 26 de setembro com a assinatura do acordo, em Cartagena.

Descrevendo as negociações como demasiado indulgentes para com os guerrilheiros e como sendo um embaraço nacional, Uribe acusou Santos, outrora seu aliado, de vender os colombianos ao prometer à guerrilha lugares no Senado em vez de celas prisionais.
Uribe mobilizou milhões de colombianos contra o acordo de paz, fazendo mesmo manifestações nas ruas de Cartagena, enquanto figuras internacionais aplaudiam a assinatura formal do acordo.

Segundo o senador de esquerda Antonio Navarro Wolff, um ex guerrilheiro que desmobilizou em 1990, “Uribe é o grande vencedor” face ao resultado do referendo, uma vez que “o seu candidato presidencial está agora posicionado em primeiro lugar para as presidenciais de 2018”.

Enquanto Presidente, a forte campanha militar de Uribe contra as FARC parecia por vezes roçar a vingança pessoal. O seu pai foi assassinado pelos rebeldes num rapto e alguns colombianos parecem acreditar que só estará satisfeito quando as FARC forem esmagadas em campo de batalha.
Com Juan Manuel Santos, o assunto tornou-se inequivocamente pessoal, uma vez que, enquanto ministro da Defesa de Uribe, planeou e executou ofensivas contra as FARC mas depois cometeu “traição”, na perspectiva de Uribe, ao empenhar-se, desde que foi eleito Presidente, na prossecução da paz.

Santos, 65 anos, não tinha a obrigatoriedade de levar o acordo de paz a referendo, incorrendo agora na necessidade de recorrer a Uribe para que o processo de paz prossiga.
Rodrigo Londoño, líder das FARC, afirmou mesmo, após o resultado ser conhecido, que o voto expresso pelos colombianos não tinha qualquer validade em termos legais, mas os efeitos políticos são inegáveis, começando na fragilização de Juan Manuel Santos.

Se as renegociações falharem redundantemente, isso pode traduzir-se num regresso à guerra e a campanhas de bombardeamento com apoio dos Estados Unidos que eram peça central da estratégia de Uribe enquanto Presidente.

Contudo, a reafirmação da continuidade do empenhamento na paz quer por parte do Presidente Juan Manuel Santos quer por parte do líder das FARC, signatários do acordo, levou a comunidade internacional a corroborar o apoio da intenção, tal como havia encorajado a assinatura de 4 anos de negociações.

O porta voz da Casa Branca, Josh Earnest, expressou o apoio dos Estados Unidos aos esforços de Santos e restantes partes para negociar e apelou a todos os envolvidos que se continuasse a perseguir o objectivo da paz, acrescentando ainda que Washington está disponível para ter um papel construtivo nesse objectivo.

As Nações Unidas aplaudiram a manutenção do cessar fogo na Colômbia apesar do resultado e anunciaram que o seu enviado especial, Jean Arnault, viajaria para Cuba com o intuito de ajudar no processo.

Juan Manuel dos Santos convocou uma reunião à porta fechada com todas as partes políticas esta segunda feira, em Bogotá, para decidir os próximos passos.
Espera-se agora que os membros da delegação negociadora do Governo da Colômbia cheguem a Havana nas próximas horas, seguindo as ordens do Presidente para que os negociadores das FARC sejam informados dos passos que o Executivo tome de modo a abrir um diálogo nacional.

O líder guerrilheiro e os membros da comissão negociadora das FARC nas conversações de paz em Havana permanecem na capital cubana.

O conflito mais longo da América Latina, que durou 52 anos, matou mais de 220 mil pessoas, desalojou milhões e espalhou atrocidade pelo país.