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Arcebispo Desmond Tutu reclama direito a suicídio assistido

O sul-africano, Nobel da Paz em 1984, mudou de opinião sobre a eutanásia há dois anos, de forma radical, e agora, no dia em que completa 85 anos, assume: "não desejo ser mantido vivo a qualquer custo.

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Arcebispo Desmond Tutu reclama direito a suicídio assistido

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No dia em que celebrou 85 anos, o arcebispo Desmond Tutu, uma referência internacional pela luta pelos direitos humanos na África do Sul, expressou um desejo: ter o direito, se quiser, a uma morte medicamente assistida.

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Pessoas à beira da morte devem ter o direito de escolher como e quando vão deixar a Terra Mãe.

Desmond Tutu Bispo e Nobel da Paz

“Preparei-me para a minha morte e já deixei claro que não desejo ser mantido vivo a qualquer custo. Espero ser tratado com compaixão e que me seja permitido passar à próxima fase da viagem desta vida da forma que eu escolher”, lê-se num artigo de opinião de Desmond Tutu, publicado esta sexta-feira pelo jornal norte-americano Washington Post, com o título “Pessoas à beira da morte devem ter o direito de escolher como e quando vão deixar a Terra Mãe.”

Este artigo surge pouco mais de dois anos após um outro, no jornal britânico Guardian (12 de julho de 2014), em que o arcebispo revelou uma mudança radical de opinião sobre o tema e assumia logo no título: “uma morte digna é um direito nosso — sou a favor da morte assistida.”

O suicídio assistido ou eutanásia voluntária já é possível em algumas partes do mundo, mas na África do Sul é ainda proibido. Desmond Tutu espera ajudar a dar às pessoas dignidade na hora da morte e isso, assumiu-o pela primeira vez agora, vale também para ele.

Neste artigo de opinião e com a própria “vida mais próxima do fim do que do princípio”, como a descreveu, o arcebispo sul-africano espera “ajudar a dar às pessoas dignidade na morte”.

“Tal como argumentei com firmeza pela compaixão e justiça na vida, acredito quer as pessoas com doenças terminais devem ser tratadas com a mesma compaixão e justiça em relação à respetiva morte”, defende agora Desmond Tutu.

Desta forma, a luta do arcebispo pela liberdade e os direitos humanos continua, mas agora também pela opção das pessoas escolherem como e quando podem terminar com a própria vida.

Tutu, a quem chamam carinhosamente “the Arch” (abreviatura de arcebispo), esteve várias vezes hospitalizado desde o ano passado devido a uma infeção persistente, resultante do tratamento para o cancro da próstata que faz há quase 20 anos. Atualmente, movimenta-se com recurso a uma cadeira de rodas.

O dia de aniversário de Desmond Tutu

Esta sexta-feira de manhã, Desmond Tutu presidiu à eucaristia na igreja da sua paróquia na Cidade do Cabo e prestou um comovente tributo à catedral de St. George antes de deitar a cabeça na mesa da comunhão e chorar por uns momentos. Após o serviço religioso, o arcebispo tomou uma chávena de chá com os fiéis.

O Presidente sul-africano, Jacob Zuma, e o último líder do apartheid, F.W. de Klerk, prestaram-lhe homenagem, por ocasião do 85.° aniversário do bispo.

Em comunicado, Zuma disse que Tutu “contribuiu imensamente para a liberdade e o sistema democrático” da África do Sul. “Continua a inspirar a nação e o mundo ao promover os direitos humanos, a justiça e o bem-estar de todos, especialmente dos pobres”, acrescentou o chefe de Estado.

De Klerk e a sua fundação desejaram a Tutu “a melhor saúde no próximo ano” e reconheceram “o seu valioso papel como pacificador, bem como o seu contributo para a boa vontade entre todos os sul-africanos e para a democracia constitucional da África do Sul”.

Ordenado sacerdote aos 30 anos e nomeado arcebispo em 1986, Desmond Tutu foi o primeiro arcebispo anglicano negro da Cidade do Cabo. Usou a sua posição para defender a adoção de sanções internacionais contra o poder da minoria branca na África do Sul e, mais tarde, para lutar por direitos, de forma global.

Recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1984.

Países onde o suicídio assistido já é legal

A página de internet intitulada suicício assistido apresenta uma lista atualizada em outubro do ano passado dos locais onde já é permitido recorrer a uma morte com assistência médica para pôr termo à própria vida. A legislação e os limites da prática diferem de sítio para sítio.

O primeiro país a permitir a própria morte com assistência médica foi a Suíça, em 1940, e este mantém-se como o único sítio onde este recurso é possível de ser implementado com cidadãos estrangeiros.

Somente meio século depois, em 1994, uma lei similar voltou a ser aprovada noutro ponto do globo: foi no estado do Oregon, nos Estados Unidos. Seguiu-se, três anos depois, a Colômbia.

Já no novo milénio, Holanda e Bélgica, em 2002, adotaram legislação que permite a eutanásia com assistência médica. Seis anos depois, outro estado norte-americano juntou-se à lista, Washington. Em 2009, foi a vez do Luxemburgo e, em 2014, o Quebec, no Canadá, país onde legislação a nível nacional teve este ano importantes desenvolvimentos.