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Beppe Grillo: "Nunca me imaginaria chefe de governo em Itália"


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Beppe Grillo: "Nunca me imaginaria chefe de governo em Itália"

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Acabaram as brincadeiras, passemos às coisas sérias: Beppe Grillo já foi comediante e agora é o líder do movimento 5 estrelas, um movimento político antissistema em ascenção em Itália. Encontrámo-lo em Bruxelas, onde desfilou em defesa da siderurgia europeia contra o dumping chinês. Para breve, promete conquistar o governo italiano. Falámos com ele sobre a Europa, o populismo e os media.

Gardenia Trezzini, euronews: Beppe Grillo, encontramo-nos num momento que podemos qualificar de histórico, sem retórica – a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Como interpreta essa notícia?

Beppe Grillo: Trata-se de uma reviravolta extraordinária. Essa “espiga de milho”, como lhe chamo, com simpatia, não tem qualidades excecionais, mas foi de tal forma atacado pelos media com acusações terríveis de sexismo e de racismo, foi de tal forma assediado pelo establishment, como o New York Times, que acabou por vencer. É o símbolo da tragédia e do apocalipse da informação tradicional.

As televisões e os jornais estão sempre atrasados, dão uma informação velha. Não anteveem nada e só agora percebem que aqueles que consideram idiotas, os deserdados, os marginalizados – que são milhões – usam esse meio alternativo que é a web, que passa por baixo dos radares das televisões, que já ninguém vê. Com Trump, passou-se o mesmo que comigo e o Movimento 5 Estrelas, que nasceu da internet. Os media ficaram surpreendidos e perguntaram-nos onde andávamos antes. Levámos milhões de pessoas às praças, eles ficaram maravilhados. Tornámo-nos no maior movimento de Itália e os jornalistas, os filósofos, continuaram a dizer que nos aproveitávamos do descontentamento das pessoas. Um dia chegamos ao governo e vão perguntar: Mas como é que eles fizeram isto?

Entre ter um discurso populista e governar um país, há um grande fosso…

Queremos administrar, mas não queremos substituir o poder atual pelo nosso. Queremos uma mudança de civilização, de visão do mundo. Falamos de indústria desmaterializada, do fim do trabalho remunerado, de um rendimento de cidadania universal. Se a nossa sociedade está baseada no trabalho, o que acontece se o trabalho desaparece? O que vamos fazer com os milhões de pessoas afetadas? Vamos ter de nos organizar e gerir isso tudo.


Biografia: Beppe Grillo

  • Nascido em Génova em 1948.
  • Humorista e ator com grande sucesso (TV e teatro) a partir dos anos 70.
  • Funda o Movimento 5 Estrelas (M5E) em 2009 com Gianroberto Casaleggio.
  • Nas eleições de 2013, o M5E torna-se no segundo maior partido de Itália e desde 2014 está representado no Parlamento Europeu, no grupo EFD
    .
  • Já este ano, o movimento conquistou vários municípios nas autárquicas italianas, incluindo a capital, Roma, com Virgina Raggi à frente.
  • O blog de Beppe Grillo é considerado um dos mais influentes a nível mundial.

Para ser eleito, basta apelar às emoções das pessoas? Isso é um projeto político?

Isso é o que a informação não para de repetir: Que não temos projeto político, que não somos capazes, que somos imbecis e amadores. Pois, os amadores estão a tomar conta do mundo e ainda bem, porque foram os profissionais que o deixaram no estado em que está. Hillary Clinton, Obama e todos os outros desintegraram a democracia e a política internacional. Se a situação é essa, isso significa que os peritos, os economistas, os intelectuais, enganaram-se todos. Se é isso a Europa, isso quer dizer que o sonho europeu se evaporou. O Brexit e Trump são sinais de uma enorme mudança. Se a conseguirmos compreender, conseguimos também fazer-lhe face.

Até agora, os movimentos antissistema confrontaram-se com os seus próprios limites: A partir do momento em que chegam ao poder, parecem perder a razão de existir e as capacidades. Tomemos o exemplo de Tsipras na Grécia ou do Podemos, em Espanha. A um passo do poder, foram obrigados a fazer marcha atrás. Porquê?

Porque a mentalidade é velha. Pensam que o poder é gerado através de coligações ou acordos com os outros. Do nosso lado, queremos dar instrumentos aos cidadãos. Criámos um sistema operativo, chamado Rousseau, no qual qualquer cidadão pode inscrever-se gratuitamente, votar nas eleições regionais e municipais e acompanhar as propostas de quem elegeram para o parlamento. Qualquer cidadão pode até propor leis. É um exemplo de democracia direta nunca antes visto, nem mesmo o Tsipras ou o Podemos fizeram isto.

Disse que não está interessado em destruir a União Europeia, mas sim em mudá-la profundamente. Como pode um pequeno grupo de eurodeputados agir para operar uma mudança profunda?

Esse pequeno grupo de eurodeputados faz ouvir a sua voz, mas há complicações. No parlamento, há lóbis, há comissões, o parlamento decide, mas ao mesmo tempo, não decide nada. Nós fazemos o que podemos, em coerência com a nossa visão do mundo, baseada na economia circular. Propusemos a economia circular como a energia do futuro e essa proposta foi adotada pelo Parlamento Europeu.

Há um dossiê quente neste momento na Comissão, um problema de conflito de interesses que diz respeito a alguns políticos. O presidente Juncker propôs modificar o código de ética e alargar a três anos o período de interdição de empregos privados para todos os antigos membros da Comissão. Isso chega?

Sinceramente, tenho dúvidas sobre uma mudança do código ético feita por um antigo ministro de um paraíso fiscal (Luxemburgo)…

A Comissão não tem legitimidade?

Não, porque se trata de uma comissão que ninguém elegeu. Foi isso que nos aproximou de Nigel Farage – a ideia de uma democracia construída a partir de baixo.

Não se arrepende da aliança com Farage?

Fizemos apenas uma aliança técnica, para ter os números necessários para entrar no parlamento. Mantivemos uma total autonomia de decisão, mas estávamos unidos por uma ideia comum de uma Europa diferente, de uma Europa mosaico com certas autonomias e soberanias. Não sou contra a Europa, sou contra a moeda única. As palavras têm a sua importância: Comum e único são dois conceitos diferentes. De qualquer forma, a Grã-Bretanha mostrou algo com que nós, em Itália, não podemos sequer sonhar – organizar um referendo claro, sim ou não.

Claro no resultado, mas não nas consequências. Na realidade, a população está dividida e há muitas mudanças de posição…

O que quer que aconteça, a responsabilidade é dos britânicos, eles é que decidem.

Não o incomoda que Matteo Renzi faça figura de desmancha-prazeres da Europa? A crítica das instituições europeias era o vosso cavalo-de-batalha e agora é o primeiro-ministro italiano a dar um murro na mesa (a respeito do não-cumprimento das regras do défice, que Renzi culpa com o terramoto e imigração)…

Renzi é obrigado a fazer isso, mas acabou por me copiar e, ao fazer isso, só fortalece o original.

Mas pode obter resultados, devido à posição de chefe de governo…

E muito bem. Se quiser fazer um referendo sobre o euro, tem o nosso apoio. Se quiser sair do pacto orçamental, que é uma das nossas batalhas, apoiamo-lo.

Quem apoia, na querela sobre a flexibilidade das contas públicas relacionada com o sismo e a imigração?

Nesse campo, apoio a posição de Renzi. Não tenho preconceitos sobre projetos ou ideias, tenho sobre a pessoa. A meu ver, é completamente indigno de confiança.

O poder de negociação de Renzi depende também do referendo constitucional (marcado para 4 de dezembro), vamos ver se sai enfraquecido, ou se solidifica a liderança…

Renzi já perdeu…

Se o não vencer, vai pedir eleições antecipadas?

O que quer que aconteça, queremos eleições, porque o parlamento atual não é legítimo. Por isso, nós também não somos legítimos. O governo avança apenas com a aprovação de leis como medida de urgência, é assim que são aprovadas 90% das leis. Para que serve reformar o Senado para tornar mais rápido o processo legislativo?

Imagina-se como chefe de governo em Itália?

Não, nunca estive na corrida. Nunca.

Então Beppe Grillo não é candidato a ministro ou outra função oficial, se um dia o Movimento 5 estrelas ganhar as eleições?

Esse dia vai chegar muito em breve.

É uma previsão?

Basta votar. Temos a certeza que vamos ganhar.

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