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António Costa: "A Alemanha é o único país que pode assumir a liderança, mas não quer"


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António Costa: "A Alemanha é o único país que pode assumir a liderança, mas não quer"

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Foram anos de austeridade e agora Portugal tenta virar a página para se tornar num destino privilegiado de investimentos e numa plataforma de inovação. Aliás, Lisboa lutou pela organização da Web Summit, uma das mais concorridas cimeiras de tecnologia, e conseguiu. Como é que este país, situado numa Europa também ela fragilizada, se posiciona perante as grandes mudanças mundiais que estão a ocorrer, sobretudo após a eleição de Donald Trump? O primeiro-ministro António Costa foi o convidado deste Global Conversation.

Isabelle Kumar, euronews: Comecemos já pelas eleições americanas e pela chegada de Donald Trump à Casa Branca: era o resultado que pretendia ver?

António Costa: A escolha do presidente dos Estados Unidos cabe aos eleitores americanos. É óbvio que foi uma surpresa para muita gente. Para mim, também. Esperemos que os Estados Unidos continuem a respeitar os compromissos assumidos no âmbito da aliança transatlântica com a Europa e as responsabilidades no quadro das Nações Unidas. Mas a grande mensagem que temos de tentar compreender é: como foi possível este resultado? Esta é que é a grande questão. E é uma questão que se coloca também a respeito do Brexit e que é evidenciada por várias sondagens em diferentes países europeus…

euronews: Como é que foi possível, na sua opinião?

AC: Diria que há uma rutura entre o quadro político dominante e os cidadãos comuns, que se sentem angustiados. Nós temos de nos reaproximar daquilo que os cidadãos e as cidadãs realmente esperam da política. É evidente que a globalização é irreversível e traz vantagens para a economia mundial, para o desenvolvimento de vários países, como a China, a Índia, mas é também uma ameaça para muitos dos nossos concidadãos. E nós temos de os conseguir tranquilizar, o que não fizemos.

euronews: Falou na globalização. Mas, durante a campanha, Donald Trump defendeu políticas protecionistas, que isolam o país. Que impacto é que isto pode ter sobre a Europa?

AC: Também temos reações protecionistas na Europa. Quando vemos países do espaço Schengen a fechar fronteiras para não acolher refugiados, quando vemos o Reino Unido afastar-se da União Europeia, quando vemos a vitória de Trump, percebemos o quão fortes podem ser as reações contra a globalização.

euronews: O que são más notícias para a Europa…

AC: Não, são más notícias para o mundo e também para a Europa. É preciso compreender que a globalização tem de ser enquadrada. E essa tem sido uma das grandes falhas da União Europeia até hoje.


Breve biografia de António Costa

  • Nasceu em Lisboa, em 1961
  • Foi ministro da Justiça de 1999 a 2002 e da Administração Interna entre 2005 e 2007
  • Foi presidente da Câmara de Lisboa entre 2007 e 2015
  • Tornou-se primeiro-ministro em novembro de 2015
  • Encabeça um governo assente numa aliança parlamentar com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda

euronews: Já vamos voltar à União Europeia, mas ainda em relação a Trump: como é que olha para o programa que ele apresentou?

AC: Bom, o programa de Trump não tem nada a ver com o meu programa, não só em relação às questões económicas, mas também no que diz respeito aos valores. Mas, entre países democráticos, temos de saber respeitar as escolhas de cada povo. E, portanto, temos de respeitar a escolha que os americanos fizeram para a presidência.

O ponto de viragem português

euronews: Vamos regressar às eleições americanas ao longo desta entrevista. Mas estamos em Lisboa, na Web Summit…

AC: Felizmente!

euronews: Então vamos a isso… Esta cimeira surge num momento ainda difícil para a economia portuguesa. Há quem diga que se vive um novo dinamismo no país, embora a situação económica ainda seja complicada. Porque é que era tão importante para si realizar a Web Summit em Lisboa?

AC: Estamos num ponto de viragem. Concluímos o programa de ajustamento com a troika. Este ano, pela primeira vez, vamos conseguir um défice abaixo dos 3%. Ou seja, vamos sair do procedimento por défice excessivo. Agora é altura de relançar a economia. E a base deve ser sobretudo a inovação. As startup representam o caminho que tomámos para mobilizar esta geração de portugueses e portuguesas, que é a geração mais qualificada que o país já teve e que, durante os anos da crise, repetiu o fenómeno da emigração…

euronews: Deixaram o país…

AC: Temos de os fazer regressar e fixar no país os jovens que estão, hoje em dia, nas universidades e institutos politécnicos, de forma a aproveitar as competências que esta geração tem para oferecer.

euronews: A austeridade foi mesmo necessária? Era a política mais adequada para aquela altura?

AC: O programa da troika foi um erro. Mas já ultrapassámos isso, virámos a página e agora temos os olhos postos no futuro.

euronews: Diz que viraram a página mas, dada a instabilidade global nos dias que correm, há quem evoque a possibilidade de um segundo plano de resgate...

AC: Não, não há motivo nenhum para que isso aconteça. Antes de mais, como já referi, vamos alcançar o melhor nível de défice desde há 42 anos, aliás um dos melhores da União Europeia.

euronews: Mas um crescimento fraco…

AC: Sim, é verdade, mas num contexto no qual toda a Europa regista um crescimento fraco. Este ano, já reduzimos a taxa de desemprego em dois pontos. As nossas exportações aumentaram 6%. As exportações para os países da União Europeia subiram 7,6%.

euronews: Considera a hipótese de se demitir se o crescimento não voltar?

AC: Não é uma questão que se coloque neste momento. Temos uma maioria parlamentar estável, uma relação muito boa com o presidente da República, uma relação muito boa com os parceiros sociais. Todos os indicadores económicos nos dizem que os níveis de confiança estão a aumentar desde o início do ano. Os salários dos funcionários públicos, que sofreram cortes de 30% durante cinco anos, foram restabelecidos. Conseguimos reduzir os impostos sobre os salários tanto no privado, como no público.

euronews: Mas nem toda a gente está de acordo consigo…

AC: Isso é normal, não?

euronews: … a nível europeu. Estou a pensar em Wolfgang Schäuble, por exemplo, o ministro das Finanças alemão. O presidente do seu partido chamou-lhe de incendiário, considerando supostamente que ele queria incendiar o vosso país...

AC: É verdade. Infelizmente, o ministro Schäuble tem uma posição hostil em relação ao nosso governo baseada na ignorância daquilo que é a realidade económica portuguesa. Eu costumo dizer que dou muita atenção aos alemães, mas sobretudo aos alemães que conhecem bem Portugal. E os alemães que conhecem Portugal confiam no nosso país e investem nele. A fábrica mais produtiva da Volkswagen na Europa situa-se em Portugal. O que decidiu fazer esta marca? Criar um novo modelo que vai ser lançado no ano que vem e que será produzido nesta fábrica portuguesa. A Bosch abriu duas novas unidades industriais em Portugal. A Continental vai abrir uma nova fábrica este ano.

euronews: E Schäuble não está ao corrente disso?

AC: Não, ele não conhece a realidade portuguesa de todo, mas felizmente os empresários alemães sim, conhecem Portugal, confiam no país e estão a reforçar os investimentos que fazem.

“Mesmo após quatro anos de troika, continuamos pró-europeus”

euronews: Gostaria de voltar à comparação entre a Europa e os Estados Unidos: durante a campanha, Donald Trump afirmava que a sua vitória seria como uma espécie de super-Brexit. Muitos analistas dizem que foi uma vitória do populismo. Considera que foi uma vitória do populismo também aqui na Europa?

AC: O populismo xenófobo existe um pouco por toda a Europa, à exceção talvez de Espanha e Portugal, que são para já os únicos países que continuam imunes. Isso é normal: Portugal não é um país fechado no meio da Europa. É um país situado em frente ao Atlântico, aberto ao mundo…

euronews: Qual será então o impacto sobre o populismo na Europa? Isto reforça esse movimento?

AC: Tenho sempre a esperança que as decisões infelizes como o Brexit ou vitória de Trump sirvam de vacina para nos proteger de novos erros e de novos triunfos do populismo nas próximas eleições a ter lugar na Europa. Felizmente, nós continuamos a resistir, mantemo-nos abertos ao mundo. Isso é um fator determinante para o nosso futuro. Faz parte da nossa história, mas também do nosso futuro.

euronews: O seu partido fez uma aliança com partidos eurocéticos, uma corrente que ganha cada vez mais terreno na Europa e que visa a desintegração da União Europeia. Corremos realmente o risco de assistir a uma desintegração?

AC: É preciso compreender uma coisa em relação ao caso português: a aliança que está na base do nosso governo pressupõe o respeito das diferenças de cada partido. O Partido Socialista, do qual sou secretário-geral, é o grande defensor da integração europeia. O acordo que estabelecemos com os outros partidos de esquerda não contempla as questões europeias. Portanto, o programa do governo continua a ser um programa pró-europeu que defende a integração europeia.

euronews: Estaria disposto a organizar um referendo se os portugueses quisessem pronunciar-se sobre a continuação de Portugal na União Europeia?

AC: Este ano, celebramos 30 anos de adesão. Não é agora que vamos organizar um referendo. Não é uma questão que o país se coloque…

euronews: É peremptório: isso nunca irá acontecer…

AC: Há um grande consenso em Portugal em torno dessa questão. Mesmo após quatro anos de troika, continuamos pró-europeus. É óbvio que há um problema na União Europeia que tem de ser abordado de forma muito clara: é preciso completar a União Económica e Monetária. A União Económica e Monetária não foi terminada e essa é uma questão fulcral para estabilizar a Europa.

euronews: Mas os populistas vão fazer tudo para o impedir…

AC: É preciso combatê-los.

euronews: De que forma? Estamos a falar de movimentos que têm ao leme personalidades muito fortes: Trump, nos Estados Unidos; na Europa, Nigel Farage conseguiu empurrar o Reino Unido para fora da União Europeia…

AC: Sim, e depois foi-se embora, deixou o Reino Unido com um grande problema nas mãos. É uma irresponsabilidade…

euronews: No entanto, eles dizem-se responsáveis perante a União Europeia…

AC: Populismo é mais ou menos sinónimo de irresponsabilidade. Fazer discursos, é fácil. É fácil mobilizar as pessoas para tomar decisões. Mas depois o que é difícil é gerir as coisas, governar de acordo com essas decisões. É inacreditável o que está a acontecer atualmente no Reino Unido. Os grandes defensores do Brexit, à exceção de Boris Johnson, foram-se embora. Os que ficaram não sabem o que fazer. É inacreditável que, depois de ter decidido sair da União Europeia, o Reino Unido peça diariamente tempo para refletir, para saber o que deve fazer e de que forma iniciar as negociações.

Alemanha, o líder que não o quer ser

euronews: Será que o problema da Europa não é precisamente a falta de liderança?

AC: Não sei se nos falta liderança, mas faltam-nos certamente resultados. As pessoas precisam de se sentir seguras perante a realidade de uma economia globalizada, precisam de saber que há políticos que podem promover o crescimento e a criação de emprego, que há novos modelos de trabalho, que há formações disponíveis para integrar as pessoas no mercado laboral. As preocupações relacionadas com esses três fatores – crescimento, desemprego e segurança – representam a mensagem fundamental que os cidadãos querem transmitir aos políticos. E nós temos de dar uma resposta positiva.

euronews: Ou seja, a Alemanha, que é o país habitualmente considerado como o líder da União Europeia, não é o exemplo a seguir…

AC: É um paradoxo. Por um lado, a Alemanha é o único país que pode assumir a liderança, mas infelizmente não quer essa mesma liderança. Porque, para se ser líder, é preciso ter a capacidade de agregar, de criar pontes entre uns e outros, de juntar pobres, ricos, pequenos, grandes, os países de Leste, os países do Oeste, do Norte, do Sul… E a Alemanha não sabe fazer isso. A Alemanha nunca assumiu uma postura de aglomeração. Nunca aprendeu a fazê-lo. Por isso, é muito difícil para este país exercer a liderança. Infelizmente, não há outros países que tenham a capacidade de o fazer no seu lugar. Por isso é que deposito grandes esperanças em Jean-Claude Juncker, na sua Comissão Europeia, porque à falta de capacidade de liderança entre os Estados-membros, a Comissão tem a oportunidade de assumir a posição central que tinha na altura de Jacques Delors, encarnando assim a verdadeira liderança da União Europeia.

euronews: Voltemos à Web Summit. Uma das sessões chamava-se a “Loucura da Realidade Virtual” (Virtual Reality Insanity). Concorda com a ideia de que estamos todos à beira de nos lançarmos no desconhecido e que são as gerações futuras que vão pagar a fatura?

AC: Todas as gerações se confrontam com o desconhecido: o futuro é isso. É verdade que, nos dias que correm, a dinâmica da inovação tecnológica levanta questões mais complexas do que antigamente. A automatização, a robótica, o digital suscitam questões difíceis para nós. Ao longo da história, todos os avanços produtivos, todos os avanços tecnológicos, permitiram criar mais postos de trabalho do que aqueles que iam sendo destruídos. Portanto, é necessário reinventar a forma de trabalharmos, de partilhar o tempo de trabalho, de partilhar os ganhos de produtividade de uma outra maneira.

euronews: Terminando num registo mais ligeiro, visto que estamos numa cimeira de novas tecnologias: há alguma tecnologia sem a qual não consiga passar ou há algo específico que gostaria de ver criado?

AC: Interesso-me muito pelas novas tecnologias no domínio da mobilidade. Nas próximas décadas, as alterações climáticas serão o grande desafio da Humanidade. E isso implica implementar modos de deslocação que sejam sustentáveis. Os avanços tecnológicos representam uma grande oportunidade para conseguir esse objetivo.

euronews: E no seu dia a dia?

AC: No meu dia a dia, trabalho com o meu computador portátil e é sempre uma aventura tentar encontrar novas aplicações no meu telemóvel para efetuar operações bancárias, comprar um livro, encontrar um restaurante, aprofundar conhecimentos, aceder à informação: é um mundo fabuloso!

euronews: Muito obrigada.

AC: Obrigado, foi um prazer.

euronews: E obrigada por fazer a entrevista em francês.

AC: Obrigado eu, foi uma boa oportunidade para praticar.

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