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Abusos, violência e esquecimento: Histórias de migrantes na Líbia


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Abusos, violência e esquecimento: Histórias de migrantes na Líbia

O mundo parece ter esquecido a realidade dos migrantes e refugiados na Líbia. Enquanto as autoridades se dizem despojadas de meios para enfrentar as redes de tráfico humano, a comunidade internacional é acusada de negligência e de abandonar os líbios na missão de travar o fluxo de pessoas para a Europa. As histórias que surgem dos centros onde se amontoam migrantes são ecos de esquecimento e terror.

“Todas as sextas-feiras, fazem uma caça aos homens negros e trazem-nos para a prisão por nada!” / “Chamam-nos de animais, espancam-nos…” / “Negoceiam com as nossas vidas, enriquecem às nossas custas.”

São relatos de quem veio de diferentes pontos de África para terminar num dos centros de detenção da Líbia. O regime de Kadhafi colapsou há cinco anos. O país transformou-se numa placa giratória de migrantes e refugiados.

A Líbia tem cerca de 2 mil quilómetros de costa e 4 mil de fronteiras terrestres. Oficialmente, acolhe perto de 300 mil migrantes, grande parte dos quais pretende alcançar a Europa, que fica apenas a 300 quilómetros deste território. O destino de muitos que tentam a travessia é tragicamente conhecido. Com os poucos meios que têm, os guarda-costeiros líbios tentam salvar quem podem.

Os responsáveis pela patrulha marítima ao largo de Tripoli dispõem apenas de 6 barcos pneumáticos. O equipamento não lhes permite fazer longas distâncias, nem aventurarem-se em alto mar. E a operação naval da União Europeia para travar o tráfico de migrantes no Mediterrâneo não está a ter o resultado esperado.

Um responsável da guarda costeira diz-nos que “em vez de avançarem de 200 a 400 milhas náuticas como faziam antes, agora os migrantes só precisam de atravessar uma dezena de milhas. Mal saem das águas territoriais líbias, encontram os barcos da Operação Sofia, à espera de os levar para a Europa”.

“Metem uma quantidade enorme de gente nos barcos porque sabem que a distância é curta. Mas, muitas vezes, naufragam antes de chegar às 12 milhas. Por isso é que o número de mortos tem aumentado”, acrescentava um guarda.

Forças de segurança não recebem salário há 3 meses

Segundo as Nações Unidas, só em 2016, morreram cerca de 4700 pessoas nas águas do Mediterrâneo. Um número inédito. O tráfico humano aumentou. Desde janeiro, já foram resgatados do mar mais de 14 mil migrantes. Ou seja, 4 vezes mais do que nos anos anteriores.

No Departamento de Luta contra a Imigração Clandestina, em Tripoli, o número de efetivos caiu consideravelmente. Vários membros desta unidade de combate às redes de tráfico humano concentram-se noutra frente. “Temos muitos homens que partiram para Sirte, para lutar contra o Daesh. Neste momento, não temos propriamente uma força de intervenção”, explica-nos um oficial.

De acordo com os traficantes que encontramos, o fenómeno disparou após a queda de Kadhafi: nunca os lucros do tráfico foram tão avultados como agora. Um barco pneumático para fazer a travessia custa a partir de 16 mil euros; um barco de pesca pode atingir os 130 mil. “A Operação Sofia facilitou muito as coisas. Antes, os pneumáticos demoravam até 24 horas a chegar. Agora, a travessia dura, no máximo, 4 horas”, revela um deles.

A escassez de meios é flagrante nos organismos dependentes do Ministério do Interior: há 3 meses que os salários não são pagos. Falta de tudo, afirma um oficial: “Material diverso, computadores, carros, uniformes, meios de comunicação noturnos, os walkie-talkies… Precisamos constantemente de ajuda”.

Não demora muito tempo até que apontem o dedo a quem deixou a situação chegar a este ponto. Segundo o diretor deste departamento, “a União Europeia, a Organização Internacional para as Migrações, as Nações Unidas não respeitam os acordos assinados com o Estado líbio relativamente às ajudas financeiras, logísticas e técnicas. Isso agravou consideravelmente o problema. Gostava de salientar que a Líbia não vai continuar a desempenhar para sempre o papel do polícia que trabalha de graça para travar os migrantes em direção à Europa. O objetivo, a nível europeu, é fazer da Líbia uma zona cinzenta, ou seja, um país onde se pode reagrupar os imigrantes ilegais para os tornar cidadãos líbios. Mas isso não vai acontecer. O povo líbio nunca o irá aceitar”.

“Não nos abandonem aqui”

Os migrantes intercetados pelas autoridades são enviados para um dos 22 centros de internamento que existem. Visitámos um desses centros, situado em Tripoli. Um dos guardas deixou-nos entrar. O responsável não se encontrava nas instalações. A tutela destes espaços pertence ao Ministério do Interior, mas na maior parte dos casos a vigilância é assegurada por grupos paralelos, nomeadamente milícias que disputam o poder.

Cerca de uma centena de homens amontoa-se no hangar. As condições de higiene são praticamente inexistentes. Há insetos por todo o lado. Muitos destes migrantes estão doentes, outros feridos.

Entramos na ala das mulheres. À primeira vista, as condições são melhores. Mas é uma impressão que não dura muito tempo. “Eu estou grávida. Não tenho nenhum acompanhamento médico. Não comemos, não dormimos. Eles disparam sobre as pessoas a toda a hora”, conta uma mulher.

Todas estas mulheres nos dizem terem sido detidas ou na rua ou na casa onde se encontravam. “Estás a andar na rua e apanham-te. Primeiro dizem-te ‘bom dia’, depois raptam-te. Para eles somos um objeto de negócio. Negoceiam com as nossas vidas, enriquecem às nossas custas! Recebem ajudas internacionais e nós não vemos nem 5% do dinheiro. Não viemos para a Líbia receber donativos. Viemos para tentar melhorar as nossas condições de vida. Se não nos querem no território deles, então que nos ajudem a sair daqui”, salienta outra das detidas.

Algumas das mulheres que estavam grávidas afirmam ter perdido os bebés. Muitas dizem ser espancadas regularmente. Há vários relatos de violações. “Se não tivermos dinheiro, abusam de nós. Por trás! Tenho um filho. Às vezes, pede-me leite. Mas, quando não tens dinheiro, tens de jogar o jogo. Dás-lhes o que eles querem, deixas que abusem de ti”, dizem-nos.

Antes de sairmos deste local, uma das mulheres interpelou-nos: “Não nos abandonem aqui. Estamos exaustas. O corpo está exausto…”.

Sobreviver em Tripoli

Nem todos os centros vivem imersos na violência. Num outro espaço, também em Tripoli, é o diretor que nos faz uma visita guiada e nos mostra a degradação das instalações, a falta de meios para tratar das pessoas, a falta de dinheiro para pagar aos fornecedores. Aqui há muito que a comida não é suficiente. A ajuda humanitária é manifestamente escassa.

Para o diretor, “as ONG não fazem o trabalho direito, apesar das ajudas financeiras que recebem de alguns países. Isto é o que as ONG nos dão em cada dois, três meses. Fazem toda a propaganda mediática, até vêm aqui filmar a distribuição de sacos a alguns migrantes…”.

Ninguém aqui se queixa de maus tratos. Mesmo assim, os detidos querem partir o mais rapidamente possível. Um grupo de mulheres conseguiu fugir de uma rede de prostituição. Foram detidas quando tentavam entrar num barco rumo à Europa. “Eles tratam-nos bem. Mas estamos fartas de aqui estar. Eles querem que regressemos à Nigéria e nós também. Mas a Organização Internacional para as Migrações diz que temos de esperar. E então esperamos. Até agora ainda não percebemos o que nos vai acontecer. Dezembro está a chegar ao fim. Temos de ir para casa”, afirma uma delas.

Segundo as autoridades líbias, desde maio de 2015, já foram repatriadas cerca de 8 mil pessoas. Mas, para a maioria, o regresso é praticamente impossível. “As embaixadas dos países africanos não cooperam por uma simples razão: elas não têm presença na Líbia. Em segundo lugar, também não sabem o que fazer em caso de repatriamento. Estas pessoas são consideradas um problema nos seus países de origem, eles ficam bem aliviados de os ver partir. Mas ninguém quer saber do fardo que isso representa para a Líbia”, aponta o diretor do centro.

Os que não foram detidos, tentam sobreviver como podem. Há uma rotunda em Tripoli que se tornou conhecida por ser o local onde dezenas de homens vêm todos os dias procurar trabalho, sobretudo nas obras. Mas alguns dos empregadores são menos escrupulosos.

“Há casos diários de disparos sobre os migrantes. Tratam-nos como animais. Raptam as pessoas e depois obrigam-nas a pagar milhares de dinares. Ou então levam-nos para trabalhar e depois não pagam, expulsam-nos. Não é justo. A ONU tem de nos ajudar”, declara um dos homens.

Para todos os que estão aqui, o objetivo é só um: chegar à Europa. Um deles, Osmane, diz-nos o seguinte: “Só estamos aqui para poder atravessar. Para ir até Itália. Vimos aqui todas as manhãs tentar encontrar biscates com os árabes. Tentamos poupar alguma coisa, mas só com muita sorte. Há quem venha aqui para nos roubar, para nos vender às prisões. Para sermos libertados, é preciso pagar mil dinares, às vezes 2 mil. Os que conseguem poupar, arranjam transporte para a travessia. Mas eles apanham-nos mesmo no mar e mandam-nos para a prisão. E depois tem de se pagar para sair. É o que fazem com os migrantes aqui na Líbia…”.

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