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Nadia e Lamiya: As duas raparigas que o Daesh não conseguiu derrubar


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Nadia e Lamiya: As duas raparigas que o Daesh não conseguiu derrubar

O facto de pertencerem à comunidade yazidi tornou-as alvo do grupo Estado Islâmico. Viram os familiares mais próximos serem assassinados no norte do Iraque, foram raptadas, violadas, convertidas em escravas sexuais. Um dia conseguiram fugir das mãos dos seus torturadores. Nadia Murad e Lamiya Aji Bashar decidiram contar ao mundo o que viveram e tornaram-se porta-vozes do povo yazidi, que o Daesh pretende aniquilar a todo o custo. A coragem destas duas mulheres valeu-lhes o reconhecimento do Parlamento Europeu, através do Prémio Sakharov, que acabaram de receber.

Isabelle Kumar, euronews: Como é que se sentem hoje em dia, depois de tudo o que passaram?

Nadia Murad: Enquanto uma das mais de 6500 mulheres e crianças yazidis que o Daesh tornou reféns, posso dizer que, hoje em dia, sinto-me muito feliz e honrada por receber este prémio. O objetivo do Daesh era calar as nossas vozes, era roubar-nos a honra. Eles consideram que somos menos que nada, olham para nós como corpos que só servem para violar, traficar ou vender. O objetivo deles era acabar com a existência dos yazidis.

euronews: Lamiya, o que é que sentiu quando recebeu este prémio?

Lamiya Aji Bashar: Sendo uma rapariga da comunidade yazidi e tendo sido uma das vítimas das violações do Daesh, este prémio faz-me sentir muito feliz, sinto que é uma grande demonstração de apoio por todos aqueles que foram raptados e derrotados às mãos deste grupo. Milhares de mulheres foram violadas pelo Daesh. Eu sou apenas uma delas.

euronews: Quando contam os momentos aterradores que viveram têm expetativas sobre a tomada de ações concretas?

NM: Nós queremos que o mundo acabe com isto, que castigue aqueles que nos estão a tentar exterminar, que leve os criminosos ao Tribunal Penal Internacional. O nosso objetivo é proteger as mulheres e as crianças, as minorias, as pequenas comunidades como os yazidis, os cristãos que vivem no Iraque e na Síria.

euronews: Para perceber o alcance da corajosa missão que assumiram, é preciso conhecer as vossas histórias. Sei que é difícil falar nisto, mas o que é que aconteceu durante o período de cativeiro? Creio saber que a Lamiya, por exemplo, esteve quase dois anos sequestrada pelo autodenominado Estado Islâmico…

LAB: Estive um ano e 8 meses com o Daesh. Estávamos lá apenas para sermos violadas, vendidas e trocadas por outras mulheres sempre que lhes apetecia. Faziam o que queriam de nós. Tiravam os bebés das mães. As raparigas eram vendidas nos mercados. As mulheres e as crianças eram treinadas para usar armas.

euronews: Que idade tinham as raparigas?

LAB: Algumas tinham apenas 8 anos. Mas havia também mulheres, algumas já com 4 filhos. Todas nós éramos escravas.


Nadia Murad

  • Nadia nasceu e cresceu na aldeia de Kocho, no norte do Iraque
  • Foi raptada pelo Daesh em agosto de 2014, quando a sua aldeia foi atacada
  • 18 dos seus familiares foram assassinados
  • Tornou-se Embaixadora da Boa Vontade da ONU e recebeu o Prémio Sakharov
  • Nadia vive agora na Alemanha


Lamiya Aji Bashar

  • Lamiya tinha 16 anos quando foi tornada refém pelo Daesh
  • Foi mantida em cativeiro durante 20 meses
  • Durante a fuga, ficou desfigurada depois de pisar numa mina
  • Tal como Nadia, instalou-se na Alemanha

euronews: Nadia, o que é que estes homens lhe fizeram a si?

NM: As histórias das sobreviventes como eu e a Lamiya são as histórias de milhares de raparigas do Iraque e da Síria, que ainda vivem sob tortura numa tragédia que não tem fim. Apesar disso, nem uma criança foi salva até agora. São as reféns que têm de tentar encontrar uma saída, mesmo sem saberem para onde fugir. Mesmo assim, fogem, como as duas raparigas que escaparam com a Lamiya: acabaram por morrer, mas preferiram esse caminho a ficar com o Daesh.

euronews: E o que aconteceu quando a Nadia tentou fugir do Estado Islâmico? A primeira tentativa não resultou…

NM: É muito difícil fugir para as raparigas yazidis. O Daesh controla toda a região. Sempre que uma rapariga consegue escapar e procura abrigo numa casa das redondezas, as pessoas entregam-nas de volta ao Daesh. Por isso é que achávamos que isto nunca iria terminar. Mas, apesar disso, eu decidi que preferia tentar e morrer, do que ficar com eles. A primeira vez que tentei fugir, violaram-me. Decidiram não me matar, violaram-me. Mas eu não me deixei abater. Tentei outra vez e acabei por me conseguir libertar.

euronews: Lamiya, houve em algum momento um resquício de misericórdia no comportamento destes homens?

LAB: Não. Não, nunca conheci ninguém no Daesh que pudesse dizer que tivesse bons sentimentos.

euronews: A Lamiya pisou numa mina quando tentava fugir… Como é que se encontra neste momento?

LAB: Recebo regularmente acompanhamento médico. O meu olho ainda não sarou, nem a minha cara. Toda a minha cara foi atingida.

euronews: Um dos vossos objetivos é fazer com que eles sejam derrotados. Como é que o Estado Islâmico funciona exatamente?

NM: Os membros do Daesh afirmam que estão a aplicar as leis da sharia. Não se trata de uma ou duas pessoas, nem tão pouco de mil. O Daesh tem muitos apoios, tem muitas armas, tem petróleo, dinheiro, tem tudo aquilo de que necessita. Nunca se ouviu dizer que o Daesh tem falta de comida, ou de roupa, ou de armas. Já passaram dois anos da guerra contra o Daesh na Síria e no Iraque. E eles não têm problemas de falta de armas, nem de dinheiro, nem de roupa. Ou seja, eles contam com muitos apoios, seja de países ou de organizações.

euronews: Lamiya, o que é que reteve do modo de funcionamento deste grupo?

LAB: Eu fui levada para Mossul durante cinco meses. Obrigaram-me a fazer bombas para carros armadilhados e coletes de explosivos.

euronews: Vocês são ainda muito jovens, a Lamiya ainda é uma adolescente… Que esperanças é que têm para o futuro?

LAB: Eu gostava de ter um futuro como qualquer outra rapariga da minha idade. Quero ir à escola, quero aprender línguas. Mas o mais importante para mim é estar de novo com a minha família. Gostava que todas as raparigas que foram sequestradas pudessem reencontrar as suas famílias.

euronews: Nadia, que esperanças tem para o futuro?

NM: O meu sonho é que as comunidades minoritárias no Iraque e na Síria, como os yazidis e os cristãos, sejam protegidas e não venham a desaparecer. O objetivo do Daesh é erradicar estas comunidades. O meu objetivo é travar isso, para que as pessoas possam viver à vontade independentemente da cor da pele, da religião, da nacionalidade. As pessoas têm de ser respeitadas pelo que são.

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