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Ao 6.° dia de "guerra" contra a poluição, China sacrifica indústria e até churrascos

O governo de Pequim apela à coordenação de medidas antipoluição pelos governos locais onde o alerta vermelho foi implementado e, em Portugal, a Quercus critica UE e indústria automóvel.

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Ao 6.° dia de "guerra" contra a poluição, China sacrifica indústria e até churrascos

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A poluição obrigou a China a sacrificar a produção industrial e a impedir a circulação automóvel em algumas das regiões mais afetadas pela atual nuvem de poluição. O problema está a afetar diretamente 460 milhões de pessoas.

Pelo sexto dia consecutivo, parte do norte do país está envolto em “smog”, termo inglês que designa uma nuvem de partículas poluentes, e na terça-feira foi levantado um alerta vermelho para 24 cidades.

Shijiazhuang, a capital da província de Hebei, vizinha de Pequim, é a cidade mais severamente atingida pela poluição, informou o Ministério Ambiental da China, mas apenas esta terça-feira foram encerradas as escolas.

Na capital chinesa, por exemplo, até os churrascos foram proibidos, numa altura em que até os arranha-céus se perdem de vista, escondidos pela poluição. Mais de 180 voos de e para Pequim foram cancelados devido ao “smog.”

O ministério do Ambiente apelou às cidades mais atingidas para coordenarem as medidas de combate às emissões de gases poluentes.

O representante na China da Organização Mundial de Saúde (WHO, na sigla inglesa) reconhece que “o governo chinês não está a esconder o problema”.

“Toda a gente fala da poluição e até o primeiro-ministro apelou à guerra contra a poluição. Há um grande investimento para melhorar a qualidade do ar, no entanto, o que vemos hoje em dia são as consequências dos pecados de toda uma geração devido ao desenvolvimento rápido que, como se nota, não teve o ambiente em consideração”, lamenta o alemão Bernhard Schwartländer, representante da WHO na China.

A China é o maior poluente do mundo, como denunciou já este ano o ator Leonardo di Caprio, num dos documentários mais desconcertantes deste ano e, certamente, um dos candidatos ao Óscar da categoria: “Before the Flood“m realizado por Fischer Stevens.

Há um ano, o governo de Pequim foi um dos mais de 190 países que assinaram o Acordo de Paris e se comprometeram a combater as causas das alterações climáticas que têm vindo a contribuir para a ocorrência de catástrofes naturais e o extremar de temperaturas um pouco por todo o planeta.

Na rua, uma residente em Pequim, Li Huicun, de 45 anos, assume-se “preocupada” porque “há muitas partículas poluentes no ar”. “Quando era criança, tínhamos apenas nevoeiro, mas agora é mesmo uma nuvem de poluição”, lamenta, protegida por uma máscara facial.

Um outro residente, Wang, de 35 anos, considera que “as medidas do governo deviam ser mais abrangentes”. Não deviam apenas fechar fábricas e limitar o trânsito quando implementam um alerta vermelho. Isto é superficial. Deviam era mudar a estrutura de desenvolvimento económico”, sugere.

Em Portugal, Quercus critica União Europeia e indústria automóvel

Em Portugal, a poluição atmosférica é também uma preocupação. Lisboa já implementou algumas medidas para limitar o trânsito automóvel no centro da capital e há cerca de um mês um estudo divulgado pela associação Zero, com base em estimativas da Agência Europeia do Ambiente, concluiu que a má qualidade do ar terá provocado 6700 mortes prematuras anuais no país.

A Quercus, entretanto, criticou a Diretiva aprovada a 14 de dezembro pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho Europeu relativa aos valores de redução de emissões pelos Estados-membros e que vai entrar em vigor a 31 de dezembro.

Em comunicado divulgado terça-feira, a associação ambiental portuguesa considera esta Diretiva europeia “pouco ambiciosa”, reveladora de “uma diminuta preocupação com as metas de sustentabilidade europeias” e “uma oportunidade perdida” de serem dados “passos firmes e efetivos no caminho de uma sociedade europeia e mundial que se pretende com elevados padrões de sustentabilidade, qualidade do ar e saúde pública.”

“É neste momento oportuno relembrar que, a proposta aprovada é a que apresenta o cenário menos ambicioso no que respeita à diminuição do número de mortes prematuras causadas pela poluição do ar”, diz a Quercus, remetendo para a tabela seguinte.

Já esta quarta-feira, a Quercus anunciou o pedido às autoridades europeias e nacionais que investiguem “de forma séria” o relatório “Mind The Gap 2016”, da Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E), que indica que os automóveis gastam em média mais 42 por cento de combustíveis do que é promovido pelos fabricantes — mais de 28 por cento do que há três anos.

A associação acusa os fabricantes de manipulação dos “dados relativos à eficiência no consumo de combustível”, com a Mercedes a revelar-se, no referido relatório, com a marca com a maior diferença entre o consumo de combustível real e o anunciado como verificado em laboratório (54 por cento).

Esta diferença entre o consumo real e o consumo de laboratório custa, na Europa, cerca de 549 euros/ ano a mais nos gastos dos condutores com combustíveis e quanto mais combustível usado, mais recursos fósseis queimados e mais poluição gerada.