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Da Síria para a Alemanha: O reencontro com Kawa Eli


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Da Síria para a Alemanha: O reencontro com Kawa Eli

Em tempos, a região do Ruhr, na Alemanha, era considerada o coração industrial do país. Mas o encerramento de várias minas de carvão, por exemplo, atirou muita gente para o desemprego. O nível de pobreza está acima da média nacional. Muitos dos migrantes e refugiados que chegam à Alemanha vêm parar aqui. Entre eles encontra-se uma família curda que conhecemos em 2015.

Há dois anos, um pequeno barco de madeira atravessava o Mar Negro. A bordo, 70 refugiados sírios rumavam à Roménia. Foi aí que encontrámos, num campo de refugiados, Kawa Eli, a sua mulher e a filha recém-nascida. Quisemos saber o que foi feito deles passado todo este tempo. Marcámos encontro em Gladbeck. Mas primeiro recordamos como foi conhecer Kawa Eli.

A história de Kawa Eli

As agências de notícias lançaram o alerta: um barco sobrelotado tinha atravessado o Mar Negro, abrindo o debate sobre uma potencial rota alternativa ao Mediterrâneo para os refugiados.

Em 2014, Kawa Eli e Emina fugiram de Kobane, no norte da Síria, quando o autodenominado Estado Islâmico tomou várias localidades curdas. Foi num abrigo temporário do outro lado da fronteira, na Turquia, que Emina deu à luz a pequena Huner. O futuro, decidiram, estaria na Europa.

“Vi o que era a guerra, vi muitos homens mortos, vi pessoas a morrerem à minha frente. Vi gente que ficou sem membros, sem pernas. Lembro-me de assistir à morte de um homem que conhecia muito bem. Não é fácil vermos a nossa casa ser destruída. De um momento para o outro, foi tudo pelos ares”, dizia-nos Kawa Eli.

Jogámos uma partida de xadrez para ajudar a matar o tempo neste campo de refugiados romeno… Em menos de 20 minutos, Kawa Eli faz xeque-mate. Combinámos a desforra para dali a dois anos. E eis que em dezembro de 2016, voltámos a bater à sua porta.

Refugiados preferem o oeste da Alemanha

Emina está grávida de uma segunda menina. A família vive agora em Gladbeck, uma cidade de cerca de 75 mil habitantes. Entre eles, vivem perto de 1200 refugiados. Enquanto perdemos novamente um segundo jogo de xadrez, Kawa Eli conta-nos como as autoridades romenas o acusaram de tráfico humano, por atravessar fronteiras ilegalmente com a mulher e a filha. Passou seis meses na prisão, enquanto Emina e Huner passavam pela Hungria e pela Áustria para alcançarem a Alemanha.

Filming INSIDERS in Gladbeck, Germany

Um dia, recebeu a notícia: “Disseram-me: a tua mulher já está na Alemanha. Está tudo bem, não te preocupes. Até me esqueci que estava na prisão. Fiquei tão feliz. Conseguiram chegar à Alemanha…”.

Kawa Eli foi julgado por um tribunal romeno e acabou por ser absolvido da acusação de tráfico humano. Mas teve de pagar uma multa no valor de 1300 euros por ter atravessado a fronteira ilegalmente. Depois, veio juntar-se à família. Foi muito longo o período que esteve afastado.

“A Huner ficou a olhar para mim e, de repente, perguntou: ‘Papá?’. E eu disse: ‘Sim, é o papá”. Mas ela ficou ali dois ou três minutos sem se mexer. Depois começou a sorrir para mim, a brincar comigo, a mexer no meu cabelo… O momento que mais me marcou foi quando lhe disseram: ‘Vai até ao pai’. E ela veio a correr para mim, a rir-se. Foi um momento fantástico…”, conta-nos.

Emina recorda também o momento do reencontro com o marido: “Foi uma sensação indescritível quando me disseram que ele tinha saído em liberdade da prisão romena… E voltei a senti-la quando o vi na gare ferroviária aqui na Alemanha. Primeiro, porque não acreditava que ele tinha conseguido mesmo vir ter connosco. Foi tão bom quando nos juntámos os três outra vez. Eu não o vi logo quando o comboio chegou. No meio da confusão, só vislumbrei a mala dele… E aí pensei: ‘É mesmo verdade! Ele está aqui. O Kawa voltou!’. Depois comecei a correr e ele apareceu mesmo. E eu abracei-o…”.

As autoridades alemãs começaram por instalá-los no leste do país. Mas, como tinham vários familiares nesta zona, decidiram vir também. Como é que este pequeno município olha para os recém-chegados?

O vice-presidente da Câmara local, Rainer Weichelt, afirma que foi identificado “um fenómeno, sobretudo durante a primavera deste ano, de deslocação de um grande número de refugiados que vêm do leste do país para a região do Ruhr, e aqui para Gladbeck especificamente. Eles não se sentiam seguros no leste. Mesmo assim, a verdade é que a taxa de desemprego é mais baixa nessa parte do país do que aqui no Ruhr”.

“Se me deixarem, eu quero ficar aqui”

Huner está à espera de vaga num jardim infantil dirigido por uma igreja local. Em Gladbeck, há cerca de 150 crianças refugiadas em idade pré-escolar. Apesar de a situação financeira não ser das melhores, a cidade decidiu construir novas infraestruturas.

“Tenho a certeza que a Huner vai relacionar-se facilmente com as outras crianças. Nós queremos muito que ela aprenda alemão logo desde o jardim infantil. E eu falo curdo com ela. Nós fomos a alguns jardins infantis, mas não a aceitaram logo porque tem apenas dois anos e eles só deixavam entrar a partir dos quatro”, explica-nos Kawa Eli.

Até agora, esta família move-se num círculo social limitado à comunidade curda. Não têm ainda amigos alemães. O processo de integração anuncia-se longo, sobretudo no que diz respeito a encontrar um trabalho. Sendo essencial a aprendizagem da língua, há cursos suficientes para todos?

Segundo Rainer Weichelt, “as listas de espera são significativas. Não temos outra resposta a dar. A partir do verão de 2015, as coisas começaram a tornar-se mais difíceis. Quando temos um milhão de pessoas a entrar num país, só por magia é que todos os sistemas podem acompanhar o ritmo. Primeiro, tivemos que desenvolver passo a passo as estruturas administrativas”.

Gladbeck desenvolveu-se durante a Revolução Industrial graças aos imigrantes polacos. Hoje em dia, são os refugiados que instilam uma nova vida. “Neste momento, o que quero é ter aulas de alemão e tirar a carta de condução. Daqui a uns anos, vou ver se vale a pena voltar a tocar música. Gostava de fazer isso também. Se me deixarem, eu quero ficar aqui na Alemanha”, diz Kawa Eli.

Entretanto, é Huner quem dá os primeiros passos na integração: conheceu Mia e Julie, de 4 e 5 anos, no parque infantil e são estas duas amigas que a fazem, pela primeira vez, sentir-se em casa.