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Um caracol derrotou o outro muro de Trump


Irlanda

Um caracol derrotou o outro muro de Trump

“A construção do muro vai destruir o habitat das dunas”, lia-se numa petição que recolheu mais de 100 mil assinaturas. O muro em questão circundava um complexo hoteleiro, que inclui um resort de golfe, junto à praia de Doughmore, na costa oeste da Irlanda. O proprietário é o grupo Trump, que pretendia erguer uma barreira para proteger a estância turística da erosão provocada… pelo avanço do mar. Só que não estava à espera que uma espécie autóctone de caracol lhe fizesse frente.

O muro do México, por razões óbvias, centra as atenções. E depois há o escocês, que foi levantado em Balmedie para delimitar outro campo de golfe, num braço de ferro com os habitantes locais que está para durar. Mas o simbolismo da desfeita causada pelo “muro irlandês” não passou despercebido. Tinha cerca de 4 metros de altura, estendia-se ao longo de mais de 3 quilómetros e ia custar 10 milhões de euros. Dessa forma, o Trump International Golf and Hotel, em Doonbeg, ficaria mais resguardado das agruras do Atlântico. Houve quem questionasse mesmo: seria este um sinal que os efeitos do aquecimento global são, afinal, reconhecidos pelo agora presidente?

Até que apareceu um rival inesperado. O pequeníssimo Vertigo angustior mede, em média, cerca de dois milímetros. Mas esta zona da Irlanda é uma das suas casas. E os grupos ambientalistas fizeram questão de salientar isso mesmo, assim como a importância das dunas costeiras, que os surfistas vieram ajudar a defender. Sendo o Vertigo angustior uma espécie de caracóis quase ameaçada, é protegida pela diretiva europeia Habitats.

No início de dezembro, os representantes de Trump retiraram o pedido face à chuva de críticas que se abateu sobre o tranquilo resort. Argumentava-se que os estudos científicos exigidos pelas autoridades locais iam demorar anos. O New York Times viria a ostentar como título: “O caracol ganhou”. Mas o presidente americano, conhecido por não gostar propriamente de contrariedades, não parece ter esquecido o episódio da pacata localidade irlandesa.

No dia 27 de janeiro, Trump deu uma conferência de imprensa ao lado de Theresa May, a primeira-ministra britânica, referindo-se a “uma muito má experiência”, na altura em que ainda estava ligado aos seus negócios, com a Europa – a que chamou de “consórcio”- a ser “muito, muito dura no processo de obtenção das autorizações necessárias”. Estaria a falar de Doonbeg. E da sua derrota face à surpreendente força da natureza.