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Crescem os receios de que a violência dos subúrbios de Paris alastre a outras cidades francesas

Mais duas noites de motins em França.

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Crescem os receios de que a violência dos subúrbios de Paris alastre a outras cidades francesas

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Mais duas noites de motins em França. Enormes estragos, por enquanto circunscritos aos subúrbios de Paris, mas que fazem lembrar todos os motins que a França tem conhecido nas últimas décadas. O problema não é novo e reaparece ciclicamente desde os anos 90 nestes bairros dos arredores da cidade marcados pelo desemprego, falta de perspetivas de futuro e um sentimento de injustiça muito forte entre os jovens.

De cada vez que a violência explode, o espetro dos motins de 2005 surge em todos os espíritos. Na altura, a França viveu semanas seguidas de violência, na sequência da morte de dois jovens em fuga da polícia, eletrocutados num transformador da companhia nacional de eletricidade. A revolta começou entre os jovens do bairro e estende-se a quase todos os subúrbios do país.

Os agentes da polícia foram ilibados pelo tribunal no final de um processo judicial que durou dez anos e nos subúrbios das cidades francesas nada mudou nos últimos 20 ou 30 anos. Diversas medidas políticas foram entretanto iniciadas, mas o mal está profundamente enraizado nesta geração com origens na imigração.

“Há um forte apelo de igualdade, ou seja, os problemas a que assitimos neste momento não são apenas problemas com a polícia, não são apenas as questões de um polícia que não está a fazer o seu trabalho, é um problema de falta de políticas que mantenham a igualdade de direitos face aos polícias”, afirma o sociólogo Sébastien Roche.

O que denunciam há décadas estes jovens nascidos em França é o fim da discriminação quotidiana, os controlos de polícia inopinados, que foram recentemente enquadrados pelo conselho constitucional.

“Isto não é normal. Estamos todos frustrados. É a guerra com a polícia. Algemam-nos e depois de estarmos nas viaturas começam a tratar-nos de árabes sujos, pretos sujos, pensam que podem permitir-se tudo”, afirma um jovem.

Outro queixa-se: “Estamos sempre a ser isultados e controlados. Perdoe-me a expressão mas se eu tivesse outra cor de pele, penso que a minha vida neste bairro seria melhor”.

E, entre os que não fazem parte dos que respondem pela violência, o sentimento de frustração é o mesmo, como refere outro jovem: “Isto é a imagem que temos desde sempre. Os jovens dos subúrbios que destroiem tudo, para se fazerem ouvir. É esta a imagem que temos, infelizmente”.

O braço-de-ferro entre as forças da ordem e os jovens dos bairros periféricos é uma das origens dos fenómenos de populismo crescentes em França e um grande desafio para os candidatos à eleição presidencial desta primavera.