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No Chipre, "os jovens cresceram a ver os outros como inimigos"

A ilha de Chipre está dividida desde 1974. Que vantagens pode a aproximação trazer? O Insiders falou com Fiona Mullen, analista da Sapienta Economics.

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No Chipre, "os jovens cresceram a ver os outros como inimigos"

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A ilha de Chipre está dividida desde 1974. Recentemente, foram iniciadas negociações para debater a reunificação. Mas é um caminho frágil. O que está em jogo e que vantagens pode a aproximação trazer? O Insiders falou com Fiona Mullen, analista da Sapienta Economics em Chipre. A primeira parte da entrevista é dedicada ao contexto político.

Sophie Claudet, euronews: Como é que as pessoas estão a encarar a possibilidade de um acordo de paz em Chipre?

Fiona Mullen: Em termos gerais, as sondagens indicam que a maior parte quer uma solução. O problema é que nem toda a gente acredita que isso possa acontecer porque é uma situação que se arrasta há 40 anos. Há também diferenças entre as gerações: os mais velhos costumam ser a favor de uma solução, porque viveram na altura em que cipriotas gregos e turcos estavam lado a lado. Passaram pela experiência de viver juntamente com os membros da outra comunidade. Os mais novos cresceram a ver os outros como inimigos, sobretudo devido ao sistema escolar que foi implementado.

euronews: Qual é para si o principal obstáculo em todo este processo?

FM: Creio que a questão da segurança é o principal entrave. Não é apenas o receio de que aconteça o mesmo tipo de violência dos anos 60 ou 70. É uma questão de segurança em relação à identidade: será que a existência de um governo comum vai anular a minha identidade enquanto cipriota grega ou cipriota turca? Há também o aspeto da segurança económica. As pessoas querem saber como é que vai ser possível atribuir indemnizações. Eu acredito que é possível. Há muita informação que tem sido publicada sobre este assunto. E depois é a segurança relativamente ao governo em si: as coisas não funcionaram nos anos 60 e as pessoas querem saber se há mecanismos agora que garantam que não volta tudo a acontecer de novo. Ou seja, o problema é a segurança no seu sentido mais abrangente. Até nas questões mais específicas, como a presença dos soldados, é o tema que mais divide as duas comunidades.

euronews: A janela de oportunidade está progressivamente a fechar-se?

FM: Sim, eu diria que está a fechar-se rapidamente. Não há muitas oportunidades como esta, com uma Turquia disposta a adotar uma solução federal – o que nem sempre foi o caso -, e dois líderes que estão a tentar realmente unir de novo o país. Não há muitas oportunidades como esta e já estamos a perder tempo. A Turquia vai organizar em abril um referendo constitucional. O presidente Anastasiades, no sul, vai a eleições dentro de menos de um ano. Na verdade, só temos até ao final de abril, porque depois disso vai tornar-se muito, muito difícil.