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Extrema-direita agita crise de identidade na Holanda em eleições decisivas


A redação de Bruxelas

Extrema-direita agita crise de identidade na Holanda em eleições decisivas

A Holanda é considerada um dos países mais progressistas do mundo, com uma História que dá provas de tolerância, entre várias culturas e religiões, e do bom acolhimento de refugiados.

Nos costumes também é conhecido por ter uma grande abertura, sendo um dos primeiros países a legislar sobre casamento homossexual, consumo de drogas leves e eutanásia.

Mas as eleições legislativas de 15 de março têm sido marcadas pela discussão sobre o papel da extrema-direita, que agita bandeiras anti-imigração e anti-Islão, e que promete um regresso aos valores tradicionais, embora seja pouco clara sobre quais são esses valores.

Essa agitação está a cargo de Geert Wilders, de 53 anos, líder do Partido para a Liberdade (PVV) eurocético e anti-imigração.

Frequentemente considerado o homem “mais bem protegido” do país, Geert Wilders já recebeu ameaças de morte de grupos extremistas islâmicos.

O enviado especial da euronews à Holanda, James Franey, explicou que “Geert Wilders seguiu, de alguma forma, o exemplo de Pim Fortuyn, que se tornou mais conhecido na Holanda após os ataques de 11 de setembro, nos Estados Unidos. Era um político liberal e assumia a sua homossexualidade, mas criticava a imigração e o Islão, falando de questões que eram consideradas tabu na época”.

“O seu partido liderava as sondagens antes das eleições de 2002, mas foi assassinado a tiro quando saiu de um estúdio de rádio, nove dias antes da votação. Dois anos depois, o realizador Theo Van Gogh foi assassinado por um radical islâmico devido a um filme crítico do Islão. A liberdade de expressão custou a vida de ambos e deixou no ar a questão, que se agudiza há uma década, sobre o que significa ser holandês”, acrescenta o enviado especial.

Uma sondagem, em fevereiro, revelou que 86% dos inquiridos estão preocupados com a erosão dos valores tradicionais.

Wilders aproveita esse sentimento de identidade perdida para atacar tudo o que seja visto como cosmopolita, tal como a União Europeia e a diversidade cultural, mas diz-se protetor dos gays e dos direitos das mulheres, que vê como vítimas na sociedade muçulmana.

Patrick, um dos apoiantes de Wilders, disse à euronews que “somos demasiado tolerantes. Assumo que sou homossexual e, no passado, fui vítima de muita violência. Todas as semanas me maltratavam, recebia insultos, intimidação, ameaças. Só porque sou gay fui espancado por uma dúzia de jovens de Marrocos, da Turquia e da Somália, que me atacaram num parque de estacionamento. Fui apresentar queixa e testemunhei duas vezes, mas nada”.

Entre os 17 milhões de habitantes, um milhão de pessoas são muçulmanas e Wilders faz, amiúde, ataques ao Islão.

O líder do PVV promete banir o Corão (livro sagrado), as mesquitas e escolas muçulmanas e deportar muçulmanos que tenham cometido crimes. Wilders já foi condenado por comentários contra marroquinos, a quem chama de escória.

Um empregado de café afirma à euronews que “a população turca não gosta nada dele, mas não são apenas os turcos. Os espanhóis, os marroquinos, muitos outros também não. Se entrarem aqui e eu disser “Wilders”, vão querer matá-lo porque ele diz demasiadas coisas sobre o Islão e não apenas sobre o Islão, mas sobre muitas outras crenças”.

Um habitante de origem marroquina disse que “nem todos os muçulmanos são maus. Wilders odeia os muçulmanos, não faço ideia porquê, mas eu não odeio Geert Wilders”.

Consideravelmente religiosa até aos anos 50 do século passado, a população holandesa foi-se afastando da Igreja, sobretudo das confissões católica e protestante.

A liberalização de valores nos anos 60 e a modernização tecnológica e económica criou vários pólos.

Nestas eleições concorrem 28 partidos, dos quais metade poderão assumir assentos no Parlamento.

O professor de sociologia Matthijs Rooduijn explicou que “não é possível compreender a ascensão deste partido (PVV) sem pensar no conceito de individualidade”.

“A sociedade holandesa sempre foi “polarizada”, isto é, existem vários grupos sociopolíticos e as pessoas geralmente votavam no partido ao qual pertencia o seu grupo. No passado, obviamente, a religião era muito importante: o país dividia-se, sobretudo, em protestantes e católicos, uns no norte e outros no sul. A religião também era muito importante quando se tratava da política e, em certa medida, também tinha um forte impacto na escolha do partido em que se votava. Agora, as pessoas mudam muito de partido e um daqueles em que podem votar é o PVV”, acrescentou.

Mas mesmo que ganhe com os 20% que lhe atribuem as sondagens, à frente da atual coligação de centro no poder, Wilders dificilmente será chefe de governo porque nenhum partido quer fazer uma coligação com o PVV.

Sylvana Hildegard Simons fundou, há três meses, o partido Artikel 1, anti-racista. “Primeiro, é este grupo de pessoas que está a ser visado, mas o que faríamos depois de o eliminarmos?”, perguntou aquela que é também atriz e apresentadora de televisão.

“Qual será o próximo? Podem ser as mulheres, os gays, os negros, qualquer pessoa que amamos e que faça parte da nossa vida. Há muita coisa em jogo e não podemos ficar divididos”, concluiu Sylvana Hildegard Simons.

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