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Qual o futuro da União Europeia?


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Qual o futuro da União Europeia?

Prestes a assinalar os 60 anos sobre o Tratado de Roma, a União Europeia debate-se com múltiplas crises. A jornalista da euronews, Isabelle Kumar, foi até ao Parlamento Europeu e falou com vários políticos de posicionamentos diferentes sobre aquilo que defendem deve ser o futuro da União Europeia.

A União Europeia chegou a um ponto de não retorno?

Isabelle Kumar, euronews

Divisão e descontentamento – nada de novo na Europa. A diferença é que, desta vez, os líderes da União Europeia pensam poder traçar um plano para mudar isso. Um plano que será discutido dentro de poucos dias pelos líderes europeus.

Unidade parece ser a palavra-chave do momento. Ironicamente, os líderes da União Europeia vão discutir a divisão sem precedentes do bloco nas comemorações do sexagésimo aniversário do Tratado de Roma, conhecido por apelar a uma ainda mais estreita união.

Consciente das múltiplas crises da Europa, a Comissão Europeia apresentou uma proposta de 5 opções para o futuro da Europa. Tem vários graus de integração da União Europeia: desde uma Europa reduzida ao essencial da economia com uma Europa a duas velocidades ou várias, até uma máquina europeia completamente integrada.

E, quer se goste ou não, os eurocratas terão um papel essencial na determinação do futuro da Europa. Portanto, estamos aqui no Parlamento Europeu para falar com legisladores e perceber quão próximos estão do futuro em mudança da Europa.

Começamos com dois homens que modelaram e modelam o futuro da Europa em lados opostos da divisão política.
Nigel Farage é uma quase celebridade do euroceticismo, que fez uma campanha de sucesso pela saída do Reino Unido da União Europeia.
Mas, primeiro, Guy Verhofstadt:http://expresso.sapo.pt/politica/2017-01-17-Presidente-do-Parlamento-Europeu-e-escolhido-hoje-entre-seis-candidatos, um firme defensor do projeto europeu e negociador do Brexit pelo Parlamento Europeu.

Entrevista a Guy Verhofstadt
Líder da Aliança de Liberais e Democratas pela Europa

Isabelle Kumar, euronews (IK): É visto como um dos porta-estandartes do federalismo, mas não acha que o seu sonho de uma Europa integrada está morto e que será enterrado em Roma durante as comemorações do Tratado?

Guy Verhofstadt (GV): Acho que há uma necessidade absoluta de seguir em direcção ao federalismo, de outro modo este continente não sobreviverá. Logo, acho que será uma boa oportunidade para relembrar não só o Tratado de Roma, mas, principalmente, as ideias iniciais dos pais fundadores da União Europeia: uma união política, uma união económica, uma união na defesa, e isso é exactamente aquilo de que precisamos nas décadas que hão-de vir, creio eu.

IK: Jean Claude Juncker, o representante da Comissão Europeia, apresentou 5 propostas. Parece que a proposta de uma Europa a várias velocidades está a ganhar força…

GV: Vamos ser francos: as várias velocidades já existem hoje.

IK: Então não funcionaria?

GV: Bem, não vai funcionar se não houver um grupo nuclear que tome a dianteira. Mais ou menos 20 países, talvez mais, uns 25, a avançar e, depois, um número de outros países que seguirão esse caminho. Isto, vejo como uma possibilidade.

IK: Proporia excluir países que não partilhem da sua visão?

GV: O que vejo é o oposto, neste momento. Depois do referendo do Brexit, na maior parte dos países vemos pessoas que querem mais Europa.

IK: Se olharmos para esta Europa futura, como funcionaria ela em termos de defesa? Apoia a ideia de um exército europeu?

GV: Sim, veja, por exemplo, para o que se passa na Síria. O que fizemos nós na Síria? Nada, mesmo nada, mas temos o resultado, todas as consequências negativas do conflito na Síria. Logo, acho que chegou a altura de nos organizarmos.

IK: Pode dizer-me quais os 3 assuntos nos quais concorda com os políticos eurocépticos?

GV: Quando eles dizem, por exemplo, que não somos capazes de gerir a crise de refugiados, eu concordo; quando dizem que não temos bons resultados na abordagem à crise financeira, eu concordo; quando todos eles dizem que a União Europeia é demasiado burocrática, eu concordo. Contudo, a resposta, a solução para isso não é recuar na história e cair no velho modelo dos Estados-nação que criaram tantos problemas e tanta tragédia no século XX.

IK: Se lhe perguntasse pela sua posição na integração europeia numa escala de zero a 5, 5 sendo o máximo, os tais Estados Unidos da Europa de que fala que posição teriam?

GV: Ponha-me no meio, não há problema!

Entrevista a Nigel Farage
Europa da Liberdade e Democracia Direta

Isabelle Kumar, euronews (IK): Nigel Farage, a Europa atingiu o ponto de não retorno?

Nigel Farage (NF): Penso que sim, já há uns tempos. Se virmos as múltiplas crises que enfrenta, primeiro o Brexit, que é talvez a pior coisa que já aconteceu à União Europeia, em segundo lugar o afundamento das relações com a Turquia, o que quer dizer que com o Verão a chegar a crise migratória está outra vez na agenda, sem falar das amortizações gregas agora em julho e algumas grandes questões sobre vários dos principais bancos italianos, e aquele cenário contra uma grande campanha presidencial em França…
Acho que o que é claro é isto: a direção da viagem é de volta ao Estado-nação. Agora, isso não quer dizer que as pessoas não queiram uma cooperação europeia, querem e muito, mas não com este tipo de governo centralizado.

IK: A questão de uma união na defesa está firmemente em cima da mesa. É algo por que se bateu contra, está preocupado com a ideia de um exército europeu?

NF: Sim.

IK: Agora com o Reino Unido fora da União Europeia acha que um exército europeu é uma conclusão óbvia?

NF: O que eu acho interessante é ver o modo como a vitória de Trump foi usada pelo senhor Verhofstadt e pelo senhor Juncker, a dizer “ahhhh, os americanos estão a deixar a Europa, portanto temos de ter o nosso próprio exército europeu, oh e agora também querem armas nucleares.”
Na verdade, o senhor Trump não quer retirar da Europa de modo nenhum, apenas quer que os membros da NATO paguem a sua quota-parte justa. Na verdade, eu veria o desenvolvimento de um exército europeu com uma política externa própria e as suas próprias armas nucleares como sendo algo potencialmente muito perigoso.

IK: Porquê?

NF: Porque já se sabe que a União Europeia deseja expandir-se. Mostra-nos a história que uma expansão para leste por parte das nações causa conflito. Estamos numa rota de colisão com a Rússia de Putin e se estas pessoas nestas instituições tiverem mais poder, provavelmente vão usá-lo.

IK: O Brexit já está inscrito nas cartas. Antecipa uma redução, um encolhimento da União Europeia?

NF: Penso que a atitude da União Europeia agora é acreditarem que o Brexit é o Brexit e pronto, que mais nenhum país vai sair. E eu acho que eles estão errados. Vão continuar a defender o modelo que querem e eu não estou a dizer que o Frexit (saída de França da UE) vai acontecer este ano, mas que vai acontecer em 3 ou 4 anos, acredito mesmo nisso.

IK: Se avaliarmos a integração europeia numa escala de zero a cinco, onde se colocaria?

NF: Em termos de integração, zero. Em termos de cooperação, 5.

Isabelle Kumar, euronews:
Tal como acontece com o Brexit, são os europeus mais novos que vão encarar as decisões agora tomadas. Ska Keller é do grupo Verdes/EFA. É nova, ambiciosa e dinâmica – o seu objetivo público é mudar o mundo. Comecemos pela Europa.

Entrevista a Ska Keller
Co-Presidente Verdes/Aliança Livre Europeia

Isabelle Kumar, euronews (IK): Ska Skeller, muito obrigada por estar connosco. Que futuro prevê para a Europa quando se assiste a cada vez mais jovens europeus a fazer campanha por movimentos e políticos eurocépticos e populistas?

Ska Keller (SK): Na verdade, também vejo o oposto. Diria que aquilo que as pessoas, especialmente os jovens, deram como garantido como a integração europeia, a comunhão europeia, não está garantido e eles têm realmente de se mexer para as manter. Isso está a acontecer, agora.

IK: Sei que a migração é uma causa que lhe é querida. Acredita que é possível lidar com a crise migratória humanamente numa Europa a várias velocidades?

SK: Não sou grande adepta de uma Europa a várias velocidades porque corre-se o risco de deixar alguns países ou até algumas regiões para trás. Devíamos ter o objetivo de fazer avançar toda a União, precisamente como um todo. Mas há coisas que vários Estados-membro juntos podem fazer, no que toca a asilo, em específico. Estou a pensar na recolocação de migrantes, por exemplo. Alguns Estados-membro podem dizer: “Ok, há países que não querem fazê-lo, mas nós faremos alguma coisa, nós acolheremos mais refugiados.”

IK: Vamos então olhar rapidamente para o assunto do comércio. Foi contra o “pacto de comércio entre o Canadá e a União Europeia“http://www.dn.pt/mundo/interior/parlamento-europeu-aprova-acordo-ceta-de-livre-comercio-entre-ue-e-canada-5669170.html (CETA). Consegue agora olhar para ele como o futuro do comércio da UE?

SK: Não vejo o CETA como o meu ideal para futuros acordos comerciais, no CETA há demasiados pontos problemáticos. Temos ali um sistema judicial privilegiado apenas para investidores, para que estes ali cheguem e processem estados membros enquanto eu, como cidadã, como indivíduo, se os meus direitos são atropelados por uma empresa, não posso realmente fazer nada. Gostaria de ver o comércio a ser feito, mas com justeza e sem prejudicar o planeta, e a melhorar os direitos e os padrões que temos e não a fazê-los perigar.

IK: Mencionou o planeta, e é óbvio que a alteração climática é uma causa enorme agora, mas não teme que com todas as crises que a Europa está enfrentar o clima acabe por cair na agenda?

SK: Somos a primeira geração a ver de facto os impactos da mudança climática, mas também somos a última que pode fazer alguma coisa sobre isso. E se falharmos nisto, temos um enorme desastre no futuro, por isso vamos fazer alguma coisa enquanto ainda podemos.

IK: Por fim, se lhe perguntasse para olhar para a integração europeia, numa escala de zero a 5, onde posicionaria o seu ideal de futura Europa?

SK: Provavelmente, posicionar-me-ia no 4, mas com muitas reservas. Vai incluir a parte das reservas, não vai?

Viviane Reding é a entrevistada que se segue. Uma peça central da política europeia – uma conservadora do poderoso bloco EPP que representa valores europeus mais tradicionais.

Entrevista a Viviane Reding
Partido Popular Europeu

Isabelle Kumar, euronews (IK): Viviane Reding, há 5 propostas na mesa para fazer face às muitas crises que a Europa enfrenta…

Viviane Reding (VR): Primeiro, não é para fazer face a uma crise. Durante os últimos 60 anos estivemos a construir pontes e a deitar muros abaixo, é um verdadeiro exemplo para a humanidade e portanto temos de continuar. Agora há cenários diferentes na mesa, mas o meu cenário de continuidade é muito claro: gostava de chegar ao objectivo, o que significa já na próxima geração, a uma verdadeira Europa federal.

IK: Como poderia isso solucionar a crise económica, uma vez que, necessariamente, não vai poder aceitar toda a gente?

VR: A Europa é a economia mais forte no mundo. Estamos a enfrentar uma crise temporariamente, tal como outros enfrentam crises, e é uma questão de tempo saber como isso se faz. Estas são as questões para que temos de encontrar solução a curto prazo.

IK: Acha que o futuro da moeda euro está seguro?

VR: Absolutamente e não vejo no euro qualquer crise. O euro é a segunda maior divisa de troca e de reserva no mundo. Que os países que querem sair, saiam. Eu sou daquelas que diz que não retenho ninguém. Na verdade, o que está em crise é a política nacional de alguns países que simplesmente estão a fazer um muito, muito mau trabalho.

IK: Justiça e direitos fundamentais são assuntos que lhe são caros, mas esse tipo de direitos está a ser esmagado em muitas partes da Europa….

VR: Nós investimos milhares de milhões de euros para nivelar por cima esses países. A solidariedade não pode sempre uma via de sentido único.

IK: Que países?

VR: Posso citar, por exemplo, a Polónia. Também posso citar o primeiro ministro Orbán porque não acredito que o povo húngaro pense o mesmo que ele. Estes países estão a estender a mão para obter o que querem, mas são incapazes de dar alguma coisa em troca. Temos de mudar isso.

IK: Por fim, se olharmos para a sua Europa do futuro e olharmos para os níveis de integração, com o zero sendo nenhuma integração e 5 o máximo, onde a posicionaria, essa sua futura Europa?

VR: Ponho o futuro da Europa nos 4,5 porque ninguém pode ser perfeito mas é esse o nosso objetivo.

Desde o Brexit, desde o Trump, os políticos nacionalistas sonham alto. A Frente Nacional francesa tem os olhos firmemente postos nas próximas eleições presidenciais. Encontrámo-nos com o seu MPE Nicolas Bay.

Entrevista a Nicolas Bay
Europa de Nações e Liberdade

Isabelle Kumar, euronews (IK): A migração é evidentemente um assunto de peso para si, um tema onde a União Europeia tem tido dificuldades. Como encara a questão?

Nicolas Bay (NB): Estamos diante de uma migração massiva e esta migração massiva é aceite pelos tecnocratas de Bruxelas em nome do grande dogma da livre circulação.
Schengen é um fiasco total, o espaço Schengen põe em perigo os povos e é urgente reestabelecer a proteção das nossas fronteiras. Elas existiram durante séculos e mesmo milénios, não há nenhuma razão para não as restaurar.

IK: Então como solucionaria a migração: faria um corte puro e duro?

NB: É preciso não apenas reduzir drasticamente a imigração mas inverter até a tendência, ou seja, organizar o regresso aos países de origem dos clandestinos e até de alguns imigrantes legais que não têm obrigatoriamente vocação para ficar quando o título de permanência expira.

IK: A Frente Nacional preconiza uma saída da zona euro, apesar do facto de agora uma maioria de franceses se ter declarado contra um abandono da moeda única?

NB: Hoje vemos claramente que o euro serve os interesses da Alemanha em detrimento da maior parte dos outros países da zona euro, portanto tem de se reflectir para fazer evoluir este sistema para que seja conforme aos nossos interesses. É preciso encontrar uma moeda nacional e conservar uma moeda comum, ou seja, uma moeda de troca internacional feita de moedas nacionais de modo a que cada país encontre uma moeda adaptada ao estado da sua economia.

IK: Agora que assistimos a um crescendo da extrema-direita na União Europeia, imagina algo próximo a uma mini União Europeia da extrema-direita ou faria parcerias muito fortes?

NB: Penso que não há extrema-direita, há patriotas, e hoje em dia há um levantamento de patriotas em todos os países europeus, nós temos um grupo constituído por uma dezena de nacionalidades, aqui no Parlamento, em Estrasburgo.
Não temos nada de extremistas e nós posicionamo-nos para lá desse fosso esquerda-direita, um pouco ultrapassado.
O que defendemos, em todo o caso, é uma renegociação dos tratados europeus. Se isso não for possível, se, como David Cameron, embatermos contra um muro face ao senhor Juncker, bem, aí será realmente preciso propor aos franceses, via referendo, o Frexit, para, em seguida, construir a Europa de modo diferente.

IK: Se pudesse imaginar uma União Europeia numa escala de integração de zero a 5, onde se posicionaria?

_NB _: Integração zero, mas uma verdadeira política de cooperação.

Os políticos populistas são considerados mestres da comunicação – uma área onde a União Europeia nem sempre faz um brilharete. Discutimos isso e outros assuntos com Tanja Fajon uma antiga jornalista e uma estrela ascendente do Parlamento Europeu.

Entrevista com Tanja Fajon
Aliança Progressiva de Socialistas e Democratas

Isabelle Kumar, euronews (IK): Vão ter lugar reuniões essenciais para o futuro da Europa e o presidente da Comissão Europeia pôs algumas propostas na mesa. Elas apontam para um percurso válido no futuro?

Tanja Fajon (TF): Tenho de dizer que fiquei desapontada quando a Comissão apresentou o Livro Branco. Esperava uma direção clara e não 5 cenários diferentes que, na verdade, estão a causar muita turbulência agora. Na sociedade eslovena, as pessoas começam a questionar-se se agora somos a segunda ou a terceira classe de membro da União Europeia.

IK: Então, enquanto pequeno país como é a Eslovénia, se a opção de várias velocidades for a adoptada, o país será esquecido, a vossa voz não será ouvida?

TF: O que eu gostaria de dizer é que do ponto de vista de um pequeno país isto é extremamente perigoso, podemos sentir que estamos a andar atrás dos outros.

IK: As celebrações do Tratado de Roma estão mesmo aí. Que tipo de imagem vão os líderes aí presentes fixar quando imagina a foto de família no final?

TF: Calculo que vá haver alguns eventos glamorosos, uma linda foto de família, espero que com algumas mensagens muito fortes para os cidadãos.

IK: A Europa e a União Europeia em particular têm um problema de imagem. As instituições são frequentemente vistas como fora da realidade. É uma ideia representativa da Europa?

TF: Certamente que os cidadãos se sentem muito distantes daquilo que a elite política ou Bruxelas estão a fazer e penso que esta é a altura em que temos de voltar a entregar este projeto aos cidadãos. Acredito que ainda há muitas histórias positivas. Temos de ver a Europa de hoje e aquela de há 50 ou 60 anos: houve também um progresso tremendo e temos de falar, incluindo os media, sobre as histórias positivas.

IK: Por fim, gostava que imaginasse a integração europeia numa escala de zero a 5 – onde colocaria o seu ideal de futura Europa?

TF: Diria que num 4, talvez – para ter muita cooperação quando ela é precisa.

Isabelle Kumar, euronews: *Apesar de todas as ideias e propostas sobre a mesa, o futuro da União Europeia permanece vago, para dizer o mínimo.
A reunião dos líderes europeus para o assinalar do aniversário do Tratado de Roma apanha-os conscientes de que a mudança já não é uma questão de escolha: para o projeto da União Europeia tornou-se uma questão de sobrevivência.*

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