Última hora

Última hora

Os processos judiciais e financeiros que pairam sobre Marine Le Pen e o FN

A campanha eleitoral de Marine Le Pen foi marcada pela divulgação de uma chuva de processos financeiros e judiciais que pairam sobre Marine Le Pen e o Front National (FN)

Em leitura:

Os processos judiciais e financeiros que pairam sobre Marine Le Pen e o FN

Tamanho do texto Aa Aa

A campanha do Front National (FN) e de Marine Le Pen está ensombrada por diversos processos políticos jurídicos e financeiros: os assistentes europeus, o financiamento das campanhas, a subavaliação do património pessoal da candidata e ainda o caso das fotografias de execuções do Daesh, publicadas nas redes sociais.

allviews Created with Sketch. Point of view

"Há uma particularidade interessante no FN, é que eles conseguem implantar a semântica e o discurso. Os eleitores do FN repetem as palavras e a linha de defesa de Marine Le Pen, ou seja, que se trata de casos fabricados para desestabilizar um partido que está cada vez mais forte"

Valérie Igounet Historiadora, especialista do FN

Assistentes parlamentares europeus

Em março de 2015, o Parlamento Europeu levantou reservas sobre a realidade do trabalho de 29 dos 60 assistentes parlamentares dos deputados do FN. Os serviços do paralamento suspeitavam que os assistentes trabalhavam sobretudo para o partido em vez de trabalharem sobre dossiês europeus. Se estas dúvidas vierem a confirmar-se, estamos perante um caso de empregos fictícios, financiados pelos contribuintes europeus. O prejuízo é estimado em 5 milhões de euros, entre 2010 e 2016.

O Organismo Europeu de Luta Anti-Fraude (OLAF) realizou um inquérito administrativo durante vários meses e exigiu, em junho de 2016, o reembolso dos salários a seis deputados do FN – Marine e Jean-Marie Le Pen, Bruno Gollnisch, Mylène Troszczynski, Sophie Montel et Dominique Bilde. Marine Le Pen recusou e viu os seus pagamentos de eurodeputada congelados até concluir o pagamento dos 300 mil euros que lhe são solicitados.

Em janeiro de 2017, a eurodeputada e candidata à eleição presidêncial francesa apresentou queixa em Bruxelas contra esta decisão.

Mas, um mês antes, em França, foi iniciada uma investigação por fraude organizada. Enquanto deputada europeia, Marine Le Pen goza de imunidade parlamentar e não pode ser investigada, mas as autoridades francesas solicitaram, no final do mês de março de 2017, ao Parlamento Europeu, o levantamento da imunidade a Marine Le Pen e outra eurodeputada do FN – Marie-Christine Boutonnet – para poderem avançar com a investigação.

A 29 de março, Marine Le Pen anunciou numa cadeia de televisão francesa que iria apresentar queixa por difamação contra o jornal Le Monde, que publicou novos elementos sobre o caso dos presumíveis empregos fictícios”:http://abonnes.lemonde.fr/police-justice/article/2017/03/29/affaires-du-front-national-les-documents-qui-accusent-marine-le-pen_5102441_1653578.html

Entretanto, o Ministério francês do Interior apresentou uma queixa por difamação contra o vice-presidente do FN, Florian Philippot, por declarações contra a brigada anti-corrupção, que investiga o caso. Philippot comparou os agentes do Organismo Central de Luta Contra a Corrupção e Infrações Financeiras e Fiscais (OCLCIFF) a uma “polícia política”.

Financiamento ilegal de campanha

Neste caso, o FN é suspeito de ter montado um sistema de financiamento fraudulento da campanha das eleições cantonais de 2011; da eleição presidencial e das legislativas de 2012; das municipais, europeias e senatoriais de 2014 e das regionais de 2015.

Há três inquéritos em curso desde 2013. Num deles várias pessoas foram já constituídas arguídas, entre as quais o tesoureiro e um vice-presidente do FN, para além de três outros próximos de Marine Le Pen. A presidente do partido está convocada como testemunha. As acusações vão de fraude e utilização indevida de fundos, à falsificação de documentos.

O Front Nacional também é suspeito de ter utilizado os meios materiais e humanos do Conselho Regional do Nord-Pas-de-Calais para preparar a campanha presidencial de Marine Le Pen em 2012. Os colaboradores terão alegadamente sido remunerados com dinheiro dos serviços públicos para trabalho no seio do partido.

Segundo jornal Le Monde, foi uma carta anónima que levou a procuradoria de Lille a abrir um processo de investigação em janeiro de 2016. A investigação viria a ser tornada pública pelo jornal “Le Canard Enchaîné” – o jornal que revelou o “Penélope Gate” – em abril de 2017.
Na mira da justiça estão três membros do FN, entre os quais o atual diretor de campanha de Marine Le Pen, David Rachline.

Declarações de património dos deputados

No caso das declarações de património, a suspeita é de que Marine Le Pen e o pai, Jean-Marie Le Pen, terão subavaliado diversos bens imobiliários na declaração de 2014.

O procurador nacional para as questões financeiras ordenou a abertura de um inquérito em janeiro de 2016 a pedido da Alta Autoridade para a Transparência da Vida Pública. Se as suspeitas vierem a ser confirmadas, Marine Le Pen arrisca uma pena que pode ir até três anos de prisão, 45 mil euros de multa e 10 anos de inelegibilidade.

Publicação de fotos do Daesh

-Há ainda o caso da publicação das fotos da propaganda do grupo Estado Islâmico (EI) em 2015. Em resposta a uma crónica de um jornalista que fazia um paralelo entre o EI e o FN; Marine Le Pen publicou diversas fotos dos jihadistes com cadáveres de vítimas, entre as quais a da execução do jornalista americano, James Foley. Apesar de as fotos terem sido retiradas após 24 horas de polémica e por solicitação da família de James Foley, os deputados europeus votaram, no princípio de março, o levantamento da imunidade parlamentar a Marine Le Pen para poder ser julgada.
Neste processo, a candidata da extrema-direita à eleição presidencial arrisca uma pena que pode ir até 3 anos de prisão e 75 mil euros de multa.

O curioso, é que a divulgação de todos estes processos não afeta a base eleitoral de Marine Le Pen, como explica a historiadora e especialista do Front Nacional, Valérie Igounet: “Há uma particularidade interessante no FN, é que eles conseguem implantar a semântica e o discurso. Quando estamos com eleitores do FN, eles repetem as palavras e a linha de defesa de Marine Le Pen, ou seja, que se trata de casos fabricados para desestabilizar um partido que está cada vez mais forte”. “Por outro lado”, sublinha, “por enquanto, não há provas de enriquecimento pessoal”,