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É em cima de um ringue que lutam contra o extremismo islâmico


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É em cima de um ringue que lutam contra o extremismo islâmico

Usman Raja é treinador de artes marciais mistas. Mas o combate, aqui, não é apenas físico. Em 2009, Usman lançou a Unity Initiative, uma plataforma que ajuda presos condenados por terrorismo e extremistas islâmicos a seguirem outro caminho. Uma das formas de libertar o ódio é, precisamente, em cima do ringue.

“Isto é uma luta. Estes homens vêm do contexto prisional, onde as pessoas se afirmam através da violência. Estamos a falar de um meio onde há gente a ser esfaqueada na garganta durante as orações de sexta-feira. Literalmente. Quando chegam aqui, tento transformar a agressividade e o instinto de sobrevivência que desenvolveram lá dentro, desafiando a noção que têm deles próprios através de um ponto de vista saudável”, diz-nos.

“A primeira coisa que me lembro é do sentimento de irmandade”

Apesar dos casos de sucesso entre os alunos de Usman, os últimos atentados na Europa reacenderam o debate sobre a radicalização nas prisões, por onde passou a maior parte dos atacantes envolvidos.

Segundo os números oficiais, há cerca de 130 pessoas nas prisões britânicas condenadas por atos de terrorismo. Recentemente, o governo encarregou um especialista de avaliar o risco de contaminação do extremismo nos estabelecimentos prisionais. A conclusão foi peremptória: trata-se de “uma ameaça séria” que deve ser colmatada com uma política de isolamento dos presos mais problemáticos.

Usman Raja colabora com uma mesquita situada na parte este de Londres para ajudar a identificar casos suscetíveis de degeneração no radicalismo. Jordan Horner esteve preso duas vezes. Fazia vídeos nos quais importunava transeuntes em torno da mesquita por não respeitarem a sharia.

“Quando entrei no sistema prisional, as pessoas já me conheciam por certos comportamentos e situações. Nunca houve essa questão de ser eu o vulnerável e os outros tentarem radicalizar-me. Era exatamente o contrário. Estavam preocupados era que eu tentasse radicalizar os outros. Por isso é que fui transferido tantas vezes durante a minha pena. Fui mantido em isolamento. Estavam sempre a mudar-me de ala, a mudar-me para outras partes do Reino Unido. Acabei em Belmarsh, que é uma prisão de alta segurança. Isso só ajudou a reforçar a minha ideologia, sinceramente. Não mudou nada”, explica Jordan.

A “Patrulha Muçulmana” era o nome do grupo de Jordan. Foi condenado por atos de agressão. Quando saiu em liberdade, as autoridades locais sugeriram-lhe que fosse ao encontro de Usman. As artes marciais ajudaram-no a lidar com a revolta e o ódio que a ideologia extremista instalou progressivamente: “A primeira coisa de que me lembro, quando abracei o Islão, é do sentimento de irmandade. E houve pessoas que se aproveitaram disso. Aproveitam o que se passa na política internacional e dão um tom religioso a tudo para instilar o ódio pelos outros. Só quando parei para pensar e analisar tudo o que fiz… Com o Usman comecei a imaginar o que seria colocar os meus familiares nas mesmas situações, pude dissecar o discurso religioso e perguntar: será que o Islão defende realmente isto?”.

Segundo Usman, “as pessoas que vemos aderir ao grupo Estado Islâmico, ou que caem no extremismo, têm preocupações em relação aos seus semelhantes. Mas o problema é que essas preocupações são colocadas num molde de ódio, quando a ideia passa a ser: ‘mataram um dos nossos, agora vamos matar um deles’. Se olharmos para isto do ponto de vista do islamismo tradicional, da perspetiva humana, percebemos que, se uma parte sofre, todo o conjunto está em sofrimento”.

“Olha para o que o teu povo fez em Paris”

A mulher de Usman, Angela, trabalha com mulheres condenadas por terrorismo e ajuda-as quando saem em liberdade. Dá também formação a membros da comunidade local para providenciarem assistência à reintegração de presos. Angela é médica, tem 4 filhos e diz-se determinada a desenvolver esta atividade, sobretudo depois de um episódio que lhe aconteceu na sequência dos ataques de Paris em 2015.

“Estava numa loja com as minhas duas filhas. Os ataques em França tinham acabado de acontecer. Na altura, uma das minhas filhas tinha 3 ou 4 anos. Houve um homem que passou e ela disse-lhe ‘olá’. E ele respondeu: ‘Não me digas olá. Tu és escumalha muçulmana’. Eu perguntei: ‘Desculpe, o que é que disse?’ E ele afirmou: ‘Não fales comigo, escumalha muçulmana!’ Eu fiquei completamente chocada. Ele continuou: ‘Olha para o que o teu povo fez em Paris…’ Este tipo de reação islamofóbica imiscui-se na retórica jihadista, na argumentação dos extremistas muçulmanos, de que todos estão contra nós”, conta-nos.

Não é difícil encontrar situações como a que Angela viveu entre a comunidade muçulmana britânica. Segundo um grupo de monitorização, só em 2015, houve um aumento de mais de 300% no registo de incidentes de natureza islamofóbica no país.

Ashfaq Siddique trabalhou na polícia durante mais de 30 anos. Durante esse período, foi destacado para avaliar a corrupção policial no seio das prisões britânicas. Ashfaq alerta para os perigos de separar os presos.

“Há gangs no nosso sistema prisional. Há gangs muçulmanos, cristãos… E isto vai agravar-se se não ganharmos a batalha para conquistar as prisões. Neste momento, todos os muçulmanos são metidos numa certa zona, incluindo os radicais… Alguns dos que radicalizam os outros têm uma personalidade muito carismática, são muito inteligentes, sofisticados… Eles sabem o que devem dizer, eles sabem como tocar nos pontos certos entre aqueles que são mais vulneráveis, aqueles que precisam de ajuda, proteção, que não têm mais nada na vida”, afirma.

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