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Wolfgang Schäuble: "Se todos se portassem como a Espanha, não havia problemas na zona euro"

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De  Euronews
Wolfgang Schäuble: "Se todos se portassem como a Espanha, não havia problemas na zona euro"

<p><strong>Os sinais de recuperação económica estão aí, mas a Europa enfrenta ainda inúmeros riscos. A euronews esteve na Cimeira Europeia de Negócios, em Bruxelas, onde falou com o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, sobre os desafios da consolidação do crescimento no bloco europeu.</strong></p> <p><strong>Maithreyi Seetharaman, euronews:</strong> Comecemos por uma premissa básica: onde é que situa o contexto global atualmente e <a href="http://www.reuters.com/article/us-eurozone-future-schaeuble-idUSKBN1871FG">qual é o caminho a seguir</a>?</p> <p><strong>Wolfgang Schäuble:</strong> Nós encontramo-nos numa encruzilhada. Por um lado, as expetativas do resto do mundo em relação à Europa são cada vez maiores. E isso por várias razões, por questões de geopolítica e por aí fora… Por outro lado, nos últimos anos, as dúvidas no seio da Europa também aumentaram. Talvez o Brexit tenha mudado um pouco as coisas. Mas até essa altura, muitos Estados-membros viram os movimentos eurocéticos crescer. Temos de pensar em formas de reforçar o apoio da população europeia ao projeto de integração.</p> <blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="en" dir="ltr">Political agreement possible, but no cash for <a href="https://twitter.com/hashtag/Greece?src=hash">#Greece</a> at today’s <a href="https://twitter.com/hashtag/Eurogroup?src=hash">#Eurogroup</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/Schaeuble?src=hash">#Schaeuble</a> said no debt restructering before 2018 <a href="https://twitter.com/dw_europe"><code>dw_europe</a> <a href="https://t.co/lJ0vFQ1dHu">pic.twitter.com/lJ0vFQ1dHu</a></p>— Bernd Thomas Riegert (</code>RiegertBernd) <a href="https://twitter.com/RiegertBernd/status/866638073525927941">22 de maio de 2017</a></blockquote> <script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script> <p><strong>euronews:</strong> Não são questões propriamente novas… Numa altura em que o <span class="caps">FMI</span> fala sobre protecionismo, sobre eventuais guerras comerciais, o senhor, tal como Mario Draghi, não parece estar muito preocupado com isso…</p> <p><strong>WS:</strong> A Europa – a União Europeia, especificamente – foi muito bem-sucedida, ao longo de vários anos, na criação de um mercado comum integrado. É um feito que ninguém questiona, a não ser os britânicos, que são muito peculiares no que toca a esta questão. Mas o resto da Europa concorda com o mercado comum. O que não conseguimos fazer foi criar simultaneamente as bases de um mercado comum sustentável no futuro. O debate centrou-se em: “podemos construir uma união monetária sem uma união política?” E tomou-se uma decisão… porque para haver uma verdadeira união política, ainda teríamos de esperar provavelmente mais um século. O problema é que é preciso fazer alterações ao Tratado de Lisboa. E conseguir introduzir uma mudança no Tratado de Lisboa… boa sorte!</p> <h3>O novo eixo franco-alemão</h3> <p><strong>euronews:</strong> <a href="http://www.lemonde.fr/election-presidentielle-2017/article/2017/04/13/en-allemagne-le-conservateur-schauble-lache-fillon-pour-macron_5110589_4854003.html">A eleição de Emmanuel Macron</a> trouxe muitas expetativas sobre uma nova aliança franco-germânica sólida. Em que bases é que esta “nova relação”: se pode desenvolver? E mais importante ainda: será positiva para as populações e as empresas do sul da Europa?</p> <p><strong>WS:</strong> Será positiva para todos os países da Europa. Defendo profundamente uma integração europeia na qual se trabalhe para colmatar o fosso entre os países que vão bem e os que têm problemas. Temos de partilhar os riscos. Mas não podemos só partilhar os riscos. Temos de aprender a reduzi-los, incentivar os que cumprem, tudo isto através de uma instituição central – a Europa – que consiga implementar as decisões. Se todos se portassem tão bem como a Espanha se portou nos últimos anos, não havia problemas na zona euro. Mas a Espanha é uma exceção.</p> <blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="en" dir="ltr">W <a href="https://twitter.com/hashtag/Sch%C3%A4uble?src=hash">#Schäuble</a>: ‘We All Wish <a href="https://twitter.com/hashtag/Macron?src=hash">#Macron</a> Success but his <a href="https://twitter.com/hashtag/Euro?src=hash">#Euro</a> reform proposals are currently unrealistic’ / <span class="caps">SPIEGEL</span> <span class="caps">ONLINE</span> <a href="https://t.co/jUBuAVJci0">https://t.co/jUBuAVJci0</a></p>— Jörg Polakiewicz (@jowicz) <a href="https://twitter.com/jowicz/status/863990437937369088">15 de maio de 2017</a></blockquote> <script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script> <p><strong>euronews:</strong> Ao contrário da Grécia…</p> <p><strong>WS:</strong> A Grécia tem mais problemas, não pode ser comparada com os outros países, é um caso único. Sabemo-lo desde o início. A Europa não se está a dar assim tão mal se compararmos com os Estados Unidos. Não devemos subestimar as economias europeias, as sociedades europeias. Elas gastam o dobro, em relação ao <span class="caps">PIB</span>, do que as outras economias desenvolvidas, como o Canadá, a Austrália, os Estados Unidos. E temos muitas outras vantagens. É claro que também há pontos fracos. Mas eu prefiro o modelo europeu. Aliás, a crise do euro começou com um banco chamado Lehman Brothers. E, se não estou em erro, esse banco não ficava na Alemanha. Nem na Bélgica. Ficava nos Estados Unidos.</p> <h3>A Europa perante o protecionismo</h3> <p><strong>euronews:</strong> A Alemanha <a href="http://www.dw.com/pt-br/alemanha-quer-mais-coopera%C3%A7%C3%A3o-no-g20/a-36603133">assume agora a presidência do G20</a>. A administração de Trump e o secretário do Tesouro americano gostariam muito de restabelecer as coisas como eram dantes. Como é que vê isso?</p> <p><strong>WS:</strong> Até ao momento, não constatei que os Estados Unidos pretendam destruir todas as regulações que alcançámos em matéria de mercados financeiros. Tem-se falado muito nesse caminho, mas também no caminho oposto. Nós vamos prosseguir. Não creio que o protecionismo seja um perigo para a Europa.</p> <p><strong>euronews:</strong> E para o resto do mundo?</p> <p><strong>WS:</strong> Para o resto do mundo, é. Mas a Europa está a lutar contra o protecionismo e creio que há fortes possibilidades de permanecermos na lógica dos mercados livres e da competição. É claro que a China, a Índia e outras economias emergentes estão a avançar nessa direção. No entanto, não podemos subestimar o poder de atração dos valores e princípios da União Europeia, mesmo perante todos os problemas que enfrentamos na Europa. Combater os nacionalismos, por exemplo, é um desafio para cada um de nós. Talvez o Brexit tenha servido para acordar algumas pessoas. Agora há quem diga: “afinal, a integração europeia não é assim tão má”. Foi curioso ver como, entre a primeira e a segunda voltas das eleições presidenciais francesas, a senhora Le Pen passou a declarar que afinal não pretendia sair da união monetária, uma vez que as sondagens diziam que 75% da população francesa pretende ficar na zona euro.</p> <h3>O reforço do euro e o sul da Europa</h3> <p><strong>euronews:</strong> Ou seja, o grande risco agora é o fortalecimento da moeda europeia? Porque a libra esterlina não se consegue impor neste momento…</p> <p><strong>WS:</strong> Toda a gente tem os seus próprios desafios a enfrentar. Creio que os britânicos vão aperceber-se do erro que foi o Brexit.</p> <p><strong>euronews:</strong> O que é que um euro mais forte implica para as empresas europeias? <a href="http://www.jornaldenegocios.pt/economia/financas-publicas/detalhe/schuble-centeno-e-o-ronaldo-do-ecofin">O sul da Europa</a> tem capacidade para suportar isso?</p> <p><strong>WS:</strong> Claro que tem. A Espanha faz parte do sul da Europa e tem capacidade. A Itália tem graves problemas políticos. A maior parte dos problemas em Itália tem uma origem política. Há muitos italianos que dizem não confiar em nenhum líder político ou partido. E o resultado é que acabam por dar confiança a uma personagem que é uma caricatura. O Movimento 5 Estrelas, Beppe Grillo… São a prova que a Itália tem um problema de confiança em relação aos líderes políticos. Mas acredito que vão conseguir ultrapassar esta fase, tal como outros Estados-membros conseguiram. Portugal está a ir muito melhor do que o previsto.</p> <p><strong>euronews:</strong> Mas conseguem aguentar um euro mais forte?</p> <p><strong>WS:</strong> Acredito que o crescimento seja maior do que o esperado. Na Alemanha, prevíamos 1,6% para este ano. No primeiro trimestre, já tínhamos alcançado 0,6%. Ou seja, há uma dinâmica de recuperação económica. É o que está a acontecer em Espanha, em Portugal e, espero, venha a acontecer em Itália e na Grécia, claro. Para mim, o debate global deve fazer-se em torno do que significa “crescimento sustentável”. Os riscos geopolíticos assentam no fosso crescente entre ricos e pobres. Se não conseguirmos reduzir esse fosso, se não conseguirmos ajudar o mundo islâmico, se não se conseguir integrar a religião muçulmana no mundo moderno, vamos enfrentar perigos em larga escala, novas formas de guerra, terrorismo… Se a Europa tiver a força suficiente para alcançar um crescimento sustentável e criar sociedades realmente livres, de forma a haver união entre toda a gente, estabelecendo o equilíbrio certo entre liberdade e igualdade, então sim poderemos dar um exemplo ao resto do mundo. Os valores ocidentais ou europeus desestabilizam qualquer ditador do mundo.</p>