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Barcelona e o turismo: e depois dos atentados ?

Os ataques jiadistas de agosto parecem ser motivo para uma pausa no intenso debate sobre o turismo de massas na cidade.

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Barcelona e o turismo: e depois dos atentados ?

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Estela Celada e Gorka Castillo, em Barcelona

“O que aconteceu é dramático, pelo que quero deixar claro que não nos opomos nem ao setor turístico nem aos turistas, mas sim à massificação do fenómeno.” Pere Mariné começa por expressar a repulsa pelos atentados de Barcelona e Cambrills, insistindo na dor que o sucedido lhe causa.

Os atentados deixaram 16 mortos – entre os quais, duas cidadãs portuguesas, uma mulher de 74 anos e a neta, de 20 – no passado dia 17 de agosto.

Pere tem 59 anos e é Engenheiro informático. Integra a plataforma Al Poblenou ens Plantem, uma das associações que mais se tem manifestado contra o a explosão turística que vive a capital da Catalunha.

Agora, reconhece estar “em estado de choque” por causa dos atentados jiadistas, “tal como o resto da cidade”.

Os atentados de agosto estão na origem de uma pausa no intenso debate acerca do modelo turístico atualmente existente na cidade de Barcelona. A semana que se seguiu aos ataques deram origem a uma trégua que tem lugar depois de meses de mobilização da parte de residentes, no sentido de que sejam criadas mais leis para o setor.

Os habitantes de Barcelona querem que seja mais difícil a concessão de licenças para alojamentos turísticos e que o poder local tenha mais controlo relativamente ao número de hotéis que são construídos.

Segundo dados da Câmara Municipal de Barcelona, o turismo é, para os habitantes da cidade condal, um dos problemas mais graves que têm de enfrentar. Dos mais de 75 milhões de turistas que visitaram Espanha no ano passado, nove milhões escolheram Barcelona como destino.

E quase todos passam pelas famosas avenidas centrais, as Ramblas, onde teve lugar o ataque jiadista. Segundo um estudo de uma associação local, passam, pelas Ramblas, mais de 200 mil pessoas por dia, 80% das quais, turistas, vindos dos quatro cantos do mundo.



“Antes do ataque, tinha sido possível começar com uma reflexão sobre o modelo turístico, um debate que o lobby empresarial tento apaziguar ao criar o conceito de turismofobia“, explica Ernest Cañada, um dos porta-vozes da associação Alba Sud, que trabalha em projetos relacionados com o turismo sustentável.

Para Cañada, tem sido feito “um uso político dos atentados” para pôr fim de uma vez por todas ao debate e para calar as vozes que pedem o fim do turismo de massas. Opinião que partilha Pere Mariné, para quem “a turismofobia não existe” e é “ridículo o uso do termo.” Mariné diz que os empresários do setor turístico querem acabar com os argumentos das plataformas, utilizando como desculpa as ações isoladas de um determinado grupo, minoritário”.

Pere Mariné refere-se aos incidentes protagonizados pelo movimento de jovens de esquerda catalanista Arran, como o ataque ao autocarro turístico, no passado mês de julho.

No entanto, Arran, que recusou falar do tema com a Euronews, condenou os atentados de agosto de forma categórica. Em comunicado publicado na sua página web, expressou a sua “solidariedade para com todas as vítimas e afetados pelos ataques brutais, absolutamente condenáveis”.

Voltar às ruas da cidade, sem medo

Uma semana depois dos atentados, a prioridade das plataformas sociais de Barcelona é “recuperar a vida nas ruas e não ter medo”, diz Jordi Camina, da plataforma Som Paral-lel. “É evidente que ninguém queria que tivesse acontecido o que aconteceu, mas não é por isso que vamos permitir que o lobby empresarial limite a nossa liberdade e que se esconda atrás da unidade criada contra os atentados para fomentar ainda mais o turismo”.

Dia quatro de setembro, a Asssemblea de Barris per un Turisme Sostenible de Barcelona, que agrupa diferentes plataformas de bairro da cidade, irá reunir-se para debater o que acontecer e decidir estratégias para o futuro. Pere Mariné não acredita, no entanto, que se dê uma mudança radical em termos de estratégia: “Pessoalmente, creio que, talvez sejam deixadas para mais tarde algumas ações pacíficas por causa deste estado de choque em que nos encontramos”.

“Mas, dentro de meses, voltaremos à normalidade e essa normalidade implica reconhecer que o problema do turismo continua a agravar-se, pelo que nos vamos encontrar na mesma situação antes dos ataques.”