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Morreu Dom Manuel Martins, o "Bispo vermelho"

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Morreu Dom Manuel Martins, o "Bispo vermelho"

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Manuel Martins, bispo de Setúbal entre 1975 e 1998, morreu este domingo, aos 90 anos.

Um comunicado da Diocese de Setúbal informou que Manuel Martins “faleceu hoje, às 14h05, acompanhado dos seus familiares e após receber a Santa Unção” de um pároco local.

A diocese sublinha que Manuel Martins foi o primeiro bispo de Setúbal, nomeado em 1975.

Manuel Martins ficou conhecido por “bispo vermelho”, na crise dos anos 80, pelas denúncias de pobreza e de fome na região.

O perfil

Nascido em 20 de janeiro de 1927, em Leça do Balio, Matosinhos, Manuel da Silva Martins estudou no seminário do Porto e, mais tarde, na Universidade Gregoriana, em Roma.

Foi pároco de Cedofeita, nos nove anos de exílio do bispo do Porto António Ferreira Gomes (1960-1969), durante o Estado Novo, e foi vigário geral após o regresso do prelado.

Em 1975, um após o 25 de Abril de 1974, foi nomeado bispo da diocese de Setúbal, de onde só saiu 23 anos depois, em 1998.

“Nasci bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal”, disse no dia da ordenação episcopal aquele que foi o primeiro bispo da diocese – criada a 16 de julho de 1975, em pleno `Verão Quente´ do Processo Revolucionário Em Curso (PREC) – e que acabou por se tornar uma voz incómoda para o poder político da época.

Para Manuel Martins, desses primeiros anos da sua passagem por Setúbal ficou um sentimento de dever cumprido e a convicção de que deu o seu melhor na luta pelas causas dos mais desfavorecidos.

“Quando cheguei a Setúbal, levava uma recomendação muito importante do bispo de Porto, António Ferreira Gomes, que me disse para tentar não aparecer como colonizador, para procurar mergulhar em Setúbal, ser de Setúbal, ser Setúbal. E, felizmente, isso aconteceu-me”, recordou Manuel Martins, enquanto partilhou, com a Lusa, em 2016, algumas histórias desses tempos conturbados.

Nessa conversa com a Lusa, recordou um episódio de troca de palavras com o então primeiro-ministro, Mário Soares.

“O Governo de Mário Soares dizia publicamente que em Setúbal não havia fome, que o bispo de Setúbal é que fazia fome. A comunicação social não me largava e um dia eu respondi dizendo que ‘se a fome era Nafarros e Belém, podíamos dar graças a Deus porque em Portugal não havia fome’”, lembrou.

Existia mesmo “fome em Setúbal”, assegurou o ‘Bispo Vermelho’, que é considerado um dos principais responsáveis pela ação que a igreja católica continua a ter na região de Setúbal, designadamente no apoio social aos mais pobres e excluídos.

Manuel Martins foi presidente da Comissão Episcopal da Ação Social e Caritativa e da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo, e da secção portuguesa da Pax Christi.

Após a resignação, continuou a fazer conferências e palestras, sendo objeto de vários livros, como “História de uma Crise – Grito do bispo de Setúbal”, do jornalista Alcídio Torres, e o próprio também escreveu “Pregões de Esperança”, editado em 2014 e apresentado pelo ex-Presidente Ramalho Eanes.

Reações

O Presidente da República lamentou hoje a morte do bispo emérito de Setúbal Manuel Martins, que esteve “sempre atento à luta pela liberdade contra a opressão e pela igualdade contra a injustiça”.

Num comunicado divulgado no portal da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa afirma que o prelado “representou, para a Igreja Portuguesa, a projeção da linhagem do senhor Dom António Ferreira Gomes no mundo do trabalho, em áreas sociais particularmente complexas, sempre atento à luta pela liberdade contra a opressão e pela igualdade contra a injustiça, em homenagem ao princípio da dignidade da pessoa”.

António Ferreira Gomes (1906-1989) bispo de Portalegre, de 1942 a 1958, e do Porto de 1952 a 1982, vocacionou a sua ação pastoral na atenção às degradantes condições sociais do país e criticou o regime político de então, liderado por António Salazar, tendo partido para o exílio em julho de 1959.

O Presidente da República condecorou a título póstumo o bispo do Porto, no passado 25 de Abril, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada.

No comunicado presidencial, afirma-se que tal como foi referido na mensagem por ocasião dos 90 anos de Manuel Martins, celebrados a 20 de janeiro, “o seu testemunho foi particularmente impressivo à frente da diocese de Setúbal”, da qual foi o primeiro bispo.

“Ao dar vida aos princípios evangélicos, em tempos de crise e de enormes desafios comunitários, não serviu apenas a Igreja Católica, serviu Portugal”, salienta o chefe de Estado.

“O Presidente da República evoca, com saudosa e respeitosa amizade, uma personalidade singular, que tudo fez na sua vida para contribuir para um Portugal mais livre e mais justo, e, por isso, mais democrático”, remata o comunicado.

O primeiro-ministro lamentou hoje a morte do bispo emérito de Setúbal Manuel Martins. “É com tristeza que recebo a notícia do falecimento de D. Manuel Martins, grande referência da consciência social. A melhor homenagem à sua memória é a ação pela erradicação da pobreza”, afirmou António Costa, numa mensagem enviada à Lusa.


As reações à morte de Dom Manuel Martins sucedem-se.