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Cinco dias que deixaram Espanha em estado de choque

Catalunha: 5 dias de filmagens ao lado dos principais separatistas e dos movimentos que lutam pela união espanhola ou pela independência catalã.

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Cinco dias que deixaram Espanha em estado de choque

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*A tentativa de independência por parte da Catalunha tem feito manchetes e abalou Espanha e a Europa. Insiders foi explorar este assunto e fez uma reportagem na Catalunha.

Sob o controlo do presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, cerca de 43% dos catalães votaram num referendo pela independência; 90% dos participantes votaram pela saída de Espanha. Tudo isto, apesar do governo central espanhol ter avisado que o referendo é ilegal e contra a constituição. A polícia tentou travar a votação, por vezes, recorrendo à força excessiva contra multidões pacíficas.

O nosso repórter captou este momento histórico. Passou uma semana entre ativistas a favor e contra a independência e entre figuras políticas importantes de ambos os lados. Quem são e o que querem? Aqui estão algumas respostas.*

Em Barcelona, a capital regional da Catalunha. O último dia de setembro é diferente – é o dia anterior ao referendo sobre a independência catalã. O referendo é ilegal, diz o Tribunal Constitucional espanhol. Mas os partidos pró-independentes que governam a Catalunha continuam os preparativos de qualquer forma.

Os separatistas montaram assembleias de voto nas escolas. As pessoas são convidadas a dormir no local para proteger as urnas contra a intervenção da polícia. Thais, mãe de dois filhos, diz que o facto de pernoitar aqui é quase como uma festa de boas vindas na escola: “Estamos aqui porque queremos exercer o nosso direito de voto. Acreditamos que este local deve estar aberto amanhã. Por isso, com todas estas atividades que organizamos aqui certificamo-nos que este local vai estar disponível amanhã para que os eleitores votem”.

Há alguns anos apenas uma pequena minoria dos catalães gostava da ideia da separação de Espanha. Mas hoje, a situação mudou: o separatismo ganhou impulso e tomou conta de centenas de milhares de pessoas.

A sociedade catalã está dividida. Os catalães a favor da permanência em Espanha são muitas vezes apelidados de “maioria silenciosa”: são muitos, mas discretos. Hoje, um dia antes do referendo, esta “maioria silenciosa” decide quebrar o silêncio.

Day 1 - The day before

Llibert fundou o “Españoles de a Pie” há dois anos. O objetivo é forjar argumentos contra o separatismo. mas o nervosismo é patente. Encontrámo-nos num bar de Barcelona onde se preparam para a marcha da unidade: “Temos a certeza que a Catalunha não vai fazer parte da Europa se se separar de Espanha. Talvez possa tornar-se membro da União Europeia novamente depois de alguns anos. Mas serão anos difíceis para a Catalunha. Pode haver alguma violência contra nós. É difícil expressar as nossas ideias livremente devido à pressão das massas. Tentam dizer-nos que não somos democratas – e é esse o problema. Queremos expressar-nos e queremos expressar diferentes ideias.”

Ao anoitecer, voltamos à escola onde as urnas estão escondidas. As crianças brincam e cerca de 50 pais preparam-se para pernoitar aqui. Há tensão no ar já que a polícia interveio num local próximo. Questionámos se não estarão a colocar as crianças em risco, mas o argumento de defesa é que brincar com as crianças não é ilegal. Um número crescente de catalães não aceita o quadro abrangente da constituição espanhola que, ao que parece, coloca as leis regionais acima dos nacionais.

Domingo de manhã – é o dia do referendo. Levantámo-nos antes do nascer do sol. Já estão reunidas centenas de pessoas na escola. O Ministério Público da Catalunha ordenou à polícia regional que evitasse a votação ilegal. Às 7h40m, dois “Mossos” aparecem. Na estrada, passam as viaturas da polícia nacional espanhola. Recebemos informações de fontes privilegiadas que a presidente do Parlamento da Catalunha, Carme Forcadell, vai votar em Sabadell, a norte de Barcelona. Será que vão intervir? Substituindo os “Mossos” – as unidades regionais – a polícia nacional espanhola assume o controlo.

Enquanto a polícia se retira após a intervenção, recebemos a informação que a presidente do parlamento catalão vai seguir o plano B e vai votar noutra escola. Chegada da presidente do Parlamento da Catalunha, Carme Forcadell, membro da Esquerra Republicana. “Exerci o meu direito de voto. Estou orgulhosa dos cidadãos deste país, de como mostraram a responsabilidade civil ao mundo inteiro, o pacifismo e o amor pela democracia”.

Day 2: Referendum day

Carme Forcadell é uma das principais vozes pela independência catalã. E não é fácil acompanhar o ritmo de Oriol Junqueras, número dois do governo catalão, e Jordi Sanchez, uma das peças fundamentais do movimento separatista.

A Assembleia Nacional da Catalunha (ANC) liderada por Jordi Sanchez pode ser considerada como um dos principais motores da independência, juntamente com o “Omnium”, uma organização que defende a cultura e a língua catalãs, liderada por Jordi Cuixart.

Jordi & Jordi são o rosto e a voz de vários grupos da sociedade civil que defendem a independência. São a encarnação do nacionalismo catalão.

“Este é um ótimo dia. É uma demonstração fantástica da democracia da cidadania catalã que mostrou uma força cívica incrível. A repressão do Estado espanhol foi ilimitada. O governo espanhol é a vergonha da Europa. A cidadania catalã ganhou o seu direito de ser reconhecida como uma nação livre deste mundo…” (….) É um momento de grande felicidade e de enorme responsabilidade. O sentimento de pertencer a um país que pode resistir a esta repressão apenas pelo direito à democracia – isto deve ser reconhecido pelos povos de toda a Europa”, diz Jordi Sanchez.

“Toda a gente sabe que o conflito precisa de uma solução política e não de violência e (…) o artigo 7 da Constituição europeia diz que se um Estado usar violência contra os cidadãos da Europa, esse Estado estará fora da União Europeia. O recurso à violência foi exatamente o que Espanha fez hoje com a população catalã. É preciso uma grande rectificação do primeiro-ministro Rajoy”, acresenta Jordi Cuixart Navarro.

O dia seguinte. Encontrámo-nos novamente com Jordi Sanchez em frente ao edifício do governo catalão. Apenas 43% dos eleitores participaram no referendo. Cidadãos com visões pró-Espanha ficaram em casa – seguindo o argumento constitucional que este referendo é ilegal. Pergunta direta a Jordi Sanchez: como é que este referendo pode ser válido, com uma participação de 43%…?

“Não há necessidade de questionar porque é que agora devemos ter um nível mínimo de participação quando antes, em qualquer referendo feito em Espanha, nunca foi estabelecido um nível mínimo de participação. A constituição europeia também foi adotada em Espanha com menos de 50%”, explica Jordi Sanchez.

Day 3 - The day after

No dia seguinte ao referendo, também nos encontrámos novamente com o ativista pró-Espanha Llibert. Durante os estudos, viveu algum tempo em Chicago. Um colega fazia parte da equipa de campanha de Obama. Llibert tomou conhecimento do poder das redes sociais e do impacto potencial dos movimentos – decidiu criar-se uma ONG pela unidade de Espanha: “Sou de Barcelona, da Catalunha e também de Espanha. E sou europeu… Não é uma identidade contra outra. Aqui na Catalunha, as pessoas dizem: quando se é catalão, não se pode ser espanhol. Mas na minha opinião, Espanha é uma mistura de pessoas – este é o meu ideal de Espanha”.

Quarto dia: encontrámo-nos novamente com Carme Forcadell (e o marido) na sua cidade natal, Sabadell. Os grupos pró-independência pediram uma greve geral. Forcadell ganhou a vida a ensinar, entrou na política local e tornou-se ativista de rua. Pouco depois de se juntar à ANC, foi eleita como líder desta organização separatista, antes de entregar o cargo a Jordi Sanchez.

Day 4 - General strike

“Respeito especialmente os direitos humanos, o direito à autodeterminação e o direito de todas as pessoas a decidir sobre o seu próprio futuro. Acredito que os direitos fundamentais e a liberdade democrática estão acima de qualquer constituição e também acima do direito internacional. A Catalunha é um Estado muito plural e estou muito orgulhosa desta pluralidade. Há pessoas que querem a independência e há pessoas que legitimamente não querem a independência. E eu também respeito isso. Não se trata de ser ou deixar de ser catalão. Existem muitas pessoas que não são catalãs, que se sentem espanholas e falam espanhol – e isso é bom. Algumas também querem a independência da Catalunha. Não se trata das origens das pessoas”, adianta Carme Forcadell, presidente do Parlamento da Catalunha.

No Parlamento, surgem as primeiras fissuras: a coerência entre os três partidos pro-independência começa a desmoronar. É um dia difícil para Carme Forcadell. Há que estabelecer uma posição comum. Declaração imediata de independência: sim ou não – essa é a questão. O assistente de Carme Forcadell diz que muitos líderes catalães arriscam-se a ser processados, incluindo Forcadell. O separatismo é um crime.

Day 5 - In parliament

Um dos mais fervorosos defensores da unidade nacional espanhola é Xavier Garcia Albiol, presidente do ramo catalão do Partido Popular conservador: “as instituições democráticas de Espanha não vão permitir este golpe de Estado que o governo regional da Catalunha está a tentar fazer. Não vão ter sucesso. Vamos usar todos os recursos e todas as ferramentas que a Constituição espanhola coloca à disposição do Estado democrático espanhol. Vamos fazer bom uso deles”.

Qual será a melhor saída? O caminho para uma solução pacífica respeitando os procedimentos legais? Ou será que separatistas vão partir para o confronto? Para acabar com crise, governo de Espanha pede eleições na Catalunha.