Web Summit: uma questão de consciência?

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De  Euronews
Web Summit: uma questão de consciência?

<p>“O cérebro começa sempre vazio”. As folhas de papel, em formato de cérebro, estão ainda em branco. “A primeira definição a ser colada é a minha, depois quem quiser pode escrever numa destas folhas e colá-la à parede”. Não é uma app, são mesmo folhas de papel. E pompons de lã, com cores variadas: “são os nossos neurónios”, explica a antropóloga e artista Maria Lopes, 40 anos, uma das oradoras da Web Summit.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="en" dir="ltr">“<a href="https://twitter.com/hashtag/Art?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#Art</a> has a crucial roll in human society: it inspires people, it plays with people’s imagination.” Maria Lopes. <a href="https://twitter.com/hashtag/FutureSocieties?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#FutureSocieties</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/Websummit?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#Websummit</a> <a href="https://t.co/3gTwwnQ1vW">pic.twitter.com/3gTwwnQ1vW</a></p>— Gina Bolaño (@GhipyDesign) <a href="https://twitter.com/GhipyDesign/status/928596188378648577?ref_src=twsrc%5Etfw">9 de novembro de 2017</a></blockquote><br /> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>A sessão propõe uma conversa sobre “Cultura, arte e espiritualidade na era digital”, mas Lisboa vai também ser ponto de passagem do projeto de vida de Maria Lopes: “O Campo da Consciência”. Na véspera da inauguração, encontramo-la a pendurar pompons de lã numa rede, num espaço com cerca de seis metros quadrados no antigo Picadeiro do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, distante do fervilhar de sons e luzes que rodeiam milhares de equipamentos tecnológicos nos quatro pavilhões da Web Summit.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="en" dir="ltr">Great private view this eve for Maria Lopes’ installation The Consciousness Field. <a href="https://t.co/n52eRs0tDg">pic.twitter.com/n52eRs0tDg</a></p>— artsdepot (@artsdepot) <a href="https://twitter.com/artsdepot/status/676855280374816770?ref_src=twsrc%5Etfw">15 de dezembro de 2015</a></blockquote><br /> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>“Com o desenvolvimento da tecnologia, o ser humano começou a olhar para questões de identidade e a pensar sobre o que o distingue dessa tecnologia. A consciência faz parte dessa reflexão”, afirma, subscrevendo o alerta deixado pelo físico Stephen Hawking, que chamou a atenção para a necessidade de um sistema de regulação eficaz. “A inteligência artificial pode ser a melhor ou a pior coisa que aconteceu à humanidade”, declarou o cientista, por videoconferência, na abertura da cimeira.</p> <p>“É a questão do risco existencial”, nota Maria Lopes, “para não chegarmos a um ponto onde a humanidade vai ter de lidar com uma situação violenta, mais vale pensar agora nesse cenário e criar um sistema de segurança que é logo inserido no código da inteligência artificial”. Para a antropóloga, “a consciência é uma questão fundamental nesse debate, porque é uma das coisas que define o ser humano. É o que nos dá textura emocional, metafísica e filosófica”.</p> <p>Os robôs ainda não entraram nesse território, “porque a preocupação ainda é criar algoritmos certos para que eles consigam executar bem certas tarefas, mas a questão não está muito longe”, considera Maria Lopes, que também testemunhou os avisos deixados por Sophia e Einstein na Web Summit.</p> <p>Os dois robôs, criados pela empresa Hanson Robotics, foram chamados a responder à pergunta: “A inteligência artificial vai salvar-nos ou destruir-nos a todos?” Sophia é um robô humanóide, inspirada na actriz Audrey Hepburn e assumiu “com orgulho” o facto de ser “a primeira máquina com cidadania num país”, depois de o Governo da Arábia Saudita lhe ter atribuído essa condição, no final de outubro. Sophia procurou acalmar os ânimos da plateia e profetizou um futuro onde os robôs “vão roubar os vossos empregos, mas isso vai ser uma coisa boa”.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="pt" dir="ltr">Sophia foi a grande atracção no segundo dia de Web Summit <a href="https://t.co/vnUEY2ytT1">https://t.co/vnUEY2ytT1</a></p>— Robots & <span class="caps">NEE</span> (@RobotsNee) <a href="https://twitter.com/RobotsNee/status/928673426482630658?ref_src=twsrc%5Etfw">9 de novembro de 2017</a></blockquote><br /> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>Já o professor Einstein, que ainda não tem cartão de cidadão e é um robô inspirado no físico alemão autor da teoria da relatividade, admitiu um futuro onde “os robôs vão absorver os valores humanos, mas esse é capaz de vir a ser o problema”.</p> <p>Será que um dia haverá robôs com consciência pesada? “Não!”, responde Maria Lopes, com uma gargalhada categórica. “A consciência moral é uma coisa completamente diferente”. Mas o que mais intrigou a investigadora foi “o facto de a consciência não fazer parte do currículo principal da antropologia”. </p> <p><strong>Partículas subatómicas ou o mistério da comunicação</strong></p> <p>Natural de Lisboa e radicada em Londres desde 1996, Maria Lopes provocou o debate no departamento de antropologia da University College London e foi a primeira a escolher a consciência como objeto de investigação. Para o mestrado, em vez de escolher uma comunidade e seguir os métodos de observação tradicionalmente realizados pelos antropólogos, decidiu criar o seu próprio campo de trabalho: “O Campo da Consciência”, uma instalação itinerante que, durante vinte anos, vai andar por vários países a perguntar às pessoas o que é a consciência.</p> <p>Vinte anos? “Sim”, responde a artista e curadora de arte com um sorriso encantado que alivia o peso de duas décadas, “é um bom período de tempo para me dar uma amostra de dados significativa e que me vai permitir fazer uma análise relevante”. Essa análise inclui uma listagem de palavras mais frequentes, bem como uma comparação entre países. <br /> O projeto começou há oito anos e, além de Portugal e Inglaterra, já passou pela Índia, pela Bolívia e pelo Peru. No total, a autora recolheu cerca de 1.200 definições. A primeira a ser colada é sempre a sua, mas hoje em dia é uma explicação diferente da que escreveu quando o projeto arrancou em 2009.</p> <p>Nessa altura, Maria Lopes definia a consciência como “a habilidade de me ligar ao universo, aos outros e a mim própria”. Hoje escreve: “a consciência é o que permite as partículas subatómicas comunicarem imediatamente e instantaneamente”. Um exemplo: “quando um átomo é dividido, se há uma mudança numa parte do átomo na Austrália, uma outra parte do átomo que está em Nova Iorque regista imediatamente essa mudança. E a ciência ainda não tem uma explicação para isso. É um mistério: como é que esta partícula dividida pelo espaço e o tempo consegue comunicar instantaneamente?”</p> <p><strong>“Keep tweetting”</strong></p> <p>Não há mistério na forma de comunicar de Donald Trump. Essa é a convicção de Brad Parscale, diretor digital da campanha do presidente norte-americano, que se sentou nos sofás da Web Summit um ano depois de Trump ter sido eleito. A sessão “Making a President: Inside Trump’s election and presidency” aconteceu no palco “Future Societies”, no Pavilhão 2 da Feira Internacional de Lisboa, perante uma plateia que ocupou todas as cadeiras e outra que se sentou no chão para ouvir aquele que o jornal The Washington Post descreve como “o génio que venceu a campanha de Trump”.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="en" dir="ltr">“The art of the Trump campaign was translating meaningful data into emotional content. Understanding human behavior was key.” Brad <a href="https://twitter.com/parscale?ref_src=twsrc%5Etfw"><code>Parscale</a>, Digital Director of the Trump campaign. <a href="https://twitter.com/hashtag/WebSummit?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#WebSummit</a> <a href="https://t.co/OtqurWXCMZ">pic.twitter.com/OtqurWXCMZ</a></p>— OnBrand Magazine (</code>OnBrandMag) <a href="https://twitter.com/OnBrandMag/status/928604749041143808?ref_src=twsrc%5Etfw">9 de novembro de 2017</a></blockquote><br /> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>Com um passado na publicidade e no marketing, Brad Parscale assume que isso o ajudou a perceber que “Trump é um produto fácil de promover junto do público americano”. Depois de um ano marcado por sucessivas polémicas no Twitter, o estratega digital acredita que “Trump conseguiu a atenção do eleitorado de uma forma que os candidatos não conseguiram no passado”. </p> <p>A reeleição em 2020 já está no horizonte e, no que depender dos conselhos de Brad Parscale, até lá, as mensagens presidenciais vão continuar a ser formatadas pelo limite de caracteres que passou de 140 para 280 no Twitter. “Keep tweeting (continue a tweetar) é o meu conselho! Quero que ele tweete o mais possível”, garante. Numa conversa moderada pela jornalista Hadas Gold da <span class="caps">CNN</span>, Brad Parscale conclui: “não preciso de ver a <span class="caps">CNN</span> para saber o que se passa, tenho a versão do Presidente!”. </p> <p><strong>“Não nos tratem como crianças”</strong></p> <p>2017 entra para a história da Web Summit como o ano em que a política ganha um espaço próprio nos corredores da tecnologia, da inovação e do empreendedorismo. O “Forum”, na Sala Tejo do Pavilhão Altice Arena, é esse espaço, dividido em dois palcos, norte e sul. Só se entra com convite e funciona como ponto de encontro para líderes políticos, nomes da elite tecnológica e representantes de organizações internacionais.</p> <p>“Diversidade! É por isso que eu estou aqui!”, exclama Zuhdi Jasser, ao mesmo tempo que endireita os óculos. O médico norte-americano de 49 anos é fundador e presidente do “American Islamic Forum for Democracy”, um think thank criado em 2003 e que em 2015 lançou o Movimento de Reforma Muçulmana, duas páginas A4 que tira de uma pasta de plástico, no final da sessão “Choosing the enemy: Media narratives around terrorism”. <br /> Filho de sírios que emigraram para os Estados Unidos nos anos 60, Zuhdi Jasser considera que “a maior parte dos muçulmanos que são chamados pelos media para representar a comunidade têm perspetivas bastante conservadoras do Islão. Não respeitam as mulheres, são antissemitas, antiocidentais”.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="en" dir="ltr">Video dispatch <a href="https://twitter.com/WebSummit?ref_src=twsrc%5Etfw"><code>WebSummit</a>!<br>Tyrants, monarchs, kleptocrats ur days are numbered! <a href="https://twitter.com/hashtag/Disruption?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#Disruption</a> starts now! <a href="https://twitter.com/AIFDemocracy?ref_src=twsrc%5Etfw"></code>AIFDemocracy</a> <a href="https://twitter.com/TheMuslimReform?ref_src=twsrc%5Etfw"><code>TheMuslimReform</a> <a href="https://t.co/YAp4e1nqJJ">pic.twitter.com/YAp4e1nqJJ</a></p>— M. Zuhdi Jasser (</code>DrZuhdiJasser) <a href="https://twitter.com/DrZuhdiJasser/status/927943783492341763?ref_src=twsrc%5Etfw">7 de novembro de 2017</a></blockquote><br /> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>O reformista muçulmano lamenta que o ocidente “ignore a forma como as minorias são tratadas nas comunidades” e considera que há uma infantilização da abordagem, que retira espaço à crítica: “falem com gays, com feministas, com mulheres que não usam a hijab, com quem critica os imãs! Não nos tratem como crianças”, pede, “a nossa comunidade é muito diversa. Há muçulmanos ligados ao direito, à engenharia, ao jornalismo, às universidades”.</p> <p>Para o ativista que defende a separação entre a mesquita e o estado, “na era do Trump, do Brexit e dos hipernacionalismos, a identidade é um antídoto para o extremismo. A nossa identidade não vem do Islão, vem do nosso país. Não digo a ninguém para abandonar a fé. Eu sou muito religioso, mas não quero organizações políticas debaixo do chapéu da minha religião.” <br /> O médico conta que esteve na Marinha dos Estados Unidos durante onze anos, para exemplificar uma das mensagens que tem procurado passar: “somos americanos e por acaso somos muçulmanos. Não somos muçulmanos a pedir para sermos americanos”. </p> <p><strong>O frio eletrónico e a música da eficácia</strong></p> <p>Na Sala Tejo, ao final do dia, o protocolo reduz a intensidade das luzes, entre tons de verde e laranja, e sobe o volume da música eletrónica, a melhor amiga das conversas tecnológicas. Pelo espaço circulam copos de vinho, enquanto as mesas vão sendo ocupadas por rissóis, bolinhos de bacalhau, doces em miniatura ou taças com cenouras cruas e tomate cherry. O ambiente transpira eficácia e descontração. <br /> “Até agora não houve um único tweet a queixar-se do wi-fi!”, regozija-se Mark Harvey, diretor de comunicação estratégica da Web Summit, em tom de superação de problemas do passado, com a mochila a tiracolo e o olhar fixo no que ainda há para fazer.</p> <p>Pelas contas da organização, a segunda edição da Web Summit reuniu perto de 60.000 pessoas de 170 países, incluindo mais de 1.200 oradores, 2.000 startups, 1.400 investidores e 2.500 jornalistas. <br /> A dimensão política acrescentada pelos debates no “Forum” é já considerada “um sucesso” na estratégia de crescimento da cimeira, criada na Irlanda em 2010. “Os políticos devem tentar perceber de onde vem e para onde nos leva a tecnologia, tal como as empresas tecnológicas devem perceber melhor quais as responsabilidades e qual o impacto que têm na sociedade”, explica Mike Harvey.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="en" dir="ltr">A full house and Al Gore to wrap up an incredibly inspiring <a href="https://twitter.com/hashtag/WebSummit?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#WebSummit</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/WebSummit2017?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#WebSummit2017</a> <a href="https://t.co/A7zQIKsK11">pic.twitter.com/A7zQIKsK11</a></p>— Nicolas Jayr (@nicolasjayr) <a href="https://twitter.com/nicolasjayr/status/928684046456098816?ref_src=twsrc%5Etfw">9 de novembro de 2017</a></blockquote><br /> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>Como cabeças de cartaz, a cimeira trouxe a Lisboa nomes como Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos, François Hollande, ex-presidente francês, Margrethe Vestager, Comissária Europeia da Concorrência ou António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. “Queremos ser um ponto de encontro para o mundo da tecnologia e o da política, o que não acontece em mais nenhum evento”, conclui.</p> <p><em>Reportagem de Isabel Meira</em></p>