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Saad Hariri: O Homem forte do Líbano

A euronews entrevistou Hasni Abidi, politólogo, sobre a questão libanesa.

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Saad Hariri: O Homem forte do Líbano

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Foi a quatro de novembro que, em deslocação à Arábia Saudita, Saad Hariri, anunciou a sua demissão, para surpresa de todos. O primeiro-ministro libanês afirmava temer pela sua vida e apontava o dedo ao Irão e ao Hezbollah, seu parceiro de coligação governamental, que acusava de, juntos, controlarem o seu país.

Uma crise regional começava algumas horas antes, com o disparo de um míssil, a partir do Iémen, e que caiu no aeroporto de Riade. A Arábia Saudita acusa os rebeldes iemenitas, mas também o Hezbollah libanês que os apoia. O Líbano está no coração de uma crise que vai muito além das suas fronteiras. A caminho de Paris na terça-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros libanês lamentava o sucedido:

“Não podemos culpar o Líbano por um míssil, de um país para outro país, não temos nada a ver com isso, se tivermos problemas com o Irão, vamos lá para resolvê-los com o Irão. O Líbano não é o Irão, o Líbano não é a Arábia Saudita, o Líbano não é a Síria, o Líbano é o Líbano”, adiantou o chefe da Diplomacia libanesa.

À medida que a crise cresce e alarma os países ocidentais, há uma questão que começa a colocar-se: Saad Hariri é um homem livre? A sua demissão foi ordenada por Riade? Uma coisa é certa. Os libaneses querem o seu regresso e apoiam-no, como mostram os cartazes em Beirute.

Hasni Abidi, é politólogo, especialista no mundo árabe e diretor do Centro de Estudos e Investigação sobre o Mundo Árabe e Mediterrâneo, Cerman, sedeado em Genebra. Muitos acreditam que a Arábia Saudita forçou Saad Hariri a anunciar a sua renúncia. Ele é sunita, tem dupla nacionalidade – libanesa e saudita – é muito próximo de Riade, como é que esta demissão pode servir os interesses dos sauditas?

Hasni Abidi, diretor do Cermam:

A Arábia Saudita, tem uma nova liderança, com um tom totalmente diferente dos seus antecessores mas tem uma querela, muito importante, com o Irão e o Hezbollah. O Hezbollah é uma peça importante no parlamento e no governo, está muito ligado aos iranianos, e a Arábia Saudita quer punir o Hezbollah, privá-lo, de certa maneira, de fazer parte do poder. A demissão de Saad Hariri e, claro, o facto de ela ser anunciada em Riade, é uma mensagem forte para o Hezbollah, para os libaneses, mas também para os iranianos. Provavelmente, é uma forma de chantagem exercida também sobre Saad Hariri porque ele é o homem forte do Líbano, mas também o homem dos sauditas.

Audrey Tilve, Euronews:

O Líbano está condenado a servir de peão destes dois poderes tutelares, Irão e Arábia Saudita, dois poderes que estão envolvidos numa luta de influência, cada vez mais feroz, como vemos na Síria e no Iémen?

Hasni Abidi:

O Líbano é refém de um antagonismo, entre sauditas e iranianos, envolvidos numa guerra por procuração. Os sauditas nunca aceitaram esta posição triunfante dos iranianos, considerando que já chegaram à Síria, Iémen, Líbano e agora ao Iraque. Com o Iraque, eles conseguiram construir este arco xiita, temido pelos sauditas, e hoje o Líbano paga as consequências dessa guerra de influência entre duas potências regionais.

Euronews:

Existe a possibilidade de o Líbano mergulhar no caos?

Hasni Abidi:

A demissão de Saad Hariri pode romper um equilíbrio já de si frágil, com consequências muito significativas, tanto para o Líbano, como para os países vizinhos.

Euronews:

Muitos libaneses dizem-se irritados com esses jogos de influência, essas intrigas. As suas opiniões são tidas em conta? São ouvidos pelos líderes políticos e comunitários do seu país?

Hasni Abidi:

Os libaneses estão conscientes da complexidade da crise no seu país, e eles querem, especialmente, que o Líbano adote uma política de neutralidade em relação aos atores regionais e também às crises da região. Por isso, assistimos a uma explosão dos libaneses, de todas as confissões, dizendo: não queremos uma nova crise imposta e ditada pelo estrangeiro. Este pedido de regresso de Hariri mostra que os libaneses querem que as questões internas sejam tratadas dentro do Líbano sem interferências, que podem ser prejudiciais, dos países da região.

Euronews:

Neste contexto, de tensões exacerbadas entre a Arábia Saudita e o Irão, que também implicam Israel, um feroz inimigo de Teerão, pensa que estamos a testemunhar o início de uma guerra regional?

Hasni Abidi:

Todos os ingredientes, para uma nova tensão, provavelmente militar, estão reunidos, hoje, no Médio Oriente e, obviamente, o Líbano corre o risco de pagar a conta desse antagonismo e dessa tensão. Sabemos que os israelitas também querem que os Sauditas empurrem, no próximo domingo, a Liga Árabe a tomar medidas drásticas contra o Hezbollah e contra os iranianos. Obviamente que um confronto entre Hezbollah e Israel não deve ser descartado. É por isso que os libaneses também querem que a comunidade internacional os ajude a sair da crise.