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Os portugueses vítimas de trabalhos forçados durante o nazismo

Exposição coordenada por equipa internacional a cargo da Universidade Nova de Lisboa inaugurada na capital portuguesa.

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Os portugueses vítimas de trabalhos forçados durante o nazismo

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Émile Henry, sobrevivente do campo de concentração nazi de Buchenwald, quis contar a sua história a Portugal, país onde escolheu viver, no livro “A Morte Lenta”, que integra a exposição “Os trabalhadores forçados portugueses do III Reich”

“O que mais me custava era não dormir. A fome também não faltava, sobretudo do meio-dia às três horas, em que tinha a impressão de que uma tenaz me torcia até à tortura. Mas o não dormir era o pior. Mesmo contra a vontade, os olhos fechavam-se-me e tinha que fazer um esforço violento para não cair”, relatou Émile Levy, falecido há dez anos em Loulé, no seu livro, que teve duas edições de 100 exemplares, em 1946.

“O meu marido fez um testemunho para os portugueses. Dizia que as pessoas do país onde vivia tinham de saber o que se passou”, recordou à Lusa a mulher, Thérèse Henry, que assistiu, juntamente com as duas filhas e netos, à sessão que antecedeu a inauguração da exposição, no Centro Cultural de Belém.


A vida num campo de concentração em Buchenwald


O seu marido esteve mais de dois anos no campo de concentração nazi de Buchenwald, depois de ter sido apanhado pelos alemães a tentar regressar a Portugal – onde já vivia antes – depois de cumprir o serviço militar obrigatório em França.

“Não sei como ele aguentou. De manhã à noite era obrigado a carregar pedras à mão de um sítio para o outro. E quando terminava, levava as pedras de volta para o primeiro sítio. Era mesmo maldade dos alemães”, relatou a viúva de Émile Henry, que descreveu que o seu marido teve de se esconder entre dois colchões para não ser morto pelos alemães.

Da sua experiência em Buchenwald, o homem contou pouco à família. “Não, dizia que tinha feito uma confissão naquele livro que escreveu”, comentou a mulher.


Investigação da Universidade Nova de Lisboa


A investigação que deu origem à exposição foi coordenada pelo historiador Fernando Rosas e feita por uma equipa internacional do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Segundo o historiador, “cerca de 400 portugueses, talvez um pouco mais” estiveram confinados durante a Segunda Guerra Mundial em campos de concentração, prisões ou ‘stalag’ [campos de prisioneiros de guerra], sujeitos a brutais condições de trabalho forçado”.

“Provavelmente superior, mas até agora impossível de determinar, terá sido o número dos que foram voluntariamente trabalhar para a Alemanha ou que para esse destino foram forçados a sair, designadamente de França”, comentou o investigador.

Há “variado rasto” na documentação consular e diplomática do Estado português sobre esta realidade, mas “não existe evidência de qualquer diligência diplomática consistente por parte do Governo do Estado Novo no sentido de acudir ou defender os seus cidadãos escravos, coercivamente deslocados, nos campos de concentração, prisioneiros dos ‘stalag’ ou forçados a trabalhar na Alemanha quando queriam fugir à guerra e à devastação”, disse Rosas.

Além disso, a ditadura “também se esforçou por silenciar qualquer tentativa de lembrar ou informar o país da situação e sacrifício dos cidadãos portugueses, por via da censura”.


Augusto Santos Silva realça importância da homenagem


Para o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, “o século XX faz parte da história europeia e conhecê-lo é a melhor maneira de nós prosseguirmos com um projeto europeu que foi construído com o objetivo, até agora cumprido, de evitar a repetição da barbárie no coração da civilização europeia”.

“A melhor homenagem que podemos prestar às vítimas portuguesas e de tantas outras nacionalidades é lutarmos todos nós agora contra todas as formas de trabalho forçado”, destacou Santos Silva.


Com Lusa