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A corrupção, esse fenómeno ignorado nas aldeias romenas

A Euronews esteve numa pequena localidade do sul da Roménia, onde os problemas de corrupção que afetam o Governo parecem não estar na ordem do dia.

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A corrupção, esse fenómeno ignorado nas aldeias romenas

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É um domingo solarengo em Singureni, localidade com pouco mais de três mil habitantes, no județ (distrito) de Giurgiu .Muitos foram à igreja. Outros aproveitam a luz da manhã num outono mais quente do que o habitual.

O silêncio é interrompido pelas serras elétricas, que cortam troncos de madeira. Algo essencial para as lareiras que combatem os invernos rigorosos da região e que acabam sempre por chegar.

A Roménia tem sido palco de fortes protestos contra os casos de corrupção no Governo, especialmente na capital, Bucareste. Mas as convulsões que abalam a elite política pouco ou nada parecem importar em Singureni, que vive ao seu ritmo. Ainda assim, a pequena localidade não está muito longe do centro político e administrativo da nação. São apenas 40 quilómetros.

A Euronews falou com alguns dos habitantes de Singureni para saber o que pensam do atual Governo, da corrupção e dos protestos.

Florica Trandafir tem 67 anos e é vai à igreja com regularidade. “Rezamos pela nossa família e pela nossa saúde”, conta à Euronews.

Florica viu os protestos contra o Governo através da televisão, mas confessa que não chegou a entender o que queria realmente os manifestantes. “Não sei muito sobre o tema. Não sigo muito. Faço a minha vida e vou para a cama”, explica.
Florica Trandafir in Singureni

Nas eleições parlamentares de há cerca de um ano, Florica votou pelo partido no Governo, o PDS, Partido Social Democrata (centro-direita).

A localidade onde vive fica situada no distrito de Giurgiu, onde o PSD conseguiu um dos resultados mais fortes em toda a Roménia – quase 69% dos votos. Quase nada para Singureni, onde o partido do Governo recolheu 89% dos votos. A nível nacional, o PSD conseguiu 45% dos resultados.

Este ano, no entanto, a Roménia foi testemunha das maiores manifestações da recente História democrática do país, desde a revolução que pôs termo ao Governo comunista de Nicolae Ceaușescu (1965-1989).

Os manifestantes protestaram contra uma lei que o Governo tentou fazer passar no parlamento, com o objetivo de proteger políticos acusados de corrupção. A lei permitiria uma espécie da amnistia, algo que a opinião pública romena não aceitou pacificamente.

Posteriormente, o Executivo anunciou novas propostas que, a serem a provadas, poderiam reduzir o poder de atuação da Agência Romena contra a Corrupção (DNA, sigla em romeno). A agência, essencial na luta pela transparência governativa, terá menos capacidades para a investigação de magistrados. Ao mesmo tempo, o atual ministro da Justiça, Tudorel Toader, luta por obter mais controlo dos Procuradores da Repúplica.

Um dos países mais corruptos da UE

A corrupção é um problema estrutural grave na Roménia e impede o desenvolvimento do país. De acordo com estatísticas oficiais, a a Roménia é um dos países mais corruptos dos 27 Estados membros da UE.

Graças aos esforços da sociedade civil, têm sido lançadas uma série de iniciativas para combater a tendência, o que foi objeto da satisfação de Bruxelas e da várias ONG no terreno.

A sociedade civil parece estar realmente mais atenta ou, pelo menos, pouco tolerante a abusos. No início deste mês de novembro, cerca de 12 mil pessoas foram para as ruas de Budapeste e de outras cidades romenas. Na mesma semana, o Executivo do primeiro-ministro Mihai Tudose enfrentou outros protestos, por causa de uma reforma fiscal, que poderia impôr sobre os funcionários e trabalhadores uma carga fiscal ainda mais elevada.
Singureni, Romania

Manifestações que pouco ou nada dizem a Florica Trandafir. Trabalhou seis dias por semana numa fábrica de sapatos durante anos e teve depois cinco filhos. Passou a ficar em casa para criá-los.

Dois dos filhos vivem com as famílias em Espanha, tal como mais de três milhões de romenos, que procuraram uma vida melhor fora do país nos últimos anos. São 3,4 milhões, de acordo com dados das Nações Unidas, publicados em 2016.

Os anos que passou a trabalhar na fábrica de sapatos não lhe dão direito, segundo lhe disseram as autoridades, a uma pensão mínima. Por agora, vivem da pensão do marido – cerca de 111 euros por mês.

“Não tenho uma pensão. Não tenho nada. Não tenho direito a qualquer tipo de benefício”, Florica. “Sabe o que me disse o presidente da Câmara? Para me divorciar do meu marido. E assim já poderia ter algum tipo de ajuda!”

“Só deus sabe como podemos sobreviver com o que nos dão. Temos de pagar a eletricidade e tudo. Quando o dinheiro acaba, faço pão e, às vezes, polenta.”
Singureni, Romania

“Deixem-nos trabalhar”

Perto do mercado central, um grupo de homens conversa à volta de uns copos de whiskey. Um deles é o presidente da Câmara, Marian Patuleanu, acabado de chegar de uma férias na Índia. A garrafa foi uma prenda para os amigos.

“Respeito todos os que protestam”, disse Patuleanu à Euronews. “Mas isso nao quer dizer que tenham razão.”

“Estou com o outro lado dos habitantes deste país, com o lado que não protesta. Se votámos nestas pessoas, deviamos deixá-los trabalhar durante o mandato de quatro anos. Votámos como pessoas civilizadas e poderemos mudar o sentido de voto se não fizerem as coisas como queremos.”

O presidente Marian Patuleanu chegou a pertencer ao Partido Liberal Democrático (PLD, centro-direita), agora na oposição. Diz ter mudado para o PSD porque o partido permite que tenham acesso a mais fundos europeus, o que tornou possível, por exemplo, pavimentar as ruas da localidade e investir mais nas escolas locais.

“Eu também não concordo com tudo o que têm feito, mas isso não quer dizer que tenha de ir gritar para as ruas, revoltado. E o resto do país? Penso que estão satisfeitos, já que não há muita gente a protestar.”
Singureni, Romania

De acordo com um inquérito levado a cabo pela Kantar Public para o Parlamento Europeu, publicado em outubro deste ano, 62% dos romenos consideram-se instisfeitos com as opções políticas do Governo. Um aumento de 10% em relação aos resultados publicados há seis meses.

O presidente da câmara diz que a localidade é das mais pobres da Roménia e que os habitantes sobrevivem graças a ajudas, uma vez que 40% encontram-se na idade da reforma.

Os Romenos, europeus habituados “à vida dura”

Dumitru Costache tem 41 anos e não tem trabalho. Foi construtor civil muitos anos. Diz que não tem muito tempo para protestos e votou, também ele, no PSD, atualmente no Governo.

“Estamos preocupados com o aumento dos preços nos supermercados. A corrupção não nos interessa. Há corrupção no mundo todo. Toda a gente quer dinheiro.”
Singureni, Romania

Houve também quem não votasse no PSD no distrito de Giurgiu. Uma dessas pessoas foi Catalin Olteanu, de 31 anos. Mas diz que, se não votou no partido do Governo, a verdade é que não está muito interessado em protestos.

“Não ganho nada com isso. Os preços sempre a subir, os nossos bolsos vazios… as coisas são como são. Os romenos estão habituados à vida dura”, diz Catalin.

A Euronews encontrou pelo menos uma voz a favor dos manifestantes. Tudor Puiu, que tabalhou quase três décadas como condutor de autocarros em Bucareste. Diz que as manifestações “são algo muito bom.”

“Não podemos viver assim. Eles são uns ladrões e fazem dinheiro às nossas custas. Riem-se de nós. É a corrupção total. Nem votei no ano passado, porque estou farto deles.”
Singureni, Romania

Os Anton são um casal do distrito de Giurgiu. Constanta e Constantin são casados. Ambos têm 79 anos e trabalharam juntos, durante décadas, pata a Cooperativa de Produção Agrícola do Partido Comunista.

Sentados à porta de casa, contam à Euronews como é a vida política no sul da Roménia. Nenhum dos dois apoia os manifestantes de Bucareste e das grandes cidades romenas.

Constanta votou no atual presidente da Câmara, mas não no PSD, nas eleições parlamentares. O marido, acima de tudo, pensa mais nos “bons velhos tempos do Governo comunista” do que na atual política do país.

“Não há melhor partido do que o Partido Comunista. Eles preocupavam-se com toda a gente e toda a gente tinha trabalho. Eles tiravam as pessoas da ruas e davam trabalho a quem precisava. E esta gente, o que fazem eles? Acabam com fábricas e com tudo.”

Veja mais imagens de Sengureni, Giurgiu, na galeria abaixo

Rural Romanians
Lorelei Mihala, no distrito de Giurgiu, Roménia, com António Oliveira e Silva