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Do "Pedro Preto" ao "Pedro Chaminé": Amesterdão tenta um Natal menos racista

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De  Euronews
Do "Pedro Preto" ao "Pedro Chaminé": Amesterdão tenta um Natal menos racista

<p>Os Países Baixos e a Bélgica celebram, dia 5 de dezembro, a chegada de <em>Sinterklaas</em>, santo padroeiro das crianças e uma das figuras que inspiraram o Pai Natal moderno.</p> <p>Na verdade, os festejos começam três semanas antes do grande dia, quando São Nicolau chega aos Países Baixos num barco a vapor, vindo de Espanha, segundo as tradições holandesa e do norte da Bélgica. Em ambos países, as crianças aguardam ansiosamente pelos presentes.</p> <p>Uma tradição que, no entanto, tem sido alvo de um intenso debate ao longo dos anos, debate que chegou mesmo às <a href="http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=46556#.WhQZTVXiZhE">Nações Unidas</a>. Tudo por causa das figuras dos ajudantes de <em>Sinterklaas</em>.<br /> <BR><br /> <strong><em>Zwarte Piet</em> e a História colonial holandesa</strong><br /> <BR><br /> Os ajudantes, conhecidos como <em>Zwarte Piet</em> – que pode traduzir-se como “Pedro, o Preto”, acompanham o santo padroeiro no barco. São, de acordo com a tradição, maldosos, provocadores, irrequietos e não param de dançar, com uma atitude quase simiesca. Diz o costume que lançam doces às crianças.</p> <p>Por mais ajudantes que haja dentro do barco ou em qualquer celebração, numa escola ou parque infantil, são normalmente pessoas brancas com a cara caricaturalmente pintada de negro e lábios grossos desenhados. E têm sempre um só nome: <em>Zwarte Piet</em>. Ou seja, São Nicolás faz-se acompanhar de vários Pedro, o Preto. <br /> <BR><br /> <blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="en" dir="ltr">Stop <a href="https://twitter.com/hashtag/blackface?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#blackface</a> in the <a href="https://twitter.com/hashtag/Netherlands?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#Netherlands</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/racism?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#racism</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/sinterklaasintocht?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#sinterklaasintocht</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/Sinterklaasjournaal?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#Sinterklaasjournaal</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/colonialhangover?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#colonialhangover</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/zwartepietniet?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#zwartepietniet</a> <a href="https://t.co/mSQe6atc5M">pic.twitter.com/mSQe6atc5M</a></p>— Sulimar (@Suli_mar) <a href="https://twitter.com/Suli_mar/status/931809923318640640?ref_src=twsrc%5Etfw">18 de novembro de 2017</a></blockquote><br /> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script><br /> <BR><br /> Pedro, o Preto mexe-se com desenvoltura, à medida que fascina e assusta as crianças com o seu saco de doces. Uma figura caricatural e redutora, cuja tradição remonta aos tempos da prática da escravidão e do colonialismo pelos europeus. Os Países Baixos, com a <span class="caps">VOC</span>, a Companhia das Índias Orientais Holandesas ( Verenigde Oostindische Compagnie), não foram exeção. A presença de <em>Zwart Piet</em> e o facto de que sejam brancos a pintar a cara de negro para carectizar o(s) suposto(s) ajudante(s) tem vindo a incomodar cada vez mais pessoas no país. </p> <p>Várias organizações de defesa dos Direitos Humanos insistiram, em diversas ocasiões, em que Pedro, o Preto deveria simplesmente desaparecer ou sofrer alterações. O objetivo, dizem, é acabar com “uma caricatura racista”.</p> <p>Uma das plataformas contra a existência da personagem é a <a href="https://www.facebook.com/zwartepietisblackface/">Zwarte Piet is Racisme</a> , que, em conjunto com o grupo <em>Kick Out Zwarte Piet</em> (<span class="caps">KOZP</span>, Acabem com Pedro, o Preto), deu início a uma vaga de protestos, que incluiram manifestações durante as próprias festividades. Várias iniciativas terminaram em confrontos com a polícia e detenções.<br /> <br /> <iframe src="https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fzwartepietisblackface%2Fposts%2F1829317873762839&width=500" width="500" height="520" style="border:none;overflow:hidden" scrolling="no" frameborder="0" allowTransparency="true"></iframe><br /> <br /> Os defensores da tradição dizem que esta nada tem a ver com racismo. Pedro, o Preto é escuro por várias razões, segundo a quem se pergunte. A mais popular é a que diz que o ajudante sujou na chaminé, ao ajudar <em>Sinterklaas</em>. As sua forma de estar assemelha-se à de um palhaço, dizem, uma criatura burlesca cuja intenção não passa pelo insulto a qualquer grupo étnico ou cultural. E sobretudo, Pedro, o Preto é adorado pelas crianças.<br /> <BR><br /> <strong>Uma oposição crescente</strong><br /> <BR><br /> Os protestos, no entanto, continuaram pode dizer-se que ha agora um certo reconhecimento público de que <em>Zwarte Piet</em> é uma tradição que se relaciona com os tempos das colónias e da venda de escravos levada a cabo pelos holandeses.</p> <p>Em 2014, os ativistas conseguiram que a Justiça holandesa eliminasse a figura do ajudante do santo padroeiro dos festejos de 5 de dezembro, por ser considerada racista. A decisão foi, no entanto, anulada pelo Supremo Tribunal dos Países Baixos (<em>Hoge Raad der Nederlanden</em>).</p> <p>Mas o desconforto crescente, assumido por muitos nos <em>media</em> nacionais, levou a uma decisão da parte de algumas entidades organizadoras: Pedro, o Petro passa a ser, Pedro Chaminé. Pelo menos, nas grandes cidades, como Haia e Amsterdão. </p> <p>Foi o caso dos festejos de Amsterdão de 2017. A <em>Intocht van Sinterklaas</em>, a festa que comemora a chegada de <em>Sinterklaas</em> contou com um Piet um pouco mais livre de redutores traços e supostas características étnicos, ainda que a decisão de manter a personagem não tenha sido do agrado de todos.</p> <p>Para Pam Evenhuis, da comissão organizadora do evento na cidade holandesa, “não é possível que <em>Zwarte Piet</em> desapareça”, já que São Nicolau e Pedro estão um para o outro como o Sol está para a Terra”.</p> <p>“No verão passado, pensámos também em comprar perucas novas, perucas com cabelo castanho encaracolado, assim como uns fatos novos, inspirados na nobreza espanhola do século <span class="caps">XVII</span>. Como se supõe que <em>Sint</em> chega de Espanha, parecem fatos inspirados na nobreza espanhola”, explicou Pam Evenhuis.<br /> <BR><br /> <strong>Pedro Chaminé, pelo menos nas grandes cidades</strong><br /> <BR><br /> Mas a iniciativa não foi seguida por todo o país. Apenas Haia e Amsterdão contam com o novo Pedro Chaminé, já que, para muitas regiões holandesas, <em>Zwarte Piet</em> não tem qualquer conotação racista. Uma decisão que fez com que os ativistas da <em>Zwart Piet</em> é Racismo / <span class="caps">KOZP</span> marcasse presença nas paradas de algumas cidades, com manifestações que, na maioria dos casos, foram pacíficas.</p> <p>Rosa tem 26 anos e participa nas iniciativas da <em>Zwarte Piet</em> is Racisme/ <span class="caps">KOZP</span>. Explicou à Euronews que o que se passa é uma tradição errada. “Participo nestas ações por acho a imagem de <em>Zwarte Piet</em> muito ofensiva e um insulto para as pessoas negras em geral, mas sobretudo, para os afro-holandeses. “Acho que é mau para os Países Baixos porque impede o diálogo sobre o problema do racismo no país.”</p> <p>Rosa diz que é uma tradição, mas “uma tradição ultrapassada e que precisa de evoluir, tal como foi feito com muitas tradições”.</p> <p>Por agora, Pedro, o Preto continua a ser motivo de polémica no país. Houve alguns confrontos em certas regiões dos Países Baixos este ano e os protestos do grupo <span class="caps">KOZP</span> foram proibidos em Dokkum, na província da Frísia (norte), onde teve lugar a primeira comemoração da chegada de <em>Sinterklaas</em>.<br /> <BR><br /> <blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="nl" dir="ltr">Nederlandse logica? <a href="https://twitter.com/hashtag/zwartepiet?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#zwartepiet</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/kozp?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#kozp</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/zwartepietniet?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#zwartepietniet</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/pakjesavond?src=hash&ref_src=twsrc%5Etfw">#pakjesavond</a> <a href="https://t.co/UXuRWz1DXP">pic.twitter.com/UXuRWz1DXP</a></p>— Carol Rock (@carolmrock) <a href="https://twitter.com/carolmrock/status/673216816773206017?ref_src=twsrc%5Etfw">5 de dezembro de 2015</a></blockquote><br /> <script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script><br /> <BR><br /> A polícia de choque marcou presença nos festejos e deteve vários ativistas, conduzidos depois em autocarros para longe do evento. Terminada a operação, <em>Sinterklaas</em> chegou no seu barco, vindo de Espanha, a <em>Dokkum</em>. Com ele, vários ajudantes com a cara pintada de negro. Todos eram <em>Zwarte Piet</em>/ Pedro, o Preto e nenhum deles tinha uma história de chaminé para contar.</p> <p>Os sucessivos Governos holandeses têm procurado evitar a polémica, negando-se a prestar declarações sobre o tema, para evitar ferir suscetibilidades. Alguns membros do Executivo preferiram responder que o importante seria que os festejos fossem levados a cabo de acordo com o que é mais importante: as crianças e as pessoas. Por agora, venha de onde venha Piet, o debate continua na ordem do dia, antes e depois da chegada do barco de <em>Sinterklaas</em> de Espanha para dar presentes às crianças.<br /> <br /> <strong>Charis McGowan com António Oliveira e Silva</strong></p>