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"Se não se conseguir lidar com o lado negativo da grande informação, há o risco de se perder o controlo", garante a Comissária Europeia para a Concorrência.

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"Se não se conseguir lidar com o lado negativo da grande informação, há o risco de se perder o controlo", garante a Comissária Europeia para a Concorrência.

"Se não se conseguir lidar com o lado negativo da grande informação, há o risco de se perder o controlo", garante a Comissária Europeia para a Concorrência.
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É muitas vezes designada como a mulher mais poderosa de Bruxelas depois de se ter batido contra as gigantes tecnológicas de Silicon Valley. A dinamarquesa Margrethe Vestager, a comissária europeia da Concorrência é a nossa convidada em Global Conversation.

Efi Koutsokosta, euronews:
“O que mudou desde que decidiu que a Amazon ou a Apple deviam devolver elevados montantes de dinheiro de impostos não pagos à Irlanda ou ao Luxemburgo? Sentiu mudanças nas políticas fiscais?”

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência:
“Acredito que as mudanças não se vão sentir tão rápido. Tem havido bons progressos na recolha de impostos não pagos pela Amazon e o com os irlandeses, tivemos de pedir ao Tribunal Europeu para intervir uma vez que os irlandeses também deveriam exigir a devolução dos impostos não pagos, tal como é feito na Holanda, Bélgica e Luxemburgo, paises que já o estão a fazer. Isso é positivo”.

Efi Koutsokosta, euronews:
“Mas se olharmos para os recentes escândalos como os Paradise Papers, não fica provado que a União Europeia tem pouco poder contra os esquemas de fuga aos impostos usados pelas multinacionais e por alguns Estados-membros?”

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência:
“O facto de termos tido essas fugas de informação, e agora estarem a surgir mais como o “Luxleaks”, o “Swissleaks”, os “Panamá Papers”, os “Paradise Papers, acredito que isso mostra que as coisas estão a mudar, os segredos estão a ser revelados. As fugas surgem em todo o lado. E isso permite-nos agir. Eu posso intervir mas os Estados-membros podem mudar a legislação e implementá-la para melhorar a situação”.

Efi Koutsokosta, euronews:
“Recentemente, numa entrevista, o Primeiro-ministro do Luxemburgo disse que “é do interesse da Europa que as empresas paguem mais impostos na Europa que nos Estados Unidos ou na Ásia?”

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência:
“Para mim é simples. O local onde se obtêm lucros, onde se tem os clientes e onde se faz negócio, é também o local onde se deve contribuir para a sociedade. Porque os negócios não se concretizam se não existirem estradas, estruturas digitais, pessoas qualificadas, clientes, tudo o que faz parte de uma sociedade equilibrada.
E por isso mesmo, devem contribuir como qualquer pessoa”.

Efi Koutsokosta, euronews:
“Para além disso, lida com grandes casos contra a Google, se não me engano há três processos. Qual é o último?”

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência:
“O primeiro foi concluído e exigimos que a Google pague 2 mil e 400 milhões de euros de multa. Está a ser tratado e a Google está num processo de implementação de novas regras. Ainda não tomámos decisões, estamos a monotorizar mas ainda não sabemos se funciona, temos de esperar. Além disso continuamos a investigar outros dois casos sobre a forma como a Google usa o sistema operativo Android para dominar as buscas também nos dispositivos móveis. O último caso diz respeito ao AdSense, publicidade, porque basicamente a Google é uma empresa de publicidade. Por isso é importante perceber como usam a força que têm, se permitem aos outros fazer o mesmo tipo de concorrência, inovação, se lhes permitem estar presentes no mercado e apresentar os produtos aos clientes”.

Efi Koutsokosta, euronews:
“Recentemente, muitas autoridades nacionais avançaram com investigações sobre a forma como essas empresas recolhem e usam a informação e cito o presidente da autoridade italiana “os grandes dados são recursos da nossa economia mas podem ser um problema sobretudo quando os grandes dados criam um grande poder de mercado que pode ser usado para excluir a concorrência “. Partilha esta visão?”

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência:
“Costumávamos pensar no dinheiro como um ativo, mas os dados podem ser o mesmo ativo. Porque esta é a nova moeda de pagamento, quando usamos um motor de busca ou outro serviço digital, nós pagamos fornecendo informação sobre o nosso perfil, que depois é vendida a empresas de todo o tipo de publicidade. Assim sendo, é uma fonte de inovação que pode ser ao mesmo tempo uma barreira de entrada….uma vez que ao recolher grandes quantidades de informação também se exclui do mercado muita outra e impede-se a concorrência de entrar e apresentar novos produtos.
É importante que todos tenhamos os mesmos direitos, para que todos possamos usufrir dos aspectos positivos dos grandes dados.
Porque podem ser feitas grandes investigações, pode encontrar-se a cura para muitos tipos cancro, pode evitar-se o tráfico, podem ser feitas coisas fantásticas, mas se não se conseguir lidar com o lado negativo da informação, há o risco de uma “contra-ação” e perde-se o controlo”.

Efi Koutsokosta, euronews:
“No que diz respeito à política, há suspeitas de interferência russa nas eleições de outros países, através das redes sociais. Partilha estas preocupações? O que pode ser feito atualmente?”

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência:
“É um grande alerta para todos nós o que parece ter acontecido nos Estados Unidos.
Os cidadãos devem ter um papel crítico também nas redes sociais. Não devemos acreditar em tudo o que vêmos.
Se eramos cidadãos criticos quando a informação era divulgada pelos jornais, hoje devemos ser ainda mais. E o caso russo tem sido um alerta muito concreto de que não há “atalhos” para deixarmos de pensar por nós próprios”.

Efi Koutsokosta, euronews:
“Mas há algumas más notícias para a Europa, claro que não é só na Europa, sobre as mulheres. Porque a comissária é uma das poucas a ocupar cargos de topo. Alguma vez se sentiu discriminada durante a sua carreira política só por ser mulher?”

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência:
“A mim são feitas perguntas diferentes das que são feitas aos homens. Sobre roupa, sobre o que faço no meu tempo livre, sobre que tipo de mãe sou. Mas eu tento dar a volta e digo que ser mulher dá-me a oportunidade de ter um tipo diferente de poder. Acredito que temos de mudar o poder. Porque durante décadas, as mulheres tiveram de lutar para não se tornarem homens mas parecidas, na forma de vestir, no corte de cabelo, no tom de voz. O que temos de mudar é o poder. Talvez seja uma forma de dizer, sim, sou uma mulher, sou tratada de forma diferente, mas essa pode ser uma ferramenta. Porque não estamos a falar da velha guerra de poderes, não queremos o poder dos homens, queremos apenas que o poder seja usado de forma melhor. Acredito que pode ser extremamente libertador também para os homens”.

Efi Koutsokosta, euronews:
“Foi a primeira mulher ministra no seu país, na Dinamarca. Há muita gente que diz que alguns líderes, incluíndo Emmanuel Macron, gostariam de a ver como a próxima Presidente da Comissão Europeia. Estaria disposta a tornar-se na primeira mulher Presidente da Comissão?”

Margrethe Vestager, comissária europeia para a Concorrência:
“Também ouvi esses rumores e isso lembra-me que a política europeia é como a política dinamarquesa. Há muitos rumores a circular. Posso entender isso como um elogio, as pessoas pensam no que vou fazer no futuro. Mas a verdade é que estou mais preocupada com o trabalho que tenho agora”.