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Fim da Interviú: Depois do Franquismo e antes da "telebasura"

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Fim da Interviú: Depois do Franquismo e antes da "telebasura"

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Sinal de um tempo digital cada vez mais avassalador, o fecho da revista Interviú marca o fim de uma época, depois de 40 anos de capas e furos que fizeram Espanha perder um pudor forjado pelo franquismo.

A publicação do grupo editorial Zeta ajudou a sociedade, saída da Transição Democrática, a ver mundo de forma menos hipócrita, ainda que isso lhe tenha custado um ou outro processo em tribunal.

Mais do que capas provocadoras...

Em mais de dois mil exemplares ficam, para a história da Interviú, reportagens exclusivas sobre temas que abalaram a crónica política espanhola dos anos 70 e 80: as contas bancárias da família de Francisco Franco, o caso dos Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL) ou a guerra suja do Estado espanhol contra o grupo armado independentista basco ETA.

A publicação deu também cartas em Portugal, embora por um tema muito mais mundano: publicou, no final dos anos 80, imagens dos filmes de conteúdo pornográfico amador, do arquiteto Tomás Taveira.

O caso, foi um dos grandes escândalos mediáticos do Portugal do pós 25 de abril e chegou a ensombrar a carreira do arquiteto, que processou a publicação.

...mas muito conhecida pelas capas provocadoras.

Ao longo dos anos, a Interviú consolidou-se como a publicação provocadora sem a qual Espanha parecia não poder passar.

Pelas capas e sem roupa, nomes como os das cantoras Marissol, Marta Sánchez, Isabel Pantoja e mesmo Lola Flores, "La Faraona", mas também de conhecidas apresentadoras (em Espanha), como Terelú Campos e Ana Obregón.

No auge da Interviú, havia quem empurrasse aversárias para sair na capa da revista, uma honra a que poucas mulheres - e menos homens- tiveram direito.

Desde o tempo em que a extrema-direita queria que não saissem mulheres na imprensa com os peitos descobertos, até aos dias em que a revista ficou sem dinheiro para pagar às mais famosas, Espanha deixou de ser um país ensombrado pela ditadura para ser uma democracia madura, com uma sociedade menos impressionável.

Uma sociedade menos impressionável também graças a dezenas de televisões generalistas privadas, que foram quebrando tabús, em busca das audiências.

Nos anos 90, impô-se, em Espanha, o modelo dos programas de televisão com valor do choque, como o Big Brother, Esta Noche Cruzamos el Mississippi e os chamados programas-arena, focados na vida dos famosos e dos que desejam, a todo o custo, ser famosos. Começa o reinado da telebasura, a televisão-lixo. Foi o início do fim da Interviú.

Aqui ficam, com a ajuda dos nossos colegas da redação em língua espanhola da Euronews, algumas das capas que mais marcaram o país vizinho:

O primeiro número da Interviú, de março de 1976. Da primeira modelo na capa, de nacionalidade britânica, nem o nome se sabe, segundo a editora. Vendeu cerca de 85 mil cópias e causou a fúria dos setores conservadores. Grupo Zeta

A conhecida cantora e atriz Marisol, musa da pureza feminina franquista, mostrou que a Transição Democratica vinha para ficar. Uma edição que vendeu mais de um milhão de exemplares, em 1976. Grupo Zeta

E, a pouco e pouco, caíam os tabús na sociedade espanhola. Lola Flores é capa de revista aos 60 anos, em imagens impossíveis de publicar 10 anos antes. Uma Espanha dos 80 que não conhecia limites. Grupo Zeta

Um percurso que fez das capas da publicação um privilégio ao alcance de poucas mulheres (e menos homens). Para celebrar 25 anos, a Interviú convidou a rainha das capas da altura, a atriz Ana Obregón. Grupo Zeta

Entre os poucos homens que fizeram as capas eróticas da Interviú, encontra-se o apresentador galego Jesús Vázquez, assumidamente homossexual, e que aproveitou a ocasião para reivindicar o orgulho LGBT. Tinham passado três décadas. Grupo Zeta

Já em 2012, a Interviú mostra um "Franco Inédito", ainda que vestido. Uma imagem mais jovial do ditador, quase tão invulgar no século XXI quanto o foi a capa com Marisol, em 1976. Grupo Zeta