Última hora

Última hora

República Democrática do Congo: a crise profunda em Kasai

Em leitura:

República Democrática do Congo: a crise profunda em Kasai

República Democrática do Congo: a crise profunda em Kasai
Tamanho do texto Aa Aa

Na República Democrática do Congo, milhares de pessoas foram mortas na região de Kazai desde 2016, com o escalar de um novo conflito.

No auge do conflito, mais de um milhão de pessoas desalojadas internamente na grande região de Kasai fizeram da República Democrática do Congo o primeiro país na lista de deslocados internos, com cerca de 4 milhões a deixar as suas casas para trás.

Em novembro deste ano, mais de 3 milhões de pessoas na grande região de Kasai corriam risco de fome, mais de 750 mil continuavam deslocadas.

Kasai Central: recuperar vidas estilhaçadas

A norte de Kananga, – a cidade principal da região de Kasai Central, uma das províncias que integram a grande região de Kasai -, a ponte Lulua é a única via de fuga da violência nas zonas mais a norte.
Kasai Central é uma das províncias atingidas pelo conflito entre a milícia Kamwina Nsapu e as forças governamentais. É também onde os regressos se verificam, agora que é considerada uma das mais zonas mais seguras.

Kananga e as aldeias em volta, como a de Nganza, onde encontrámos Marie Sankayi Beya, tornaram-se lugar de regresso, onde as pessoas tentam recuperar a subsistência que deixaram e sarar das feridas do conflito. Marie faz o mesmo:

“Estava na escola e ouvi disparos. Fugi mas fui atingida no caminho para casa por balas perdidas. Não vi quem disparou, mas senti qualquer coisa no braço, uma espécie de dor no braço todo e depois vi algum sangue. Nesse dia, dois colegas de escola foram mortos mesmo ao meu lado. Os soldados levaram os corpos. Quando vi aquilo, fugi, não podia carregar os corpos.”

Marie foi ferida em fevereiro passado e, meses depois, toda a gente tinha abandonado a aldeia.
Depois de ter voltado, Marie percorre todos os dias o mesmo caminho onde foi ferida para chegar à escola.

“Pensei que nunca mais ia voltar a mexer o meu braço outra vez”. O que Marie pensou não se tornou na sua realidade. O braço de Marie foi perfurado duas vezes e uma terceira bala ficou alojada no osso. Conseguiu recuperar parcialmente a mobilidade com horas de fisioterapia proporcionadas pela organização não governamental Handicap International. A ONG é financiada pelo gabinete de ajuda humanitária da União Europeia.

Esther Lufuluabo Kapuku é fisioterapeuta e tem ajudado Marie na recuperação: “O cotovelo ainda tem problemas, há um início de anquilose. Agora a Marie pode dobrar e estender o punho, mas não vai recuperar completamente.”

A Handicap International treinou fisioterapeutas locais como Esther nos dois hospitais de Tshikaji e de Kananga para conseguir responder à complexidade dos casos resultantes do conflito.

Feli Kanyinda encara o resto da vida com a ausência de um membro inferior: “Perdi a minha perna. Estava num comboio, a fugir da milícia. Caí e o comboio cortou-me a perna.”

Cerca de 80% dos casos tratados com fisioterapia no Hospital Geral de Kananga e no de Tshikaji são resultantes do conflito. A logística de ambas as unidades hospitalares não chegava para corresponder às necessidades dos pacientes.

Veerle van Hoestenberghe é diretora de reabilitação na Handicap International: “Antes do conflito já tinhamos uma sala de fisioterapia, mas não havia casos assim tão graves.Reforçámos a ala de fisioterapia e equipámo-la com tudo aquilo que é necessário para cuidar destes casos muito graves.”

Feli agarra-se às barras laterais na sessão com a fisioterapeuta, mas orgulha-se do percurso de autonomia já feito:
“O primeiro dia foi isto. Começámos com 5 voltas, depois 10 voltas e fomos indo até às 30. Hoje posso andar sozinho e, se quiser, posso mesmo andar um quilómetro sozinho.”

Aid Zone DR Congo

A resposta global da União Europeia às várias crises na República Democrática do Congo, -entre Estados membros e Comissão Europeia -, cifra-se em cerca de 90 milhões de euros em 2017.
É com um valor que ascende a quase 30 milhões de euros, que o gabinete de ajuda humanitária da União Europeia tem financiado as operações no terreno através dos parceiros aí implementados.
Estes focam-se numa resposta rápida aos movimentos populacionais, tentando garantir proteção e assistência médica de suporte de vida em contexto muito volátil.

Amparo Laiseca integra a ajuda humanitária da União Europeia e, no terreno, o discurso traduz a desolação: “Tudo foi destruído, se não tudo, pelo menos uma grande parte das infraestruturas. Os que regressam não têm meios de subsistência porque não puderam semear pelos menos durante duas épocas de plantação, se não três. Estão completamente de mãos vazias.”

Acerca da aparente falta de conhecimento público de uma crise com contornos gigantescos, Amparo oferece uma possível explicação: “No início pensámos que esta era uma crise como as outras na República Democrática do Congo, onde as crises são uma realidade quotidiana, infelizmente. Levámos tempo a perceber a amplitude e a violência desta crise.”

As Nações Unidas requereram mil e setecentos milhões de euros em 2018 para a República Democrática do Congo, a maior soma logo após da da Síria e do Iémen, e mais do dobro do montante pedido em 2016.