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Subida do nível do mar: Um risco para as costas europeias até 2100?

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Subida do nível do mar: Um risco para as costas europeias até 2100?

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A subida do nível do mar não é só um problema dos trópicos, mas também da Europa, como foi possível entender durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Clima de 2017, em Bona.

A COP23 serviu para entendermos o que pode acontecer se nada for feito para controlar o aquecimento global. No caso do continente europeu, o degelo nos pólos afetará, em primeiro lugar, as costas dos Países Baixos, da Bélgica e da Grécia, mas também de Portugal. Cerca de dois terços da costa portuguesa sofre, por causa da subida do nível do mar, risco de erosão. Lisboa pode vir a sofrer com os mesmos problemas de Veneza, pelo que é necessário proteger a região nos próximos anos.

Espera-se que, em 2100, o nível do mar suba entre 40 centímetros a um metro, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), estabelecido pela Organização das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) e pela Organização Meteorológica Mundial (WMO).

Os mecanismos de prevenção são ainda possíveis, mas têm um custo bastante elevado. De acordo com um estudo apresentado pelo Banco Mundial, o arquipélago das Fiji, no Pacífico, tem pela frente investimentos superiores a quatro mil milhões de euros, durante a próxima década.

O objetivo é prevenir os efeitos do aquecimento global, efeitos que têm atingindo, com particular intensidade, o arquipélago das Fiji. A quantia necessária para contrariar o efeito da subida do nível do mar é equivalente ao Produto Interno Bruto do país.

A subida do nível do mar faz-se de forma desigual nas diferentes regiões do globo. O caso das Ilhas Fiji constitui um aviso para o continente europeu.

De acordo com a Agência Europeia para o Ambiente, o nível do mar tem subido, desde 1993, uma média de três milímetros todos os anos. Por outras palavras, o nível das águas dos oceanos encontra-se agora sete centímetros mais elevado do que há 24 anos.

Durante o século passado, o nível dos oceanos subiu 19,5 centímetros. No entanto, a evolução, apesar de constante, não se deu de forma gradual. E a verdade é que o problema tem vindo a agravar-se.

A tendência só pode ser contrariada se forem feitos esforços para reduzir o fenómeno do aquecimento global. A Europa tem, atualmente, ainda tempo para atacar o problema. Um problema que não vai afetar muitas das grandes cidades europeias, mas que, ainda assim, não pode ser ignorado.

Em Itália, Veneza prepara a instalação de 57 barreiras para impedir que as águas do mar invadam a zonas dos canais. O projeto, destinado a proteger a zona histórica, custou 5,5 mil milhões de euros.

Nos Países Baixos, foram criadas casas que flutuam. Os holandeses são peritos, dada a relação do país com o mar, em gerir situações de risco em caso de cheias.

No Reino Unido, o governo gastou o equivalente a mais mais de 1,5 mil milhões de euros para impedir que as águas do rio Tamisa castiguem a capital britânica nos próximos anos. O sul de Inglaterra sofre regularmente com cheias durante o inverno.

Espanha, particularmente a cidade de Barcelona, Turquia, em especial Istambul, e a Irlanda, como é o caso de Dublin, são também vulneráveis aos fenómenos cada vez mais preocupantes das cheias.

Os líderes europeus devem agir depressa para poderem impedir catástrofes. Por um lado, são necessárias barreiras físicas para proteger áreas que possam ser afetadas pelas cheias. Por outro lado, e não menos importante, é importante reduzir os efeitos causados pelo aquecimento global – o fenómeno responsável pela subida do nível médio dos oceanos. Em ambos casos, é necessário recolher informação acerca da evolução das orlas costeiras nos próximos tempos.

O Programa Copernicus permite recolher e compilar dados fundamentais para combater as mudanças climáticas.

De acordo com Jean-Noël Thépaut, diretor do Serviço para as Mudanças Climáticas do Programa, “controlar os níveis médios dos oceanos é algo elementar para entendermos a evolução do clima”.

“É importante que os líderes europeus tenham uma visão holística do desafio que representam as mudanças climáticas e de como afetam vários aspetos da vida no Planeta.”

É por isso que o Serviço para as Mudanças Climáticas do Programa Copernicus controla atentamente a evolução do nível médio dos oceanos, mas também dos gelos, da temperatura à superfície terrestre e da composição dos solos.

“Queremos ter uma visão integrada do que chamamos o ciclo da água, pois é muito importante para entender a evolução do clima e de todos os fatores que influenciam o fenómeno no seu conjunto.”

Uma das organizações que fornece este tipo de dados ao Serviço para as Mudanças Climáticas do Programa Copernicus é o Centro Francês para a Exploração Marítima (CLS, sigla em francês).

Gilles Larnicol, Diretor do Departamento de Oceanografia do CLS, diz que uma das missões mais importante do organismo é a assegurar uma recolha de dados exatos e sem qualquer erro. Só assim, podem ser tomadas decisões eficazes, com base na análise produzida.

“Sempre que um novo porto é construído ou que é decidido fazer um edifício próximo da orla costeira, é necessário que os responsáveis tenham em conta a evolução do nível do mar “, disse Gille Larnicol.

“O modelo do IPCC é muito importante para nós. Mas é importante também proceder ao cruzamento de dados de outras fontes. Como acontece com os dados que fornecemos.”

A COP23 dedicou, em 2017, dois dias do encontro ao debate acerca da subida média do nível dos oceanos, fenómeno considerado como indicador fundamental do aquecimento global.


As infraestruturas construídas no futuro deverão ter em conta as projeções de aumento do nível do mar.

Foram 194 os países que assinaram o Acordo de Paris, cujo objetivo é reduzir o aumento da temperatura média global ente 1.5 a 2°C, até ao fim do século. Jean-Noël Thépaut acredita que há razões para permanecermos otimistas:

“É um objetivo que apresenta grandes desafios, mas, só se os países se comprometerem a trabalhar para alcançarem estas metas, por exemplo, reduzindo a emissão de gases que provocam o chamado efeito de estufa, será possível impôr limites às mudanças climáticas, manter o aquecimento global dentro de limites aceitáveis e, consequentemente, reduzir o nível médio da subida dos oceanos.”