Última hora

Última hora

Divididos entre Bruxelas e Moscovo, bielorrussos sonham com um novo país

Em leitura:

Divididos entre Bruxelas e Moscovo, bielorrussos sonham com um novo país

Tamanho do texto Aa Aa

A equipa do programa Insiders embarcou numa viagem a um país considerado por várias ONG como a última ditadura da Europa.

Fomos à Bielorrússia, ou, como muitos dos habitantes preferem chamar-lhe, Belarus. Um nome, que apesar de quase nunca utilizado em português, recorda que o país é mais do que a "Rússia branca" - palavras que compõem a etimologia do nome 'Bielorrússia'.

No passado dia 25 de março, milhares de pessoas reuniram-se em Minsk, a capital, para celebrar o centenário da emancipação do então Império Russo e da proclamação da República de 1918.

Uma declaração efémera, já que os bolcheviques se encarregaram de deixá-la sem efeito.

Depois de quase sete décadas sob domínio soviético, a Bielorrússia recupera a independência, no contexto da desintegração da URSS. A data usada como dia da independência pelo Estado bielorrusso corresponde à independência da URSS, de 1991.

Mas muitos são os que preferem o chamado Dia da Liberdade, que dizem corresponder à verdadeira essência da identidade bielorrussa.

O mesmo acontece com a antiga bandeira branca e vermelha, substituída em 1995 pelo presidente Aleksandr Lukashenko, numa medida que muitos contestam, embora a maioria o faça a voz baixa.

Reuters
A juventude é parte essencial nos crescentes protestos contra o Estado bielorrusso e contra o presidente Alexander Lukashenko, no poder desde 1994. Reuters

Este ano, o 25 de março atraiu milhares de pessoas ao centro de Minsk. Um dia de muito entusiamo na capital, diferente das celebrações noutros locais da cidade.

Mas as coisas não correram tão bem para as outras pessoas que tentaram manifestar-se noutras partes da cidade.

Uma hora antes do início das comemorações autorizadas pelo Governo, outra manifestação, não autorizada, acabou mais cedo. Dezenas de opositores e cidadãos decidiram reunir-se, noutra praça de Minsk, para desfilar depois até ao local das comemorações. Acabaram detidos, tanto em Minsk como noutros pontos do país.

Mikalai Statkevich, voz da oposição

Antigo candidato às presidenciais 2010, Mikalai Statkevich é a voz do descontentamento. A Euronews encontrou-se com ele dias antes da manifestação. O opositor e a mulher, Maryna, fecharam-se em casa, dias antes, para evitar serem detidos dia 25

Dizem ser constantemente vigiados. A rádio está sempre ligada.

Mikalai Statkevich foi um dos manifestantes detidos durante os protestos contra a reeleição de Lukashenko em 2010.Foi libertado cinco anos depois, com outros prisioneiros políticos.

Uma decisão do Estado bielorrusso que lhe valeu o fim das sanções da parte da União Europeia. Mas Statkevich diz que a repressão continua.

"É um país sufocante. Aqui é difícil respirar. O medo está sempre presente. Se ninguém fala de liberdade, se ninguém luta pela liberdade, as pessoas esquecem-se de que ela existe," explicou à Euronews.

"A sociedade desagrega-se e o país torna-se numa presa fácil para qualquer força exterior. Neste momento, Lukashenko é controlado por Putin. Putin é mais popular do que Lukashenko na Bielorúsia, o que poderia facilitar uma eventual anexação do país, algo que interessa bastante a Putin. Queremos um futuro normal para o nosso país e por isso vamos continuar a sair à rua."

A entrevista foi interrompida de forma repentina, com o som de um telefone.

Do outro lado da linha, chega a notícia: mais dois opositores foram detidos:

"Foram Nieklaiev, Siuvchik, e Viniarski não foram?," pergunta Statkevich.

Mikaila Statkevich foi preso quatro dias mais tarde, à porta de casa. Na altura, tentava chegar à marcha proibida do 25 de março.

Ainda assim, a repressão foi, este ano, menos violenta do que em2017. Naquela altura, as pessoas juntaram-se à oposição durante semanas. O Governo tinha aprovado uma imposto aos desempregados, conhecido como o imposto parasita.

Centenas de pessoas foram detidas. Cidadãos, militantes e jornalistas. A repressão foi violenta, mas a lei foi abolida em janeiro deste ano.

Reuters
Milhares de pessoas concentraram-se no centro de Minsk para assinalar os 100 anos do 25 de março, Dia da Liberdade, quando a Bielorrússia declarou a independência do Império Russo. Reuters

O "imposto parasita"

A Euronews marcou encontro com representantes do único sindicato considerado independente no país, onde se presta apoio aos trabalhadores vítimas de abusos.

Vladimir e Dimitrx são jovens e representam uma juventude que procura um futuro menos sufocante, mas, sobretudo, com mais trabalho. Tornaram-se membros do sindicato depois de terem sido vítimas do chamado "imposto parasita". Em 2017, Vladimir participou numa manifestação pela primeira vez na vida:

"Fui detido e posto numa cela sem luz, sem ventilação. Não recebi explicações. Não tive direito a advogado e não pude informar a minha família. Recebi a multa máxima de 350 euros, o que nos custou muito a pagar. Agora que sou catalogado como opositor, é ainda mais difícil encontrar trabalho" explicou-nos.

Medidas que fizeram de outros jovens, como Dimitry, mais atentos às atividades do Governo:

"Com o decreto número três, tornei-me mais atento a estas novas políticas. Comecei mesmo a estudar as leis para saber proteger-me."

Como muitos jovens na Bielorrússia, Vladimir e Dimitry emigraram para arranjar trabalho, sobretudo quando a crise impôs salários ainda mais baixos.

"Há menos empregos," conta Gennadi Fedynitch, do sindicato independente.

"Para piorar as coisas, o Governo bielorrusso deverá apresentar um novo projeto de lei que obriga os desempregados a pagar na íntegra as prestações sociais."

Uma situação que deixa as famílias com desempregados num ciclo negativo. Algo intencional, diz Fedynitch:

"As famílias que ganham o suficiente têm outros problemas na cabeça e começam a pensar livremente. O Governo não quer gente que pense livremente. Quando se vive quase na pobreza, mesmo na miséria, ninguém pensa nos problemas grandes. As pessoas pensam na sobrevivência. É a diferença entre uma democracia e um regime autoritário."

Dias depois da entrevista com a Euronews, Dimitry é detido por participar na manifestação do 25 de março.

Reuters
O chamado "imposto parasita" atingiu sobretudo as camadas mais jovens, que encontram dificuldades para conseguir trabalho. Os empregos que vão surgindo são muito mal pagos. Muitos encontram na migração uma solução para quebrar um ciclo de pobreza. Reuters

Um KGB sempre presente

A liberdade de expressão continua limitada na Bielorrússia, onde KGB não mudou de nome. E continua bem presente, articulando um aparelho de Estado que vigia tudo e todos.

Mas o regime autoritário de Alexander Lukashenko parece dar sinais de alguma abertura. Desde que a Rússia entrou na Crimeia, no que é definido pla União Europeia e Nações Unidas como uma anexação, Lukashenko esforça-se por agradar a Bruxelas.

A Bielorrússia depende economicamente de Moscovo,as Bruxelas diz que não há mais vantagens sem que o paísmelhore a situação dos direitos humanos.Uma situação que não é fácil de gerir.

O ministro dos Negócios Estrangeiros bielorrusso, Vladimir Makei, explica à Euronews que as coisas se gerem num equilíbrio delicado entre Moscovo e Bruxelas.

"Não podemos passar da União Soviética para a União Europeia como Estado democrático. Não significa que não possamos aprender a sê-lo", explica.

"Mas há que ter em conta todo um contexto ao analisar esta situação. Já pensámos em fazer mudanças constitucionais. A situação mudou, tanto na Bielorrússia como nos países vizinhos. Falamos, por exemplo, da Ucrânia. É por isso que desejamos avançar, progredir, mas de forma cautelosa. É preciso manter a estabilidade a nível social."

Wikipedia
Os serviços secretos bielorrussos continuam a chamar-se KGB, como nos tempos da União Soviética. Ao contrário do que aconteceu noutras antigas Repúblicas Socialistas Soviéticas, as identidades dos antigos agentes nunca chegaram a ser conhecidas. O KGB bielorrusso possui delegações em todas as províncias. Wikipedia

Ksenia, a juventude pouco prudente

Uma forma prudente de encarar o futuro que não parece ser a da juventude bielorrussa. Falámos com Ksenia, no metropolitano da capital. É professora numa localidade a cerca de 100 quilómetros de Minsk.

Ksenia ganha cerca de 200 euros por mês. Um salário de sobrevivência. Para além de comprar madeira para se aquecer, com o que lhe resta, Ksenia é obrigada a comprar três jornais, próximos do Governo e que descreve como pura propaganda.

"Falam de políticas de ensino, sobre o Estado, sobre regras... sobre tudo. Nem sei. Mas nem os leio. São bons é para atear o lume", conta, enquanto acende a lareira.

Mas o pior e a pressão ideológica que Ksenia diz sofrer na escola:

Toda a gente tem medo, sabe? Todos os professores têm medo do diretor da escola. E o diretor tem medo dos gestores. É este ambiente... isto não é liberdade. Talvez para alguém mais velho, que viveu a vida toda na União Soviética, seja bom estar assim.

"Mas para os mais novos, é mortal. Não há progresso, não há independência nem futuro. Muita polícia, polícia por todos os lados."

Somilee, o rapper sem medo

Fomos depois até casa de Somilee, um jovem rapper bielorrusso. Conseguiu comprar a moradia onde vive com o dinheiro que ganhou no estrangeiro. Montou mesmo um estudio de gravação.

Recebeu, no ano passado, uma carta para pagar o dito "imposto parasita". O Estado considerou que estava desempregado. Uma situação bizarra que o levou a criar uma canção e um clip em pode ser visto a queimar o envelope enviado plas finanças.

"Vivo aqui, no campo, porque me sinto mais livre do que na cidade. Até agora, ainda não tive problemas com as autoridades. Digo o que me apetece. Mas pode ser que nao tenha problemas porque eles ainda não ouviram a minha musica," conta.

Se Ksenia e Somilee representam uma juventude cada vez mais crítica com o Governo bielorrusso, a verdade é que coexistem duas juventudes numa Bielorrússia dividida entre a herança soviética e a sede de liberdade.

Uma herança soviética

Depois da nossa conversa com a professora e o rapper, fomos até ao Fórum Regional Anual da União da Juventude Republicana Bielorrussa (BRSM), a principal organização do Estado.para a juventude.

Ficámos a conhecer Artsom, que venceu um dos prémios. Dirige a brigada de segurança da BSRM, organização para juventude que costuma ajudar a polícia.

Ao lado de Artsom, Ygor, de 21 anos. Dirige a unidade da juventude da assembleia de Minsk. Ambos integram um certo tipo de juventude, devota ao Estado, à patria e ao Governo, que não duvida em expressar uma fidelidade a toda a prova.

"O valor que mais prezo é o amor à pátria," conta Artsom. "O patriotismo. O sentimento patriótico. Aprendemos isso na escola. Quando estudamos."

"O país não perdeu o mais importante. O respeito pelo povo," diz Ygor.

"Há uma preocupação particular com cada cidadão. Com cada cidade. Com cada estrada. Por isso, quando se chega à Bielorrússia, encontra-seum país limpo, onde todos os cidadãos são tidos em conta, todos os dias. Talvez seja por isso que se sente esta estabilidade por aqui. E é por isso que tudo é muito organizado."

Belarus in Focus
A bandeira da Bielorrússia independente foi abolida em 1995 pelo presidente Alexandr Lukashenko, embora a população continue a usá-la, especialmente em dias como o 25 de março. Belarus in Focus

À procura de uma nova identidade

Do lado dos que querem outra identidade nacional, a identidade de Belarus, encontra-se Pavel Belavus, que abriu uma loja com as cores da antiga bandeira e onde podem ser comprados artigos com as cores tradicionais. Pavel acredita noutra Bielorrússia e foi um dos organizadores das celebrações do Dia da Liberdade.

"Temos jogos em bielorrusso. Literatura bielorrussa para adultos e crianças, incluíndo a da nossa Prémio Nobel, Svetlana Aleksievich. Há recordações, presentes, música. E tudo representa a Bielorrússia como deve ser."

A existência desta loja é vista como um sinal de abertura da parte do presidente Lukashenko. Mas de uma abertura com limites.

"Ainda que existam mudanças positivas e que não tenhamos sido presos por causa da loja, sei que, se sair daqui com uma destas bandeiras, a polícia vem atrás de mim e que vou ter problemas," explica Pavel.

"O poder tem duas caras. Por um lado, é permissivo. Por outro, é repressor. Por um lado, protege, por outro, bate. E vivemos nesta situação ambígua. Tentamos nem viver de um lado, nem do outro."

A Bielorrússia de relance

1918 - Proclamação de independência da República Nacional da Bielorrússia

1919 - A República Soviética Socialista da Bielorrússia é proclamada

1922 - A Bielorrússia torna-se num dos membros fundadores da URSS

1930 - O país é alvo das purgas de Estaline. Milhares de pessoas enviadas para a Sibéria

1941 - Invasão dos nazis, expulsos quatro anos depois pelo Exército Vermelho

1960 - Intensificação da política de russificação do país

1988 - Política de abertura no quadro da Perestroika

1990 - O bielorrusso torna-se língua oficial da República

1991 - Declaração de independência da União Soviética

1994- Alexander Lukashenko assume presidência e reforça laços com Rússia

2001- Reeleição de Lukashenko, eleições criticadas internacionalmente

2002 - Sanções de 14 membros da UE contra presidente

2010 - Novas eleições presidenciais. Lukashenko reeleito.

2011 - Morrem 15 pessoas em explosão do metro de Minsk

2017- Exercícios militares conjuntos com a Rússia