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Energia nuclear na União Europeia chegou a encruzilhada

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Energia nuclear na União Europeia chegou a encruzilhada

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REUTERS/Arnd Wiegmann
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Quando abriu as portas há 60 anos, com as suas nove esferas de ferro e vidro, o icónico Atomium de Bruxelas (Bélgica) simbolizava o entusiasmo com as novas possibilidades da ciência, incluindo o desenvolvimento da energia nuclear.

Point of view

"Dos 400 reatores nucleares em serviço em todo o mundo, três quartos são muito antigos e estão em fim de vida"

Stephane Lhomme Ativista antinuclear, França

"Seis décadas depois, a União Europeia depende da energia nuclear para colmatar mais de um quarto das suas necessidades de eletricidade", realça Nima Ghadakpour, correspondente da euronews em Bruxelas.

Portugal não usa este tipo de energia, mas 127 reatores estão espalhados por 14 países do bloco comunitário. A França tem o maior número: 58. Na Bélgica há apenas sete, mas o governo quer encerrá-los progressivamente e não é o único nessa viragem de paradigma.

"Em 1955, seis ministros dos Negócios Estrangeiros reuniram-se, em Messina (Itália) para refletir sobre o que fazer ao nível de segurança energética na Europa e uma das prioridades foi criar o Tratado Euratom, que levaria a uma aposta na energia atómica como central para o desenvolvimento económico da Europa. Já na altura diziam que não podia haver desenvolvimento da comunidade europeia sem energia abundante e barata e hoje passa-se o mesmo", explicou, à euronews, Samuel Furfari, especialista em energia e professor na Universidade Livre de Bruxelas.

Em março de 2018, o governo belga aprovou um novo pacote energético que visa acabar com a utilização das centrais nucleares nos próximos sete anos, optando por consumir mais gás. Um processo complexo e caro para realizar num curto espaço de tempo.

"A Bélgica não está pronta para essa transição, neste momento, mas estamos a preparar-nos muito ativamente desde que ocupei o cargo e estabeleci essa prioridade. Já criámos uma série de legislação e temos um calendário muito rigoroso para implementar os novos sistemas de fornecimento de gás no momento em que abandonemos as centrais nucleares. De 2022 a 2023, vamos encerrar duas centrais que estão a atingir os 40 anos. Em 2025 contamos erradicar todas as outras do nosso sistema energético", afirmou, à euronews, Marie-Christine Marghem, ministra federal da Energia da Bélgica.

Alguns especialistas alertaram quanto aos riscos de acidente em algumas das centrais mais antigas e há organizações ambientalistas muito ativas sobre os riscos para as populações que vivem na vizinhança destas infra-estruturas.

Recentemente, o governo belga aconselhou os residentes a irem às farmácias levantar, gratuitamente, comprimidos de iodo que devem ser usados em caso de acidente que leve a fuga de radiação.

"Dos 400 reatores em serviço em todo o mundo, três quartos são muito antigos e estão em fim de vida. Logo, independentemente das convicções de cada um sobre a necessidade de encontrar alternativas, a verdade é que a maioria desses reatores vai ser encerrada. Isso já está a acontecer nos Estados Unidos e no Japão. No segundo caso, com o desastre em Fukushima, tornou-se um processo irreversível", referiu Stephane Lhomme, ativista antinuclear.

Desde o acordo sobe as alterações climáticas, em 2015, que a União Europeia prometeu liderar a transição para uma capacidade energética centrada nas fontes renováveis, menos poluentes.

Até 2020, essas fontes devem providenciar 20% da energia, sendo que em 2016 já se cifra nos 17%, a nível do bloco como um todo.

A Bélgica já ultrapassa os 8%, sendo a sua meta de 13% em 2020. Suécia, Hungria e Lituânia são países que já ultrapassaram a quota estabelecida.

Mas a indústria nuclear não baixou os braços na Europa. Cinco países estão a construir novas centrais e uma dezena de outros têm planos para expansão, desde o Reino Unido à Finlândia, passando por países no centro e no leste europeu.

A federação europeia desta indústria (FIRATOM) garante que o nuclear é uma energia de futuro.

"A energia nuclear fornece eletricidade limpa, além de proporcionar segurança de fornecimento à União Europeia, tornando-a menos dependente de combustíveis fósseis importados, que emitem gases poluentes. A abordagem deve passar pela combinação de todas as tecnologias disponíveis hoje em dia para assegurar a estabilidade do mercado", argumentou Berta Picamal, conselheira no FORATOM.