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Níger - a primeira barreira da UE contra a imigração ilegal

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Níger - a primeira barreira da UE contra a imigração ilegal

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Desde a queda do regime líbio, já lá vão mais de 6 anos, que o Nïger se tornou numa autoestrada para o tráfico humano. Migrantes que vêm dos países subsarianos e da África ocidental, e que tentam chegar à costa do Mediterrâneo. No entanto, muitas destas pessoas estão a voltar para trás depois de passarem por aquilo que dizem ser um inferno.

Encont´rámos algumas no terminal rodoviário de Niamey, capital do Níger, que relataram o que viveram na Líbia.

Um migrante liberiano diz que a experiência que viveu na cidade de Benghazi foi muito dura. Conta que os líbios pegam nos migrantes africanos, metem-nos em casas e exigem o pagamento de cerca de 300 euros. Depois levam-nos para um barco para atravessar o Mediterrâneo e quando o barco está cheio, prendem os migrantes, levam-nos para outro local, batem-lhes e obrigam-nos a trabalhar em quintas.

Um outro migrante, da Guiné-Conacri, garante que os líbios, são selvagens e que só se salvou com a ajuda de Deus. Revela que viu muitos camaradas e amigos serem mortos à sua frente, que o levaram para uma casa e lhe batiam todos os dias. E quando ligava para a familia era pior, porque lhe batiam para que os familiares o ouvissem gritar e assim ficarem mais "motivados" para enviar dinheiro. Garante ainda que muitos migrantes morreram e muitos outros ficaram traumatizados pelas torturas.

A rota dos migrantes no regresso aos países de origem passa por Agadez. Viajam de autocarro para aquela cidade no norte do Níger e daí para Niamey onde a Organização Internacional para as Migrações arranja transporte gratuito que os leva para os respetivos países.

São dois dias de viagem entre Agadez e Niamey que os migrantes levam dois dias a percorrer.

O tráfico humano tornou-se numa ameaça séria à estabilidade do Níger. Os traficantes aliaram-se a bandidos e jihadistas e tentam controlar este país estratégico da região que serve de ponte entre a Líbia, o Mali e a Nigéria.

O ministro da defesa do Níger admite que há compatriotas seu a serem explorados por traficantes e vendidos em vários cantos do mundo e garante que são os mesmos traficantes que estão por trás do tráfico de armas na região.

É cada vez mais díficil aos migrantes chegar ao Mediterrâneo através da Líbia. Se tiverem sorte, são detidos pelo exército do Níger e enviados de volta aos países de origem, caso contrário é quase certo que são capturados pelos grupos criminosos na Líbia.

O Níger tornou-se num quase "polícia" da região depois de ter feito um acordo com a União Europeia. Um acordo que alguma sociedade civil do pa´ís encara como uma espécie de colonialismo.

O sociólogo Souley Adji lembra que, depois deste acordo, o Níger colocou os militares a bloquear o acesso ao norte do país, em direção à Líbia e à Argélia. O que para este professor universitário é uma política de mercenário: "Nós damos-te dinheiro e vocês fazem isso".

Mas a população do Níger está a ficar descontente pela diminuição do número de migrantes a passar pelo país. Isto porque a economia local já começou a ressentir-se.

O embaixador da União Europeia no Níger, o português Raúl Mateus Paula, diz que o tráfico humano diminuiu mas ainda não terminou. Recorda que o Níger adotou medidas de segurança, prendeu traficantes, arrestou veículos, e que tudo isto foi conjugado com apoios ao desenvolvimento para dar outras perspetivas de vida às pessoas que viviam da economia paralela do tráfico.

A União Europeia ajuda o Níger com 230 milhões de euros através do Fundo para a África e outros quase 600 milhões de euros através do Fundo Europeu de Desenvolvimento. Bruxelas financia ainda cinco centros da Organização Internacional para as Migrações no país que ajuda os migrantes a regressar aos países de origem ou a obter asilo.