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Não há correlação entre refugiados e antissemitismo

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Não há correlação entre refugiados e antissemitismo

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O antissemitismo está a aumentar na Europa. De quem é a culpa? Dos neonazis? Dos refugiados muçulmanos? Será que a Europa é o novo palco do conflito israelo-palestiniano?

A euronews falou com Nonna Mayer, investigadora do CNRS, em França, e especialista em estudos europeus e política comparada.

euronews: Por que razão observamos, hoje, em França e na Alemanha, um aumento dos atos violentos contra a minoria judaica?"

Nonna Mayer: "Não é algo recente. O aumento da violência antissemita na Europa começou no ano 2000, com a segunda Intifada. Até então, os atos antissemitas tinham descido para níveis residuais. O conflito israelo-palestiniano teve um impacto. Chegou a haver registo de mil atos e ameaças em toda a França depois das operações israelitas. Efetivamente, em 2017, registou-se um aumento deste tipo de violência. Estamos num contexto de tensões identitárias, da subida da direita radical e populista, da extrema-direita. E, sobretudo, as redes sociais inflamam o debate. Tudo isso propicia um aumento da violência, não só em relação aos judeus, mas, também em relação aos homossexuais, aos ciganos e às muçulmanas que usam véu. O contexto atual incita à violência."

euronews: "Fala-se de uma correlação entre a chegada à Alemanha de refugiados vindos dos países em guerra contra Israel e o aumento do antissemitismo. É algo que pôde observar durante as suas investigações?"

Nonna Mayer: "Existem atos isolados, mas, não houve um aumento da violência desde então. Fizemos uma investigação em cinco países europeus. As comunidades judaicas têm medo que haja um sentimento de antissemitismo entre os refugiados vindos de países hostis a Israel. Mas, no caso da Alemanha, por exemplo, vemos que o aumento dos atos violentos, em 2017, está associado, em 92% dos casos, a pessoas da extrema-direita. As coisas são mais complexas do que parecem. Digamos que o receio existe mas, por agora, o laço entre as duas coisas não está provado".

euronews: "Como é a situação no resto da Europa, em Inglaterra ou na Bélgica, para citar dois países vizinhos?

Nonna Mayer: "Regista-se em todo o lado um aumento das agressões antissemitas desde 2000, o ano da segunda Intifada, com picos de violência que correspondem às operações israelitas nos territórios ocupados".

A Intifada na Europa?

euronews: "Então a Intifada desenrola-se também na Europa"

Nonna Mayer: "Sim. Há também o terrorismo islâmico, a Al-Qaida e o Estado Islâmico. Mas há também um aspeto de que ainda não falámos, o antissemitismo do quotidiano, como os insultos. São coisas que não fazem necessariamente objeto de queixa à polícia mas que são dolorosas e que destroem a vida das pessoas judias".

euronews: "Falemos da Europa de Leste onde o antissemitismo tem uma história diferente".

Nonna Mayer: "De certo modo, o comunismo levou ao gelo dessas atitudes que existiam nos anos 30. Não houve um momento de consciencialização, um trabalho de memória que foi feito nas democracias ocidentais. Por outro lado, há um aumento dos populismos de extrema-direita nesses países e o judeu é o bode expiatório ideal. Temos o exemplo do George Soros na Hungria e do revisionismo histórico na Polónia".

euronews: "Os judeus são a minoria mais ameaçada na Europa?"

Nonna Mayer: Tendo em conta que há poucos judeus na Europa, a maior comunidade, 500 mil pessoas está na França, o que representa 0,6% da população, em termos proporcionais trata-se da minoria em relação à qual há mais queixas na polícia sendo que nem toda a gente apresenta queixa.

euronews: "Os judeus são a minoria mais estigmatizada na Europa?"

Nonna Mayer: "Não. A minoria mais estigmatizada na Europa são os ciganos".