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Irão diz que Europeus terão de fazer escolhas

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Irão diz que Europeus terão de fazer escolhas

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Ninguém podia ter imaginado que o terceiro aniversário do acordo nuclear iraniano marcaria também o seu possível fim. Os Estados Unidos retiraram-se do acordo por decisão de Donald Trump. A União Europeia, a China e a Rússia declararam que permaneceriam signatárias do acordo assinado em 2015. Mas será que esse esforço é suficiente para mantê-lo em vigor? A euronews entrevistou o Ministro dos Negócios Estrangeiros Iraniano, Mohammad Javad Zarif, em Teerão. Entre outras coisas, o responsável iraniano afirmou que os europeus devem afastar-se da linha seguida por Trump e investir no Irão. A entrevista foi conduzida pelo jornalista iraniano Saeid Jafari, em inglês.

euronews: "Depois de os Estados Unidos se terem retirado do acordo, parece não estar muito satisfeito com as negociações com a União Europeia?"

Mohammad Javad Zarif: "O pacote que nos foi oferecido não é satisfatório. Estamos neste preciso momento a trabalhar com os europeus. Vamos ver quais são as possibilidades. Estamos a dar-lhes tempo. Os europeus parecem dispostos a assumir um compromisso político. Foram implementadas algumas medidas técnicas, mas, não é suficiente. Há dois calendários específicos. O primeiro é o da primeira vaga de sanções norte-americanas, em agosto. O outro é a segunda vaga de sanções em novembro. Vamos ver como a Europa lida com isso e responderemos em função dos acontecimentos. Temos um plano estratégico".

euronews: "De que tipo de garantias precisam?"

Mohammad Javad Zarif: "Sob pressão dos Estados Unidos e sob influência da atmosfera psicológica que os Estados Unidos tentaram criar, algumas empresas europeias começaram a retirar-se do Irão. Os europeus têm de agir em relação a essa situação se quiserem preservar o acordo. Se for esse o entendimento dos europeus, eles terão de investir. Queremos ver bancos, abertura de contas, pequenas e médias empresas a virem para o Irão e a fazerem investimentos com os parceiros no setor privado".

euronews: "Como é que a União Europeia e os países Europeus podem resolver este problema?"

Mohammad Javad Zarif: "Eles terão de decidir se podem continuar a viver num novo sistema global em que um país toma a decisão final e todos os outros obedecem. Às vezes, nem se trata de um país, mas de um grupo de pessoas que tomam decisões baseadas nos seus interesses pessoais. Como vimos recentemente, depois do encontro entre Trump e Putin, ouviram-se várias vozes preocupadas, nos Estados Unidos, dizendo que o presidente dos Estados Unidos não trabalha em prol do interesse nacional dos norte-americanos. Mesmo que se trate do interesse nacional norte-americano, será que o povo europeu aceita que os interesses dos Estados Unidos dominem o processo de decisão na economia global? Os europeus estão dispostos a aceitá-lo ou vão opor-se a essa situação? É uma questão que as empresas europeias devem colocar-se, tal como os governos europeus. Há várias possibilidades de cooperação. Na Europa, não há apenas companhias com acionistas americanos. Há muitas empresas europeias que não estão ligadas aos Estados Unidos".

Irão acusa Trump de ajudar Daesh

euronews: "Putin e Trump encontraram-se na Finlândia e segundo as últimas notícias chegaram a uma espécie de acordo sobre a Síria. É uma questão que o preocupa?"

Mohammad Javad Zarif: "O Irão e a Rússia ajudaram o povo sírio e vão continuar a fazê-lo enquanto for necessário mas no final a decisão cabe aos sírios. Temos uma boa comunicação e estamos bem coordenados com a Rússia e com o governo sírio e vamos continuar nessa linha. O nosso objetivo é muito claro, é o mesmo objetivo da Federação Russa : lutar contra o terrorismo e contra o extremismo. E neste ponto, o presidente Trump deve assumir as suas responsabilidades porque os Estados Unidos e os seus aliados têm vindo a apoiar o Daesh. A existência de armas americanas nas mãos do Daesh e de outras organizações extremistas é um facto documentado por fontes ocidentais".

euronews: "Foi noticiado que o ministro da Energia da Rússia disse estar pronto para dar mercadorias ao Irão em troca de petróleo iraniano".

Mohammad Javad Zarif: "Isso faz parte de um pacote mais vasto no domínio da cooperação entre o Irão e a Rússia, que inclui várias medidas e investimentos da Rússia no setor energético do Irão, a participação da Rússia no setor das infraestruturas iranianas e acordos entre o Irão e a Rússia no domínio do petróleo e do comércio. É um grande pacote de medidas no domínio da cooperação com a Rússia mas não acreditamos que vamos dar petróleo em troca de bens e mercadorias. É um grande pacote de medidas que inclui várias coisas, incluindo a cooperação energética entre o Irão e a Rússia e também a possibilidade de o Irão receber liquidez."

euronews: "O Irão disse, várias vezes, que o fim do acordo nuclear pode ter consequências graves e perigosas para a segurança da região. Qual é a sua opinião?"

Mohammad Javad Zarif: "Mais do que do Irão, essa é a conclusão da Europa. Eles acreditam que o acordo é um documento importante de não-proliferação das armas nucleares e que sem ele haverá mais possibilidades de tensão na região. Da nossa parte, sempre acreditámos que a segurança depende do nosso povo. A nossa segurança vem do interior e não do exterior. Já mostrámos que o nosso povo resistirá às agressões. Não aceitaremos que ninguém intimide ou humilhe o Irão, ou pior, que tente invadir-nos ou por em causa a nossa segurança e integridade territorial. Ajudámos todos os que estiveram sob ameaça na região. Os nossos amigos e vizinho sempre sentiram que não são ameaçados pelo Irão. Alguns podem ter feito propaganda por razões de política interna ou regional mas não ganharam muito com isso. Acredito que a melhor forma de lidar com estas questões, para a região do Golfo Pérsico, é através do diálogo regional, o que asseguraria a segurança de todos os países na nossa vizinhança".