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Capacete de um soldado furado por um tiro numa rua de Kiev
Capacete de um soldado furado por um tiro numa rua de Kiev   -   Direitos de autor  AP Photo/Efrem Lukatsky   -  

Guerra na Ucrânia, Dia 3: Estados Unidos enviam armas para o combate à invasão russa

Ao terceiro dia da invasão russa da Ucrânia, as forças afetas ao Kremlin já levam dois a tentar tomar a capital Kiev, mas parecem estar a ser travadas por uma forte resistência dos militares ucranianos e das milícias civis da cidade, que continuam a lutar contra a agressão ordenada na madrugada de quinta-feira por Vladimir Putin.

Os Estados Unidos vão contribuir para o pacote de armamento a enviar por alguns países europeus para a Ucrânia. A ajuda vai incluir armas antitanques, armas ligeiras, armaduras de proteção e diversas munições, anunciou o Departamento de Defesa norte-americano, falando de um reforço adicional de 350 milhões de dólares autorizado pelo Presidente Joe Biden.

A Força Aérea do Brasil tem dois aviões KC-390 Millenium prontos para uma possível operação de resgate de cidadãos brasileiros retidos na Ucrânia.

"As aeronaves são do mesmo modelo das utilizadas noutras missões humanitárias internacionais", explicou a FAB, sem revelar detalhes da operação que estará a ser preparada.

Na sexta-feira, a embaixada brasileira na Ucrânia já tinha anunciado ter arranjado acesso a um comboio de Kiev para Chernivtsi, no ocidente do país sob invasão russa.

As forças russas adiantaram a destruição de uma importante barragem ucraniana, na região de Kherson, na boca do rio Dniepre, e admitiram ter havido um ciberataque para neutralizar o portal da Roscosmos, a agência espacial russa.

"O ataque DDoS ao portal da Rscosmos partiu de Lviv e envolveu uma rede de bots sediada em servidores de vrios países", informou a Roscosmos, garantindo que os técnicos conseguiram identificar o "pirata".

A rede social Twitter informou que está a par de algumas estarem a "sofrer restrições de acesso" a plataforma e garante estar "a trabalhar para manter a rede segura e acessível".

Na sexta-feira, a Rússia já havia restringido o acesso à Facebook, acusando a rede social de estar a servir de apoio a organizações anti-Kremlin. "Cidadãos russos comuns estão a usar a nossa aplicação para se exprimirem e para organizar atividades. Queremos que continuem a fazer-se ouvir", afirmou o vide-presidente do Facebook, Nick Clegg.

A Alemanha levantou um embargo que tinha a armas letais para a Ucrânia para permitir o envio dos Países Baixos cerca de 400 lançadores de granadas, os populares RPG em cenários de guerra.

A decisão germânica está a ser entendida como uma mudança de grande impacto na estratégia de assistência europeia à Ucrânia.

O primeiro-ministro do Reino Unido revelou ter falado ao telefone com o homólogo neerlandês. Boris Johnson disse ter agradecido a Mark Rutte "a forte cooperação no assegurar do fornecimento de ajuda de defesa à Ucrânia".

O líder britânico disse ainda ter falado com o neerlandês sobre o SWIFT "e a necessidade de ação urgente para excluir a Rússia" deste sistema bancário de pagamento, medida que pode ter repercussões em alguns países da União Europeia e que por isso está a ter alguma resistência à aplicação.

França, Itália, Grécia, Chipre e Hungria também se mostram favoráveis à exclusão da Rússia do sistema Swift.

O presidente da Ucrânia disse ter falado com o primeiro-ministro dos Países Baixos, Mark Rutte, a quem agradeceu a ajuda. "A coligação anti-guerra está a funcionar", escreveu Zelenskyy.

Resposta russa às sanções

A Rússia anuncia entretanto respostas às sanções ocidentais. O presidente adjunto do Conselho de segurança russo, Dmitry Medvedev, admite que a Rússia pode nacionalizar bens de pessoas registadas nos Estados Unidos, na união Europeia e noutras jurisdições agora inimigas do Kremlin.

Dmitry Peskov, o porta-voz do Kremlin, reforçou que a Rússia será capaz de mitigar os danos provocados pelas sanções ocidentais.

O Kremlin está também analisar os passos a dar na sequência da expulsão da Rússia do Conselho da Europa, revelou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros. "Os que iniciaram e apoiaram esta decisão errónea vão ter de aguentar a total responsabilidade pelo colapso do espaço comum legal e humanitário no continente", lê-se no comunicado de Maria Zakharova.

A Rússia anunciou o fecho do espaço aéreo às companhias aéreas da Roménia "devido a decisões pouco amigáveis das autoridades de aviação romenas", anunciou a Rosaviatsiya.

Por outro lado, a Lituânia também decidiu fechar o respetivo espaço aéreo a companhias russas a partir deste sábado à noite, devido à invasão e bloqueando assim o acesso do enclave russo de Kalinegrado à Ucrânia.

A Ucrânia decidiu, entretanto, alargar a todo o fim de semana o recolher obrigatório noturno já em vigor em Kyiv, estando a medida agora em curso até às 08 horas da manhã desta segunda-feira (menos duas horas em Lisboa).

O ministro do Interior da Polónia estima que pelo menos 115 mil pessoas já atravessaram a fronteira, oriundas da Ucrânia, desde o início da invasão russa.

Um número que o Alto Representante das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi, diz já ultrapassar as 150 mil, mas incluindo também a Hungria, a Moldávia e a Roménia.

As seleções da Polónia e da Suécia já se mostraram indisponíveis em defrontar a Rússia nos jogos de apuramento do "playoff" para o Mundial 2022. Os polacos têm o duelo com os russos marcado para o final de março e os suecos, de acordo com o sorteio, podem encontrar os russos depois no jogo decisivo.

O Manchester United e o Watford posaram esta tarde com um cartaz a pedir "Paz" em seis idiomas diferentes antes de se enfrentarem em mais uma jornada da Liga inglesa de futebol. O desporto têm-se associado aos apelos para o fim da guerra e algumas organizações, como a UEFA, já tomaram decisões a penalizar a Rússia.

Com a agência russa TASS a noticiar o avanço das tropas russas na capital ucraniana, devido à alegada rejeição ucraniana de negociar, o Presidente da Ucrânia afirmou que a Turquia vai impor um bloqueio à entrada de navios militares russos no Mar Negro.

Volodymyr Zelenskyy tem estado muito ativo nas redes sociais, ora com publicações escritas ora com vídeos de locais emblemáticos de Kiev, e na referida publicação agradeceu ainda a ajuda humanitária que lhe terá sido também garantida pelo homólogo Recep Tayyp Erdogan.

Do lado turco, não houve qualquer confirmação dessas garantis de apoio referida por Zelenskyy. Apenas foi confirmado que ambos os presidentes falaram por telefone "sobre a intervenção militar russa e os últimos desenvolvimentos".

A Rússia também disse não ter recebido qualquer indicação turca sobre alterações no acesso naval ao Mar Negro.

Antes de revelar a conversa com Erdogan, o chefe do Estado ucraniano revelou ter falado também com o primeiro-ministro Narenda Modi, da Índia, um dos três países que se absteviram na votação da condenação nas Nações Unidas da invasão russa da Ucrânia.

"Apelei à Índia para nos conceder apoio político no Conselho de Segurança da ONU. Parem a agressão juntos", apelou Zelenskyy, estimando haver "100 mil invasores" no território ucraniano "a disparar insidiosamente sobre edifícios residenciais".

O primeiro-ministro Modi comprometeu-se em "contribuir para os esforços de paz" na Ucrânia.

Na linha de mensagens do presidente ucraniano há também uma garantia de que o primeiro-ministro de Itália irá apoiar o corte da Rússia do sistema bancário SWIFT, que permite, por exemplo, à Alemanha pagara diariamente à Rússia pelo fornecimento de gás e petróleo existente entre ambos.

"A Ucrânia tem de fazer parte da União Europeia", reiterou Zelenskyy na mesma mensagem onde falou da conversa mantida com Mario Draghi.

Do lado russo, entretanto, foi anunciada a rejeição da Ucrânia em negociar, já confirmada em Kiev alegando as condições irredutíveis apresentadas pelo Kremlin e que deverão manter-se no reconhecimento da anexação russa da Crimeia, na desmilitarização e na rejeição da desejada adesão à NATO.

Em resposta, o Kremlin disse ter dado ordem para novo avanço da ofensiva no cerco a Kiev, o que o Reino Unido assegurou estar a ser retardado, sim, mas por dificuldades logísticas das forças fiéis a Putin e à forte resistência ucraniana.

A NATO, entretanto, partilhou uma publicação do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia a explicar que "a agressão russa começou com a Crimeia há oito anos". "Agora enfrentamos uma guerra de grande escala lançada pela Rússia por terra, mar e ar", lê-se numa publicação onde os ucranianos garantem estar a lutar "não só pela Ucrânia, mas por toda Europa democrática e amante da liberdade".

A luta à desinformação

Já depois de a Rússia ter ficado ainda mais isolada na assembleia-geral das Nações Unidas, onde vetou unilateralmente a condenação da invasão à Ucrânia, o Presidente da Ucrânia, que têm estado a difundir regularmente mensagens de vídeo em Kiev, mostrou-se otimista num triunfo da resistência ucraniana sobre a ofensiva russa.

Para contra-atacar a desinformação, que tem sido uma das principais armas do Kremlin nesta invasão, o chefe do Estado ucraniano tem desmentido os relatos de que teria deixado Kiev, mostra-se diante de edifícios emblemáticos da capital e tenta inspirar os compatriotas a manterem a defesa do "coração" da Ucrânia.

A resistência

Como se tem ouvido em diversas reportagens internacionais realizadas a partir de várias cidades da Ucrânia, as mensagens do Presidente Volodymyr Zelenskyy parecem estar a manter em alta a motivação de muitos ucranianos em continuar a luta pela liberdade da Ucrânia perante a Rússia.

As enviadas especiais da Euronews a Kiev, Sasha Vakulina e Valérie Gauriat, estão a acompanhar os desenvolvimentos deste cerco russo à capital em diferentes zonas. Sasha foi acordada esta manhã pela explosão do impacto de um míssil num edifício residencial perto da aeroporto Giuliani.

Valérie esteve no metro, a ouvir os lamentos de quem ficou na cidade e ali se abriga dos bombardeamentos russos sobre o "coração" da Ucrânia, a capital.

Um cidadão português que conseguiu viajar de Kiev para Poltava contava esta manhã à estação de televisão portuguesa SIC, através de videochamada, que em muitos ucranianos que se assumiam opositores de Zelensky sentia agora uma admiração pelo chefe do Estado e um patriotismo reforçado.

Este português revela-se, no entanto, preocupado com o apelo a civis para pegarem em armas e lutarem ao lados militares, receando uma resistência desorganizada que podia virar-se contra a Ucrânia.

O balanço de vítimas

O Ministério da Saúde ucraniano anunciou esta manhã a morte de pelo menos 198 ucranianos desde o início da invasão russa, incluindo três crianças. Tendo sido ainda relatados pelo menos 1.115 feridos, incluindo 33 crianças. Não foi possível verificar se as vítimas seriam apenas civis ou também militares.

Imagens do impacto de projéteis balísticos a atingir edifícios residenciais nas zonas limítrofes de Kiev tem estado a ser difundidos e partilhadas em diversas redes sociais e grupos de ucranianos na internet.

Algumas imagens carecem de verificação, mas outras têm estado a ser confirmadas por diversas agências internacionais.

As imagens de edifícios residências destruídas também se sucedem. As zonas limítrofes por onde as forças afetas ao Kremlin avançam estão a tornar-se em autênticos cenários de guerra urbana, com a resistência a levantar barricadas para tentar travar os veículos blindados russos.

O mesmo Ministério da Saúde ucraniano alega terem sido mortos pelo menos 3.500 soldados russos e que pelo menos 200 foram feitos prisioneiros. Adianta ainda a destruição de 14 aviões, oito helicópteros, 102 tanques e 536 veículos blindados das forças afetas a Vladimi Putin.

O balanço de vítimas e danos avançado pelo ministério ucraniano não pode ser verificado de forma imparcial pela Euronews, mas é o único balanço existente da invasão russa da Ucrânia.

Do lado russo não são anunciados quaisquer números de baixas.

As reportagens internacionais em Kiev

Os jornalistas internacionais a trabalhar em Kiev mantêm-se numa zona por agora ainda salvo dos projéteis balísticos e dos referidos combates de rua, e vão reportando como os civis se vão tentando manter protegidos da invasão russa, nas garagens de hotéis, nas estações de metro e em caves de edifícios residenciais.

Nas ruas desta zona central não se vê quase ninguém e são poucos ou nenhuns os veículos em circulação.

Parte da comunidade internacional está a tentar enviar armas para ajudar a resistência ucraniana. Os países da União Europeia vizinhos da Ucrânia estão a montar operações de acolhimento e assistência a quem está a cruzar as fronteiras, em fuga da guerra.

A Polónia e a Roménia, dois desses países vizinhos da Ucrânia membros da UE e também membros da NATO, estão a ser recomendados como os destinos preferenciais para quem tenta fugir da guerra.

Nas fronteiras ucranianas com a União Europeia há no entanto outro drama a acontecer. Devido à Lei Marcial e à mobilização geral decretadas pelo Presidente após a invasão russa, todos os homens entre 18 e 60 anos que apresentem condições físicas para lutar estão a ser impedidos de sair do país o obrigados a entrar na guerra.

Esta situação está a separar muitas famílias ucranianas e há até um futebolista brasileiro que se naturalizou ucraniano há cerca de uma década em risco de ser mobilizado para os combates.