Biblioteca Nacional do Qatar dá formação para prevenir contrabando de documentos antigos

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Biblioteca Nacional do Qatar dá formação para prevenir contrabando de documentos antigos
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A Biblioteca Nacional do Qatar desempenha um papel essencial na estratégia do país para tornar-se numa economia baseada no conhecimento.

Concebida pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas, a Biblioteca Nacional do Qatar (BNQ) foi inaugurada em 2018.

"Quando entramos, os nossos olhos podem alcançar a maior parte das secções da biblioteca. O espaço foi concebido para ter vários níveis elevados, para dar a sensação de que, com a leitura, com a aprendizagem, a nossa alma pode elevar-se, a consciência pode elevar-se", afirmou Hind Al Khulaifi, diretora de Planeamento Estratégico e Projetos da BNQ.

Além de livros, o edifício integra salas de estudo, estações de inovação e espaços sensoriais. "Queremos que as pessoas coloquem perguntas, investiguem, descubram coisas novas e estimulem a sua curiosidade através do acesso a uma quantidade abundante de recursos sobre diferentes temas", acrescentou a responsável.

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Biblioteca Nacional do Qatareuronews

A divulgação da história do mundo árabe

A instituição integra um espaço chamado Biblioteca do Património que reúne um acervo de mapas, manuscritos e fotografias que documentam a história da região.

"A exposição centra-se não só na história árabe, mas também na história islâmica, em geral, na civilização islâmica. Conta a forma como os manuscritos viajavam de uma área para outra área, até às pessoas começarem a partilhar conhecimentos", afirmou Ikhlas Ahmed, responsável de Turismo e Exposições, da Biblioteca Nacional do Qatar.

O estudo e divulgação de documentos históricos da região árabe é uma das prioridades da instituição.

"É muito importante ler a história da região a partir de outras perspetivas, conhecer o historial dos viajantes, porque eles foram pioneiros, desde o século XV e XVI. Vieram para a região com objetivos diferentes. Graças aos seus diários, podemos saber o que se passava nessa época", acrescentou o responsável.

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A missão de conservação de documentos antigos da BNQeuronews

A descrição do Egito de Napoleão Bonaparte

A BNQ possui um volume da segunda edição da descrição do Egito de Napoleão Bonaparte.

"É considerado como a primeira ilustração do Egipto naquela época. Muitos cientistas, historiadores, estudiosos documentaram as coisas que se passaram durante essa expedição. É um dos recursos primários mais importantes para saber como se vivia nessa época, a partir de diferentes perspectivas", disse Ikhlas Ahmed.

O esforço de digitalização

Um dos objetivos da BNQ é digitalizar os materiais antigos, e preservá-los para as gerações futuras. Os especialistas da instituição podem converter entre 2000 e 2500 páginas por dia.

"Começámos em 2015. Até agora tratámos mais de 14 milhões de páginas entre livros, manuscritos, publicações periódicas, cartazes, mapas, fotografias e muito mais. Estamos a concentrar-nos na língua árabe. Estamos a tentar enriquecer os conteúdos em árabe e colocá-los online para os investigadores, os educadores e os utilizadores em geral. Qualquer pessoa, de qualquer sítio, a qualquer hora, pode aceder à coleção", frisou Hany A Elsawy Abdellatifi, Chefe dos Serviços de Digitalização, da Biblioteca Nacional do Qatar

Documentos podem ser consultados online

Em 2021, mais de dois milhões e quinhentas mil pessoas utilizaram recursos electrónicos da biblioteca.

"Isto mostra claramente que o material patrimonial, quando é colocado online, e fica acessível a toda a gente possui um grande potencial. É algo que interessa a muitas pessoas, não só do país, mas da região e de todo o mundo. Recebemos visitas online de todo o mundo", frisou Marcin Werla, Diretor de Conteúdo e Envolvimento Digital da Biblioteca Nacional do Qatar.

Para além da digitalização da nossa própria colecção, estamos também a trabalhar com diferentes parceiros, por exemplo, temos uma parceria com a Biblioteca Britânica para digitalizar materiais sobre o Golfo e colocá-los nos arquivos para que todas as pessoas do mundo possam aceder a esses documentos. É uma parte muito importante do nosso papel como guardião do património documental da região e do Qatar" resumiu Tan Huism, Diretora Executiva da Biblioteca Nacional do Qatar.

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A BNQ abriu a primeira instalação de desacidificação em massa na regiãoeuronews

Tecnologias de ponta ajudam a preservar documentos

O Centro Regional de Preservação e Conservação tem como missão ajudar a proteger livros e manuscritos oriundos de toda a região árabe. Um objetivo que passa pela formação e pelo aconselhamento técnico.

"Existem milhões de manuscritos árabes e islâmicos na região, e não existem meios suficientes para os preservar e conservar. Não podemos salvar todo o património, sozinhos, mas podemos formar pessoas. Assim, temos aqui um departamento de assistência técnica onde damos formação, aconselhamento técnico, recebemos pessoas para formação, sobre todos os problemas de conservação e preservação, quer seja em manuscritos, em jornais, em mapas. Podemos fornecer o chamado desenvolvimento de capacidades para ajudar as pessoas a cuidar melhor das coleções", disse à euronews Stéphane Iper, um dos diretores da BNQ.

Para garantir a preservação do espólio a equipa recorre a um conjunto de tecnologias que permitem monitorizar pârametros fundamentais como a temperatura e a humidade.

Temos um sistema de monitorização da temperatura e da humidade que funciona de forma remota através de uma rede Wi-Fi. Basta olhar para o computador, e podemos verificar a temperatura e a humidade nas áreas de armazenamento e na exposição. Se tivermos objectos emprestados, este sistema permite-nos ligar a qualquer rede Wi-Fi no mundo e monitorizamo-los remotamente a partir dos nossos computadores e dos nossos smartphones", explicou Fareed Al Shishani, Tecnico de Conservação da BNQ.

Em 2022, a BNQ abriu a primeira central de desacidificação em massa na região. Livros ou jornais produzidos depois de 1850 têm mais problemas do que manuscritos mais antigos, porque, frequentmente, são feitos de matérias mais ácidas.

"Esta instalação de desacidificação utiliza um material chamado óxido de magnésio que está suspenso numa solução. O que torna o sistema especial, é que ele trata os materiais em massa para não tratarmos apenas um objeto ou alguns objetos. Podemos tratar até cerca de 50 artigos por dia. Quando terminamos o tratamento, colocamos os objetos nos secadores, para retirar o líquido utilizado que fica nos materiais. E depois volta a ser colocado no sistema para ser reciclado. Deste modo, o sistema é rentável, amigo do ambiente", considerou Fareed Al Shishani.

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O combate ao roubo e contrabando de documentos antigos

O tráfico de documentos históricos e outros materiais de arquivo tem vindo a aumentar na região do Médio Oriente e Norte de África devido ao número de países em conflito e de convulsões sociais. 

"Financiámos a viagem de peritos iemenitas para que pudessem encontrar peritos internacionais, polícias e responsáveis das alfândegas, que podem não ter a oportunidade de se deslocar ao Iémen atualmente. A formação permite explicar os procedimentos e o quadro jurídico, porque é preciso compreender o quadro jurídico para enfrentar o tráfico", salientou Stéphane Iper.

"Manter a memória do mundo islâmico"

"É preciso explicar o processo de restituição. Em conjunto com departamentos de tecnologias da informação da Fundação Qatar desenvolvemos uma unidade que monitoriza dia e noite as redes sociais para tentar identificar publicações ligadas ao tráfico. Todas as manhãs, os nossos peritos recebem listas de publicações e verificam se se trata de uma venda legítima ou se pode estar relacionada com o contrabando, e compara-a com bases de dados de bibliotecas. Representa muito trabalho, mas, é muito importante manter a memória do mundo islâmico", explicou Stéphane Ipert.

Os criminosos recorrem a formas cada vez mais elaboradas para roubar e vender documentos históricos ilegalmente.

"Os manuscritos são bastante pequenos em comparação com uma peça arqueológica. Viaja mais facilmente, é fácil exportá-los, ilegalmente, e vendê-los nos mercados europeus. Desenvolvemos durante três anos em cooperação com a Interpol, com a união aduaneira internacional e com outros peritos um programa de luta específico contra o tráfico de manuscritos islâmicos. Temos aqui uma equipa que monitoriza as vendas. Tanto os leilões como as vendas nas redes sociais, porque há uma mudança importante. Agora as pessoas praticam este tipo de tráfico na dark web e nas redes sociais. É menos fácil de controlar pela polícia. Por isso, estamos a monitorizar todas essas atividades", frisou Stéphane Ipert.