Com os confrontos EUA-Irão em Hormuz a intensificarem-se, Teerão diz ter atingido domingo um navio não tripulado da marinha dos EUA, alegação que Washington chama de “mentira total”. Irão reforça resposta militar e ameaça reagir a novos ataques.
Irão afirmou este domingo que as suas forças apontaram a um drone naval norte-americano quando este tentava entrar numa área “restrita” no estreito de Ormuz, mas os militares dos EUA negaram mais tarde a versão de Teerão, numa altura em que o impasse nesta via marítima crucial continua a agravar-se.
Em comunicado transmitido pela televisão estatal, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC) afirmou ter lançado um ataque contra uma “embarcação de superfície não tripulada” ao largo da costa sul do país, declarando que “os Estados Unidos, enquanto agressor, têm de perceber que não lhes resta alternativa senão abandonar a região e pôr termo aos seus atos de provocação”.
Um porta-voz do Comando Central dos EUA (CENTCOM), que coordena as operações militares norte-americanas no Médio Oriente, afirmou mais tarde que a alegação iraniana é “uma completa mentira”.
CENTCOM anunciou ainda este domingo que as forças norte-americanas desviaram a rota de 92 navios comerciais, imobilizaram três e abordaram outros dois para “garantir o cumprimento rigoroso” do bloqueio imposto pelos EUA aos portos iranianos no estreito de Ormuz.
O Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO) referiu no domingo que 59 navios atravessaram o estreito nas últimas 48 horas.
A troca de acusações entre Washington e Teerão este domingo surge depois de a Guarda Revolucionária ter declarado, no sábado, que também realizara ataques contra três petroleiros e três navios ligados aos Estados Unidos no estreito.
Os militares norte-americanos não confirmaram estas alegações iranianas.
As declarações iranianas seguiram-se ao anúncio feito por CENTCOM, mais cedo no sábado, de que as suas forças tinham atingido três petroleiros iranianos em resposta ao que descreveu como ataques com mísseis balísticos lançados pela Guarda Revolucionária contra dois navios de guerra da marinha dos EUA na sexta-feira.
O almirante Brad Cooper, comandante de CENTCOM, anunciou os ataques norte-americanos contra os petroleiros iranianos com um aviso a Teerão: “Que a mensagem para a Guarda Revolucionária fique clara: se dispararem contra dois dos nossos navios, iremos impor um custo económico ainda mais elevado, destruindo três dos vossos. Não hesitaremos em defender as forças norte-americanas e, se necessário, destruiremos a limitada e vulnerável frota de petroleiros do Irão”, afirmou.
“Na sequência dos ataques falhados do Irão, CENTCOM desativou de forma permanente os petroleiros da Guarda Revolucionária M/T Downy, ao largo da ilha de Kharg, e M/T Stark 1, perto de Jask”, indicou em comunicado. “As forças norte-americanas destruíram também por completo o petroleiro sem carga M/T Kylo (também conhecido como ‘Noxen’) no golfo de Omã, atingindo o navio em vários pontos críticos para o tornar inoperacional depois de a tripulação ter sido mandada abandonar o barco”.
“Um porta-aviões e um destróier lança-mísseis norte-americanos conseguiram iludir vários ataques iranianos não provocados. Nenhum elemento das forças dos EUA ficou ferido”, acrescentou.
O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, Mohsen Rezaei, declarou aos meios de comunicação iranianos este domingo que “há 48 horas testámos pela primeira vez o míssil antinavio do Irão sobre um navio da marinha dos EUA”, acrescentando que “este míssil especial se transformou num pesadelo para os americanos, obrigando-os a fugir”.
O uso, pela primeira vez, de mísseis balísticos antinavio contra navios da marinha dos EUA, na sexta-feira, representa uma escalada significativa das ações militares iranianas e um ponto de viragem na doutrina militar do país face aos Estados Unidos.
Entretanto, enquanto CENTCOM divulgava nas redes sociais imagens em vídeo dos ataques contra os petroleiros iranianos, o presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, acusou no domingo os Estados Unidos de recorrerem a vídeos falsos criados com inteligência artificial, afirmando que “os dirigentes desse país se encontram num estado de desespero, recorrendo a palavras ocas, slogans e inteligência artificial para gerar fotografias e vídeos do campo de batalha”.
Ghalibaf avisou que qualquer novo ataque contra o Irão “terá uma resposta mais rápida, mais pesada e mais dolorosa”.
“As nossas operações recentes contra bases agressoras foram apenas o início. Se ainda não o perceberam, têm de compreender, antes que seja demasiado tarde, que as regras do jogo mudaram”, declarou o presidente do parlamento iraniano.
O conflito reacendeu-se no último domingo, depois de forças norte-americanas terem visado lançadores de rockets iranianos e outras infraestruturas militares ao longo da costa sul do país.
A Guarda Revolucionária confirmou mais tarde que os ataques tinham atingido vários locais e lançou depois ataques com mísseis e drones na Jordânia, no Kuwait e no Bahrein.