Apoio à independência catalã subiu dos 20% para os 49%

Nos últimos anos, a defesa da independência catalã cresceu exponencialmente. Subiu dos 20%, há 30 anos, para os 49%, o máximo de sempre, este ano. Cerca de 29% dos catalães que tinham outras opiniões querem agora separar-se de Espanha. O que os fez mudar de ideias?

O antigo presidente do parlamento catalão e vice-presidente do Senado Espanhol, Joan Rigol, era membro da agora extinta Unió Democrática, um partido longe das teses independentistas. No entanto, hoje votaria sim à independência. Porquê? “Desde 2010, quando vi como o Tribunal Constitucional começou a rebaixar o que o povo tinha decidido e tinha sido aprovado nas Cortes, vi que a situação se tornou impossível, porque o Estado tentou aniquilar a esperança do povo catalão de poder decidir o próprio futuro”, conta o político.

2010 foi um ponto de viragem nas relações entre o governo espanhol e os catalães. O Supremo Tribunal revogou partes do estatuto de autonomia de 2006, que tinha sido votado pelo parlamento catalão e pelo governo espanhol. Desde aí, os independentistas ganharam força.

Maria Àngels, de Barcelona, também se tornou independentista: “Não era a favor da independência nem nunca tinha sido. Mas terem cortado o estatuto fez-me reagir. Um estatuto que foi aprovado no parlamento, que Zapatero disse que iria respeitar e, afinal, não o fizeram. Cortaram-no tanto que o socialista Alfonso Guerra disse que o tinham apagado. Foi nessa altura que disse que não ia aguentar mais, que nos estão a enganar”, conta esta pensionista.

Em 2012, o governo de Rajoy rejeitou o pacto fiscal proposto pelo anterior presidente catalão, Artur Mas. Começou a entranhar-se na sociedade a ideia de uma Espanha que não ouve os catalães.

Tesa Tejada, ativista, participa nas ações de campanha pró-independência, como aqui na Universidade de Barcelona: “A pouco e pouco, as humilhações foram crescendo e chega uma altura em que te tornas independentista por orgulho. Não que tenha algo contra o resto de Espanha, são nossos familiares, nossos vizinhos. Simplesmente quero ser independente do governo espanhol”, explica.

Para Pere Vilanova, professor de ciência política, o alheamento das elites políticas em relação à situação ajuda a explicar o crescimento do independentismo: “Alguns economistas podem dizer que há um problema fiscal ou de orçamento, mas esse não é o fator determinante. O que foi decisivo foi o clima emocional coletivo que se criou e que tem pouco a ver com razões económicas ou jurídicas isoladas”.

A economia, a autodeterminação e desafetação política são os motivos mais citados para se querer a independência, mas a ilusão de querer criar algo novo é contagiosa: “Com todo o ambiente que se vive na Catalunha, começamos a ir às manifestações, da Diada e outras, e o sentimento de toda aquela gente é contagioso. Mais do que pertencer a uma terra ou a uma nação, sentimo-nos integrados com as outra pessoas, sentimo-nos parte de um grupo que só quer protestar de forma pacífica”, conta Fernando Maté Gonzalez, residente em Barcelona.

As recentes ações da Guardia Civil, ao impedir pela força a realização do referendo, pode causar uma reação popular ainda mais a favor da independência: “Mesmo se as últimas sondagens apontam para uma estagnação no número de pessoas pró-independência – pouco menos de metade da população catalã – os acontecimentos desta semana podem ter mudado esses números”, diz a correspondente da euronews em Barcelona, Cristina Giner.
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