O medo crescente dos judeus franceses e a fuga ao antissemitismo

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De  Francisco Marques
O medo crescente dos judeus franceses e a fuga ao antissemitismo

<p>A comunidade judaica de França ainda está de luto pelo ataque a supermercado ‘kosher’ de Paris, a 9 de janeiro, em que quatro pessoas foram mortas por um terrorista radical islâmico. Foi o mais recente ataque de que foram alvo os judeus franceses, num rol que tem vindo a engrossar já no decurso deste milénio. A ideia de que o antissemitismo está a crescer na Europa e em particular em França está a agravar também o medo entre a comunidade hebraica francesa e fazer muitos procurar refúgio em Israel, adotando a chamada Aliá, a “elevação espiritual” representada pela imigração judaica nos territórios de Israel.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" lang="pt"><p>Nous sommes tous Charlie. Nous sommes tous policiers. Nous sommes tous juifs. <a href="https://twitter.com/hashtag/JeSuisCharlie?src=hash">#JeSuisCharlie</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/Vincennes?src=hash">#Vincennes</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/Dammartin?src=hash">#Dammartin</a> <a href="http://t.co/d0qDEG0xnG">pic.twitter.com/d0qDEG0xnG</a></p>— CRIF (@Le_CRIF) <a href="https://twitter.com/Le_CRIF/status/553570637961523200">9 janeiro 2015</a></blockquote> <script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>Na edição desta semana do magazine Repórter, fomos até Paris tentar perceber o estado de espírito da comunidade judaica na capital francesa. Na rua do supermercado assaltado há duas semanas, visitamos uma outra loja judaica, situada a poucos metros. Uma cliente disse-nos estar “em curso um movimento” que a leva a pensar que “o antissemitismo está a crescer”. “Desde o sucedido a Ilan Halimi que fiquei traumatizada”, garantiu-nos, recordando o caso do jovem judeu francês de origem marroquina, sequestrado há exatamente oito anos por um grupo apelidado “Gangue dos Bárbaros”, que o torturou durante três semanas até o matar.</p> <p>Este caso de 2006 assim como outros que tem vindo a ocorrer com preocupante regularidade contra judeus noutras cidades como Lyon, Toulouse, Sarcelles ou Marselha agravam os receios da comunidade e levam cada vez mais pessoas a procurar a delegação de Paris da <a href="http://www.jewishagency.org/pt/content/quem-somos" rel="external">Agência Judaica para Israel </a> em busca de informações sobre a burocracia a ultrapassar para poderem emigrar rumo a Israel. “Existe um ódio aos judeus que está a tornar-se público. A expressão desse ódio agravou-se e está a criar desconforto e mal-estar”, garantiu-nos Daniel Benhaim, o diretor da agência judaica parisiense.</p> <p><a href="http://jafi.org/JewishAgency/Spanish/Aliyah/Portuguese/" rel="external">Consulte aqui a página em português da Agência Judaica para Israel </a></p> <p>Conhecemos, entretanto, Olivia, uma mãe e judia francesaresidente em Provence, que já ponderou com a família deixar a França, mas recuou. “Seria fácil se bastasse dizer: ‘Ok, está decidido, vamos todos fazer a Aliá e partir para Israel’. Quando voltasse à rotina diária iria perceber, porém, que não é assim tão simples. Não é assim que se resolve o problema e, acima de tudo, eu sou francesa”, sublinha Olivia.</p> <p>Benjamin Netanyahu visitou recentemente Paris para se deslocar ao bairro Porte de Vincennes. O primeiro-ministro israelita visitou a rua onde se situa o supermercado atacado a 9 de janeiro por Amedy Coulibaly, confesso agente solitário fiel ao grupo extremista Estado Islâmico (<span class="caps">ISIL</span>, na popular sigla inglesa). Netanyahu aproveitou para reiterar o convite à comunidade judaica para aderirem à Aliá.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" lang="pt"><p>17 victimes. 17 noms. 17 visages. <a href="https://twitter.com/hashtag/MarcheDu11Janvier?src=hash">#MarcheDu11Janvier</a> <a href="http://t.co/Ihf73FLAf3">pic.twitter.com/Ihf73FLAf3</a></p>— CRIF (@Le_CRIF) <a href="https://twitter.com/Le_CRIF/status/554624225554997248">12 janeiro 2015</a></blockquote> <script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>O presidente do Conselho Representativo das Instituições Judaicas em França (<span class="caps">CRIF</span>, na sigla original) percebe porque “muitos judeus queiram partir”. “Não é agradável viver-se sob constante ameaça e com seguranças armados de metralhadoras para nos proteger”, explica-nos Roger Cukierman.</p> <p>Na União Judaica Francesa pela Paz (<span class="caps">UJFP</span>, na sigla original), encontrámos críticas aos políticos israelitas. Em especial, contra os de extrema-direita. “Se há um país onde os judeus não estão em segurança é em Israel e assim será enquanto for negada a existência e continuarem a ser martirizados os palestinianos. Ninguém pode dizer que estamos à beira de uma nova Noite dos Cristais”, garantiu-nos Pierre Stambul.</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" lang="pt"><p>Pierre Stambul « Contre l’antisémitisme, l’égalité » <a href="http://t.co/hoX2MYzxZW">http://t.co/hoX2MYzxZW</a> <a href="https://twitter.com/contactujfp">@contactujfp</a> <a href="https://twitter.com/hashtag/CharlieHebdo?src=hash">#CharlieHebdo</a> <a href="http://t.co/aIu7uoR6OB">pic.twitter.com/aIu7uoR6OB</a></p>— l'Humanité.fr (@humanite_fr) <a href="https://twitter.com/humanite_fr/status/555371433430646784">14 janeiro 2015</a></blockquote> <script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>O responsável da <span class="caps">UJFP</span> refuta qualquer perigo de reedição dos atos de violência perpetrados em novembro de 1938 em vários locais da Alemanha e da Áustria, já sob domínio nazi, que ficaram conhecidos como Noite dos Cristais e nos quais foram mortos mais de 90 judeus. Mais de 25 mil foram levados para campos de concentração, enquanto 7500 lojas e mais de 260 sinagogas foram destruídas.</p> <p>Elie Buzyn é um sobrevivente do “campo da morte” de Auschwitz, no sul da Polónia, onde ainda costuma voltar como guia de grupos a quem explica na primeira pessoa os horrores ali vividos. Radicado em França, este judeu diz que a “grande maioria da população francesa não é antissemita”. Buzy alega que o “atual antissemitismo tem origem em pequenos grupos muito bem organizados e estruturados” e avisa: “Se não encontrarmos uma solução para os pararmos, estes grupos vão crescer e propagar-se.”</p> <p><blockquote class="twitter-tweet" lang="pt"><p>Lecture de la Torah dans la Synagogue d'Auschwitz avec Elie Buzyn et Moché Lewin <a href="https://twitter.com/rabbinat93">@rabbinat93</a> <a href="http://t.co/GotBsURwuH">pic.twitter.com/GotBsURwuH</a></p>— Haïm Korsia (@HaimKorsia) <a href="https://twitter.com/HaimKorsia/status/532849908622307328">13 novembro 2014</a></blockquote> <script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>A filha de Elie Buzyn, que pediu para não ser identificada, esteve na recente Marcha pela Solidariedade, de Paris, organizada após os atentados de 7 e 9 de janeiro, respetivamente, contra um jornal satírico e o supermercado judaico. Ela ficou emocionada pela adesão e pela mensagem de união passada pelos franceses. De todas as origens e credos. “Para mim, não só estes atentados falharam no ataque à liberdade de expressão como provocaram esta enorme revolta internacional pela morte dos cartoonistas e jornalistas do Charlie Hebdo”, sublinhou a filha de Elie Buzyn.</p> <p>O antissemitismo existe. Se está a crescer é difícil de dizer. A efervescência social e religiosa é real e tem estado espelhada nas notícias a quase toda as horas. Boa parte da comunidade judaica em França continua a tentar perceber como podem continuar a ser em simultâneo franceses e judeus. Só no ano passado, sete mil emigraram: um recorde que dobrou os números de emigrantes judeus em França de 2013. </p> <p><blockquote class="twitter-tweet" lang="pt"><p>7000 olim de <a href="https://twitter.com/hashtag/France?src=hash">#France</a> en #2014. Chiffre historique, pour la 1ère fois la France est le 1er pays d'immigration vers <a href="https://twitter.com/hashtag/Israel?src=hash">#Israel</a>. <a href="https://twitter.com/hashtag/alyah?src=hash">#alyah</a></p>— Agence Juive (@AgenceJuive) <a href="https://twitter.com/AgenceJuive/status/550600079695179776">1 janeiro 2015</a></blockquote> <script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></p> <p>Também a França está ainda a tentar perceber como foi possível que as diferenças inerentes à “igualdade” da divisa nacional tivessem permitido tamanho horror como o que foi vivido há cerca de duas semanas e que deixou feridas abertas na sociedade gaulesa, mas também um pouco por todo o Mundo.</p> <p>Não deixe de assistir ao vídeo desta reportagem conduzida por Valérie Zabriskie.</p>