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Pobres trabalhadores alemães

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De  Euronews
Pobres trabalhadores alemães

<p><strong>Se a economia da Alemanha continua a crescer e a taxa de desemprego no país é reduzida, porque é que há tanta gente que se junta todos os dias à porta dos centros de emprego? Num destes centros, em Berlim, constatamos que muitas das pessoas que fazem fila já têm, na verdade, um trabalho. Mas em contextos precários e com baixos rendimentos. Por isso, necessitam de apoios sociais. São os chamados</strong> <a href="https://www.dinheirovivo.pt/economia/subsidio-trabalhadores-pobres-so-2018/">trabalhadores pobres</a>. <strong>E quem tem mais qualificações é, por vezes, mais penalizado.</strong></p> <p><em>“Sou muito cara para eles. Preferem contratar pessoas sem competências que trabalhem por 8,50 euros à hora. A mim têm de me pagar um salário que está tabelado e que é mais alto”</em>, diz-nos Monika Sagertsch, pensionista.</p> <p>A questão da criação de emprego tornou-se premente com a reunificação. Mas depois surgiu a problemática dos custos laborais e da competitividade. Onde está o ponto de equilíbrio?</p> <blockquote class="twitter-tweet" data-lang="fr"><p lang="en" dir="ltr">The increasing numbers of working-poor and non-working rich make a mockery of our so-called meritocracy.</p>— Robert Reich (@RBReich) <a href="https://twitter.com/RBReich/status/885917120558546944">14 juillet 2017</a></blockquote> <script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script> <h3>“O trabalho por conta própria não é o ideal para alguém da minha idade”</h3> <p>Em 2003, a Alemanha lançou uma ambiciosa reforma do mercado laboral. Flexibilizar e liberalizar tornaram-se as palavras de ordem, impulsionando conceitos como o tempo parcial, por exemplo. O desemprego desceu, mas a pobreza relativa aumentou.</p> <p>Rolf Maurer tem 60 anos, é pedreiro e, basicamente, faz um pouco de tudo. Angaria clientes através da internet. Tem um modelo de negócios baseado na flexibilidade, sobretudo a nível de horários. Há alturas em que tem muito trabalho e há períodos de inatividade. Quais são os riscos desta realidade cada vez mais comum? <em>“O grande risco é nunca saber o que vamos fazer no dia seguinte, se vamos ter trabalho sequer… Outro problema é haver clientes que, no final, não pagam o serviço…”</em>, responde-nos.</p> <p><em>“Segundo as tabelas oficiais, a tarifa sugerida é de, pelo menos, 35 euros por hora. Mas, como anuncio os meus serviços na internet, levo muito menos, cerca de 10/15 euros…”</em>, explica-nos ainda.</p> <a data-flickr-embed="true" data-header="true" href="https://www.flickr.com/photos/euronews/albums/72157686558120015" title="Insiders - Filming 'Poor Germany'"><img src="https://farm5.staticflickr.com/4297/35255817603_9df0b3dd0d_z.jpg" width="640" height="360" alt="Insiders - Filming 'Poor Germany'"></a><script async src="//embedr.flickr.com/assets/client-code.js" charset="utf-8"></script> <p>A prioridade de Rolf é ter dinheiro para pagar a renda do pequeno apartamento onde vive, situado num bairro social em Halle. Em segundo lugar: comprar ferramentas para poder desempenhar o seu trabalho. Ou seja, não sobra praticamente nada para deixar de lado para a reforma. Rolf trabalhou durante vários anos numa fundição. Quando esta fechou portas, a idade de Rolf tornou-se um obstáculo para arranjar um novo emprego por conta de outrem.</p> <p><em>“Arranjar um trabalho por conta própria não é o ideal para alguém da minha idade. A certa altura, o que queremos é ter um emprego normal, estável. Aos 60, não temos propriamente vontade de enfrentar os riscos de um projeto a partir do zero”</em>, afirma.</p> <p>Isto é, Rolf não pode, na verdade, deixar de trabalhar nos próximos anos. O número de alemães que continua em atividade após os 65 anos duplicou na última década. Para muitos, não é uma questão de escolha.</p> <p><em>“Eu tenho de me adaptar à vontade dos clientes no que toca aos horários. Se tiver de ser ao fim de semana, é. Se tiver de ser à noite, também… Eu tenho de ir ao encontro das necessidades do cliente”</em>, aponta.</p> <h3>“Terei direito a uma reforma de 351 euros”</h3> <p>Muitos qualificam Berlim de “capital do emprego precário”. Fomos saber o que é que uma das maiores plataformas sindicais alemãs, a Ver.di, tem a dizer sobre <a href="http://www.lemonde.fr/economie/article/2017/03/16/la-france-resiste-pour-l-instant-au-modele-du-travailleur-pauvre_5095195_3234.html">a realidade dos trabalhadores pobres</a>.</p> <p><em>“Na Alemanha, um em cada cinco trabalhadores ganha menos de 10 euros por hora. Ou seja, é considerado um trabalhador pobre. É o resultado da destruição das regras do mercado laboral. A Alemanha é um país rico, não há dúvidas em relação a isso. Mas é também um país dividido socialmente, onde existem trabalhadores pobres que trabalham 40 a 50 horas por semana, mas não ganham o suficiente para ter uma vida decente”</em>, considera Dierk Hirschel, da Ver.di.</p> <p>Este contexto tem mais incidência no setor hoteleiro, na construção e na restauração. Mas também em atividades específicas que exigem vários anos de preparação. Adriana e Jan são professores de Música em escolas públicas. Tilman é um blogger que organiza debates. No caso, Adriana e Jan são convidados a falarem da sua situação profissional e de um assunto espinhoso: a reforma.</p> <p>Jan é casado, tem dois filhos e luta constantemente para conseguir guardar algum dinheiro para mais tarde. Adriana dá aulas há duas décadas, Recentemente, pediu uma simulação do valor que irá receber quando chegar à reforma. <em>“Se eu contar, ninguém acredita… Vou mostrar-vos a notificação que recebi. Aqui está, preto no branco. Terei direito a uma reforma de 351 euros e 82 cêntimos. Só a renda que pago pelo meu apartamento é de 400 euros. A minha reforma nem para isso chega…”</em>, salienta Adriana.</p> <p>Segundo Jan, <em>“há um acordo coletivo em preparação para os professores de Música terem um salário decente, para que não tenhamos de fazer contratos de freelance por cada hora que trabalhamos, para continuarmos a receber em caso de doença… Quem adoece, arrisca-se a ficar sem dinheiro. As mulheres não podem perder o emprego porque vão dar à luz”.</em></p>