Que sanções pode a UE impor à Rússia em caso de invasão da Ucrânia?

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De  Christopher Pitchers  & Pedro Sacadura
Que sanções pode a UE impor à Rússia em caso de invasão da Ucrânia?
Direitos de autor  Kirill KUDRYAVTSEV / AFP

Perante a ameaça de uma eminente invasão russa da Ucrânia, aumentam as expectativas em relação à resposta do Ocidente.

O secretário de estado dos EUA, Anthony Blinken, alertou Moscovo para “enormes consequências” na eventualidade de uma entrada no país vizinho, mas não precisou quais seriam as verdadeiras repercussões de semelhante manobra.

Já os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (UE), que se reuniram esta segunda-feira em Bruxelas para discutir uma abordagem coletiva, também foram deliberadamente vagos sobre como seria uma reação dos Estados-membros.

Se o presidente russo, Vladimir Putin, avançar com a invasão da Ucrâniahá uma série de opções em cima da mesa ao dispor da União Europeia e respetivos aliados. Começando por mais sanções.

Sanções económicas e financeiras

A Rússia foi alvo de várias rondas de sanções ao longo dos anos, cada qual com diferentes graus de sucesso. Na eventualidade de Moscovo avançar com uma ofensiva sobre a Ucrânia, uma das medidas mais faladas recentemente passa por excluir o país do sistema de pagamentos internacional SWIFT.

Na verdade, este é uma das partes principais do sistema global para transferência de dinheiro em todo o mundo. Cortar a Rússia dessa rede é algo que teria graves consequências, tornando muito difícil para qualquer pessoa dentro do país fazer qualquer tipo de transação financeira com o mundo ocidental e a nível global.

O professor Markus Ziener, do German Marshall Fund dos EUA, diz que é mais fácil falar do que fazer.

“Se eles [Rússia] fossem cortados do SWIFT, isso também atingiria basicamente qualquer instituição financeira na Rússia. Agora, qual é a ressalva? A ressalva é que a Rússia acumulou centenas de milhões em ouro e dólares americanos. Eles têm muitas reservas e também têm uma estreita cooperação com a China", referiu Ziener em entrevista à Euronews.

“Então, pode haver uma possibilidade de a Rússia contornar o impacto dessas sanções e é um tipo de coisa controversa. Não sabemos realmente que tipo de danos é que isso fará aos russos.”

Por outro lado, cortar a Rússia do sistema SWIFT também criaria problemas para a Europa. Por exemplo, uma empresa que compre gás natural russo não poderá pagar usando o código SWIFT normal.

O gasoduto Nord Stream 2

É impossível mencionar qualquer reação ocidental sem trazer à tona o polémico projeto do Nord Stream 2.

O gasoduto de gás natural, concluído em setembro passado, quer conectar o gás russo, através do Mar Báltico, à Alemanha e, de forma mais alargada, à Europa.

No entanto, da maneira que as coisas estão, o processo não se adivinha fácil. O projeto está à espera da "luz verde" dos reguladores alemães e da UE para começar a fornecer ao continente os abastecimentos de energia necessários.

Os críticos argumentam que a iniciativa enfraquece a independência energética europeia e que pode ser usada como uma ferramenta política por parte de Moscovo, no futuro. Já os defensores dizem que é preciso reforçar a segurança energética da União Europeia, aumentando a oferta.

Os EUA mostraram-se preocupados com o caso do Nord Stream 2.

Mas um sinal recente do chanceler alemão Olaf Scholz sugeriu que Berlim pode considerar a interrupção do projeto do gasoduto em resposta a um ataque à Ucrânia.

Em conferência de imprensa conjunta com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, na semana passada, Scholz respondeu a uma pergunta sobre o Nord Stream 2 dizendo que haverá um “alto preço a pagar e que tudo terá que ser discutido caso haja uma intervenção militar em Ucrânia."

Conseguirão os aliados ocidentais entender-se sobre a Rússia?

Apesar de toda a conversa sobre punir Vladimir Putin e sobre apresentar uma frente unida, nos bastidores há muito pouco consenso em relação a como proceder em caso de ataque.

Sobre o sistema de transações financeiras SWIFT, o professor Markus Ziener, do German Marshall Fund dos EUA, diz que “não há uma resposta clara”.

“Alguns países europeus dizem: não vamos fazer isso. Vamos fazer [as coisas] passo a passo. Não vamos começar com o SWIFT imediatamente como uma das sanções mais massivas que podemos aplicar”, acrescenta.

Outros querem seguir o caminho oposto e atingir a Rússia onde pode doer financeiramente.

Em relação ao gasoduto Nord Stream 2, há divisões em toda a UE, inclusive no seio do próprio governo de coligação da Alemanha.

O Partido Social-Democrata (SPD), do chanceler alemão Olaf Scholz, é mais cauteloso em bloquear o projeto, enquanto os dois parceiros do governo tripartido, os "Verdes" e os liberais (FDP), preferem adotar uma política externa mais “baseada em valores”.

De acordo com o Wall Street Journal, Berlim chegou a bloquear entregas de armamento da Estónia à Ucrânia porque as armas contêm componentes de origem alemã, restringindo, potencialmente, a capacidade de resposta de Kiev a um eventual ataque.

Do lado de fora, parece que será difícil encontrar um entendimento entre a União Europeia e os respetivos aliados, mas por enquanto há uma frente unida que se apresenta, com o chefe da diplomacia europeia a afirmar na segunda-feira: “a nossa unidade é a nossa força e não há dúvida sobre isso."