This content is not available in your region

O que significa o resultado das eleições italianas para a UE?

Access to the comments Comentários
De  Alice Tidey  & Isabel Marques da Silva
O debate contou com eurodeputados dos verdes, conservadores, centro-esquerda e centro-direita
O debate contou com eurodeputados dos verdes, conservadores, centro-esquerda e centro-direita   -   Direitos de autor  Euronews   -  

O partido de extrema-direita Irmãos de Itália, liderado por Giorgia Meloni, ganhou as eleições, no domingo, e espera-se que forme um novo governo com os seus parceiros de coligação: Liga do Norte, populista, de Matteo Salvini, e Forza Itália, de centro-direita, de Silvio Berlusconi.

A euronews acolheu, quarta-feira, um debate, conduzido por Méabh Mc Mahon, para discutir o que o resultado das eleições em Itália significa para o futuro próximo da União Europeia (UE).

No debate participaram quatro membros do Parlamento Europeu, em Bruxelas:

  • Juan Fernando Lopez Aguilar, dos Socialistas e Democratas
  • Roberts Zīle, dos Conservadores e Reformistas Europeus
  • Lukas Mandl, do Partido Popular Europeu
  • Alexandra Geese, dos Verdes

"É bem sabido que a Itália tem sido um laboratório político durante anos. Para alguns é também uma câmara de antecipação do que poderá acontecer noutros Estados-membros da UE. Mas, certamente, que foi um abalo", disse o deputado espanhol Juan Fernando Lopez Aguilar, dos Socialistas e Democratas (centro-esquerda).

O deputado austríaco Lukas Mandl, do Partido Popular Europeu (centro-direita) afirmou que se sentiria "à vontade quando o novo governo e parlamento italianos atuassem sob a égide de uma abordagem europeia comum".

"Eu diria que temos de os medir pelos seus atos", acrescentou, citando as várias crises que a Europa enfrenta atualmente.

A eurodeputada alemã Alexandra Geese, dos verdes, disse que o resultado das eleições é preocupante.

"Estamos bastante preocupados com o que vai acontecer em Itália e com a campanha de propaganda anti-europeia, dizendo que chegou o fim da Europa. Na verdade, a Itália tem estado muito envolvida na política europeia, nos últimos anos, e tem desempenhado um papel muito importante", disse Geese.

O eurodeputado letão Roberts Zīle, dos Conservadores e Reformistas Europeus (o mesmo grupo político de Giorgia Meloni), afirmou que se "pintou em tons demasiado escuros" o quadro do resultado eleitoral, acrescentando que Meloni iria continuar com o plano em vigor para receber o financiamento da UE.

O que significará o novo governo para as relações da UE?

Mandl disse que, uma vez formado um novo governo em Itália, haverá, provavelmente, coordenação com a equipa do primeiro-ministro cessante, Mario Draghi.

"Draghi foi realmente uma pessoa muito boa, no momento certo para a Itália, e para a Europa na sua totalidade, durante a pandemia e as outras crises que surgiram", acrescentou.

Alexandra Geese disse estar preocupada com o facto de Meloni ter "dois parceiros de coligação que são amigos íntimos ou admiradores de Putin".

"Não sei como Giorgia Meloni será capaz de controlar isso numa coligação. É sempre necessário fazer concessões", acrescentou.

Mas, na opinião de Zīle, não haverá "qualquer mudança sobre continuar com as fortes sanções contra a Rússia".

"Temos de nos acalmar. Estamos numa situação de segurança muito grave devido à agressão russa na Ucrânia e esta é a questão mais importante, atualmente", acrescentou.

O que é que o resultado significa para a economia italiana?

A cientista política italiana Nathalie Tocci, diretora do Istituto Affari Internazionali, disse há poucos dias, à euronews, que todos os olhos estão postos no país devido à situação da dívida pública.

"Meloni sabe que não pode causar muita confusão neste momento, sabe que a Itália precisa da Europa. A Europa dá realmente muito dinheiro à Itália", disse Tocci.

Lopez Aguilar realçou que a Itália é terceira maior economia da UE, mas que, no que diz respeito ao equilíbrio social, "está em apuros".

"Há muita agitação social em Itália. Há desigualdades, tanto regionais como territoriais, mas também sociais entre ricos e pobres, com uma classe média e trabalhadora empobrecida, com elevada inflação, tensões sociais em todos os sentidos", acrescentou.

"Quando a Itália se inclina fortemente para a direita, não pode simplesmente alinhar com a Hungria e a Polónia, que não fazem parte do euro. A Itália precisa de alianças no seio do grupo do euro", reforçou.

A eurodeputada dos verdes afirmou que se o novo governo mantiver com as reformas planeadas por Draghi para aceder a mais de 200 mil milhões de euros de financiamento da UE, "não haverá um choque. Não há necessidade de um confronto".

"Ela era a única líder do único partido em Itália que não fazia parte da coligação de Draghi", disse Zīle, que acrescentou que Meloni herdou uma grande dívida pública. "É por isso que eu penso que as pessoas confiaram nela para haver mudanças".

O que poderia acontecer ao pacto sobre migração e asilo?

"A Itália está numa encruzilhada de tráfico de migrantes", disse o erudeputado conservador, acrescentando que pensa que apoiar os refugiados da Ucrânia é mais importante "porque são principalmente mulheres e crianças, e não homens jovens, diria, da costa africana ou do Médio Oriente".

Mas Lopez Aguilar, que é presidente da Comissão de Assuntos Internos do Parlamento Europeu, disse que se lembra de quando Matteo Salvini era ministro do Interior de Itália (sendo que vai agora integrar o novo executivo.

"Ele era extremamente disfuncional, não só com uma retórica agressiva, mas também com ações que eram flagrantemente contra a lei da UE, recordou o socialista.

"A legislação da UE vai no sentido de temos de ter uma abordagem holística, temos de respeitar o direito humanitário internacional e o direito da UE quando se trata de busca e salvamento", acrescentou ele.

O eurodeputado Lopez Aguilar disse estar preocupado com a oposição de Meloni à ideia de que os Estados-membros partilhem responsabilidades no novo pacto migratório.

Mandl acrescentou que a Europa está a enfrentar novas formas de migração e uma possível crise migratória devido à guerra da Ucrânia, mas também fome, pelo que é importante lidar com a proposta da Comissão Europeia. "Estou otimista de que o governo italiano também irá discutir construtivamente (o pacto migratório)", disse.