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Para onde irão os restos mortais de Arafat?

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Para onde irão os restos mortais de Arafat?

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Um dia particular de oração em Jerusalém. Na quarta sexta-feira do Ramadão, o mês santo para os muçulmanos, milhares de fiéis compareceram, dominados pela tristeza. Aqui, como noutros locais de oração, o pensamento vai para o líder histórico da Palestina, Yasser Arafat. Todos partilham com ele o desejo manifestado há cerca de um ano. “Com a vontade de Deus, no próximo ano, uma criança palestiniana vai trazer uma bandeira palestiniana aos muros, aos minaretes e às igrejas de Jerusalém”, afirmava.

O sonho de ver Jerusalém como capital da Palestina comandou toda a vida de Arafat, mas talvez nunca venha a realizar-se. A sua última vontade, ser enterrado no cemitério da cidade, também não. O ministro israelita, Sylvan Shalon, confirma esta ideia: “O governo israelita nunca autorizará o seu enterro em Jerusalém. Consideramos que não é o sítio apropriado para enterrá-lo”. A verdade é que a Esplanada das Mesquitas, onde Arafat desejava ser enterrado, é também um local santo para Israel, designado pelos judeus Monte do Templo. O colonista do jornal Haaretz, Danny Rubinstein, explica que “seria um passomuito simbólico se Israel deixasse enterrar o líder palestiniano em Jerusalém. Poderia ser interpretado como o reconhecimento de que os palestinianos têm direitos políticos em Jerusalém”. Israel não quer nem ouvir falar disso e sugere outros locais, como Abu Dis, nos arredores de Jerusalém, ou ainda Gaza ou Ramallah, onde Yasser Arafat viveu nos últimos três anos. Em Gaza estão enterrados o pai e a irmã do líder palestiniano; um em Khan Yunis, o outro na cidade de Gaza. Esta solução poderia evitar muitos problemas políticos e de segurança ao Estado hebraico, mas não serve aos palestinianos, que as consideram inaceitáveis, sobretudo a hipótese de Abu Dis, na periferia da cidade santa. Uma opção que nem mesmo os residentes de Abu Dis, preconizam. “A mesquita de Al Aqsa é Jerusalém. Ali é Jerusalém e penso que é lá que deve ser enterrado”, diz um cidadão palestiniano. Há mesmo quem seja peremptório, afirmando: “Com a vontade de Deus iremos cumprir este desejo, mesmo com riscos para nós próprios, com risco da própria vida. Pagaremos com tudo o que temos e com a nossa honra, mas cumpriremos o seu desejo”. É mais um foco de tensão entre os dois povos. Arafat a marcar na morte, como na vida, a história da Palestina.