Última hora

Última hora

"Boas muçulmanas" do Hamas não são exemplo para as mulheres palestinianas

Em leitura:

"Boas muçulmanas" do Hamas não são exemplo para as mulheres palestinianas

"Boas muçulmanas" do Hamas não são exemplo para as mulheres palestinianas
Tamanho do texto Aa Aa

As mulheres palestinianas têm poucas razões para festejar o dia 8 de Março. A subida ao poder do movimento islâmico Hamas, desperta receios entre a população feminina, habituada à tolerância de uma das sociedades mais laicas do Médio Oriente. Ontem, frente ao parlamento palestiniano em Gaza, centenas manifestaram-se pararelembrar ao próximo primeiro-ministro palestiniano, Ismail Haniyeh, a importância do princípio de igualdade entre homens e mulheres.

Mesmo que o manifesto eleitoral do Hamas refira preceitos islâmicos como o porte do véu ou a separação por sexos no trabalho, Haniyeh, afirma que a suainterpretação destes preceitos, “é mais alargada”, respeitando por exemplo, “o direito das mulheres a aceder a altos cargos na sociedade”. Durante as eleições legislativas, 13 mulheres faziam parte da lista de candidatos do Hamas, mais uma que na lista do partido laico Fatah. O movimento mostra assim que não hesitou em cumprir a quota estabelecida de 20% de candidatos do sexo feminino. Mas à imagem de Mariam Farhat, entretanto eleita deputada, a maioria das candidatas do Hamas são ou viúvas ou mães de bombistas suicidas, escrupulosas seguidoras dos preceitos islâmicos e defensoras da guerra santa – características imprescindíveis a uma “boa muçulmana” segundo o movimento. Mais do que um currículo político, Farhat apresentou a sua história pessoal como argumento de campanha. Três dos seus seis filhos morreram no conflito israelo-palestiniano, um dos quais durante uma acção suicida. Uma razão de sobra para alarmar as mulheres palestinianas, nomeadamente em Ramallah, na Cisjordânia. Ao contrário do que se passa em Gaza, homens e mulheres vivem lado a lado nas ruas e no trabalho nesta grande cidade, um direito que muitas prometem defender até às últimas consequências: “Penso que o Hamas não pode obrigar toda a gente deste país, especialmente as mulheres a cobrir a cabeça, ou proíbi-las de conviver com homens. Acho que o Hamas não vai enveredar por este caminho. Mas se nos forçar a aceitar esta situação, eu estarei contra e não me resignarei”, afirma uma jovem num centro comercial da cidade. Para a deputada independente Hanan Ashrawi, não há razão para tais receios:“Penso que é ainda prematuro admitir que o Hamas poderia levar a cabo uma transformação tão drástica, porque se arriscariam antes de mais a perder uma grande parte do apoio popular”. Face aos receios vindos também da comunidade internacional, o Hamas afirma que o Islão não será imposto e que bastará a força da convicção dos seus membros para seduzir os palestinianos e converter as mulheres em “boas muçulmanas”.