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"Quando a casa está a arder não podemos preocupar-nos com a factura da água.", Christine Lagarde, ministra francesa da Economía, Indústria e Emprego

"Quando a casa está a arder não podemos preocupar-nos com a factura da água.", Christine Lagarde, ministra francesa da Economía, Indústria e Emprego
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A crise financeira, a crise económica e a social estão no centro da actualidade. Para onde foram as expectativas suscitadas pelo G20, em Londres, sobre a reforma do sistema financeiro?

Quando é que o déficit orçamental do estado francês vai ser reduzido? Como baixar a taxa de desemprego que cresce em todo o mundo e deprime os cidadãos?

Todas estas perguntas, a euronews coloca-as, em Paris, a Christine Lagarde, Ministra francesa da Economia, Indústria e Emprego.

euronews :
As causas da crise, têm a ver com o endividamento propiciado pelas baixas taxas de juro. Respondemos a esta crise aumentando a dívida e baixando ainda mais as taxas de juro. Não acha isso estranho?

Christine Lagarde :
Ministra francesa da Economia, Indústria e Emprego.

A análise que faz da crise é um pouco parcelar. A crise é o resultado de demasiadas coisas…. Demasiada liquidez, baixas taxas de juro. Também de desequilíbrios macroeconómicos entre países como a China que economiza demais e países como os Estados Unidos que consomem em demasia. É um excesso de sofisticação nos instrumentos financeiros, a um ponto em que os investidores nem sequer sabem aquilo que estão a comprar e onde estão os riscos. São as remunerações excessivas e sistemas de gratificação inapropriados e aceleradores da crise. São as regras proteccionistas, aplicáveis aos bancos que aceleram também o fenómeno da crise. A crise financeira na qual estamos é tudo isto. Estamos a responder da forma mais eficaz possível e com os actores que são mais credíveis no mercado. Hoje, quem é que é credível no mercado? Que assinaturas são reconhecidas? São as assinaturas dos Estados. A política monetária que foi adoptada, consiste em baixar as taxas de juros; Esta política é crucial para devolver a liquidez a um mercado que está completamente contraído, onde não há, simplesmente, mais dinheiro a circular entre os bancos. Euronews : O G20 deu esperança em relação à reforma do sistema financeiro internacional: que medidas estão a ser tomadas? Christine Lagarde : O G20 em Londres deu esperança, porque os chefes de estado e de governo que representam 85% do Produto Interno Bruto mundial estiveram de acordo num princípio: não há produto, não há pessoa, não há território que não esteja sob supervisão ou regulamentação. E uma forte iniciativa francesa demarcou as áreas nas quais estes prinícipios devem ser aplicados. Nos paraísos fiscais: esse foi um dos combates mais difíceis do G20 mas no final conseguimos definir que os paraísos fiscais passam a estar classificados em três listas: primeiro a lista negra dos países que recusam cooperar, isto é trocar informação; depois a lista cinzenta daqueles que aceitaram os princípios mas ainda não os puseram em prática; e a lista de países que não têm segredo bancário e que trocam informações. Quais são hoje os resultados? Já não existe lista negra. Todos os países que estavam na lista negra declararam a intenção de aceitarem a obrigação de trocarem informações. E os países que estavam na lista cinzenta, países como por exemplo o Luxemburgo ou a Bélgica – e esperamos que também em breve a Suíça e o Lichtenstein – para falar daqueles que nos são mais próximos – decidiram seguir as regras. Euronews : Sobre as questões financeiras o consenso na Europa não é total, qual é o papel desempenhado pelo eixo Paris-Berlim? Christine Lagarde : Os europeus não estão de acordo sobre tudo na mesma altura. E o trabalho dos europeus que estão convencidos de que podemos desempenhar um papel a nível regional, é convencer outros parceiros; é neste domínio que o eixo franco-alemão funciona bem em manter-se firme em questões como os paraísos fiscais, as agências de notação, os fundos especulativos e a supervisão europeia. Não é realmente surpreendente que não estejamos sempre de acordo porque há os países da Zona Euro e aqueles que estão fora da zona Euro: em particular a Grã-Bretanha que é directamente afectada na medida em que tem funcionado, tradicionalmente, como um centro de serviços financeiros e não está na Zona Euro. Por isso, o trabalho consiste em encontrar entendimentos e tentar alcançar compromissos. Euronews : Sabemos que a dívida actual representa os impostos de amanhã, o governo francês está preocupado em reduzir seu déficit orçamental? Christine Lagarde : uando a casa está a arder não podemos preocupar-nos com a factura da água. Hoje estamos comprometidos, com a Comissão europeia, com o Fundo Monetário Internacional, e porque todos os economistas sabem o que devemos fazer neste momento estamos comprometidos com um plano de relançamento massivo. Um plano massivo de relançamento que não se financia de qualquer maneira. Que se financia com o endividamento de hoje. Euronews : A depressão social está a começar a instalar-se em França e por todo o lado enquanto o desemprego aumenta, qual é, para si, o caminho para sairmos desta crise? Christine Lagarde : A luta contra o desemprego e a luta pelo emprego é uma coisa pela qual nos debatemos diariamente. E é verdadeiramente a minha obsessão porque hoje temos uma crise em três etapas: a etapa financeira, a etapa económica e a social. A etapa social é a que deixa mais marcas, marcas dolorosas aos cidadãos. As empresas afectadas pela crise, têm neste momento que fazer cortes. Começaram por reduzir os contratos a prazo, a não renovar outros, deixaram de fazer horas extraordinárias; e depois começaram a procurar planos de reestruturação que comportem estes cortes. Vamos continuar a viver esta situação até a economia dar sinais positivos porque há um atraso entre as decisões tomadas e os efeitos dessas decisões no terreno. Euronews : A General Motors, que é um dos símbolos do sector industrial americano, está sob protecção da lei americana relativa às falências: diz-se que é o fim de uma era. É o fim de que era? Como vê esta nova era no que diz respeito ao sector automóvel e de uma forma geral ao sector industrial? Christine Lagarde : O que me parece mais característico de um novo período não é que um fabricante se esconda atrás do “Capítulo 11” da lei de falências norte-americana, que é o equivalente a parar, temporariamente, de pagar aos credores e continuar a funcionar normalmente. Isso já aconteceu na United Airlines e na indústria da aeronáutica em geral. Para mim, o que é sintomático de uma nova era é o papel desempenhado pelo governo americano, que não hesitou, ao lado do canadiano, em nacionalizar um gigante da indústria, dando-lhe 90 dias para se reconstruir r reorganizar, um pouco como fazemos na nossa lei das falências. É pouco provável que um governo americano intervenha desta forma, é algo que não viamos há muito tempo, muito tempo.