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"Sempre quis a Europa" - Alfred Grosser

"Sempre quis a Europa" - Alfred Grosser
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“Sempre quis a Europa” disse o politólogo e historiador francês de origem alemã Alfred Grosser cuja frase encerra o essencial da sua obra e vida. Este ideólogo foi um dos principais impulsionadores da cooperação franco-alemã. Sob o pano da actual crise que se vive no Continente, o jornalista da euronews Rudolf Herbert, foi saber a sua opinião sobre a actual situação.

Ruldolf Herbert, euronews: A Europa está prestes a afundar-se. Já sabe como se vai salvar?

Alfred Grosser:“Não tenho nada preparado mas é claro que podemos estar perante uma catástrofe. As consequências podem alastrar-se a muitos lugares. Os défices na maior parte dos países são aterradores. Não é possível lutar contra os défices sem reduzir o crescimento… E o crescimento é necessário para reduzir o défice. É um círculo vicioso. Um modelo positivo poderia ser, por exemplo, os europeus aperceberem-se que não é possível terem uma moeda comum sem que exista um mínimo de autoridade sobre o orçamento e os impostos”.

euronews: Segundo os analistas trata-se do início de uma crise. Existem causas políticas para esta crise?

Alfred Grosser: “Em primeiro lugar, os analistas têm estado errados e talvez se enganem agora de novo. Ninguém previu a crise na Grécia, por exemplo. Ninguém disse que podia ser tão profunda. Neste sentido, os analistas falharam, talvez se venham também a enganar em outro sentido. Os peritos são pessoas que pretendem ter uma ciência mas que não têm de facto. É assim. Penso que uma das razões políticas para esta crise é que não existe coordenação na Europa. Não existe uma autoridade central para as questões económicas e orçamentais.
Em 1954 fui contra a Comunidade de Defesa Europeia. Uma das razões é a seguinte: que sentido faz ter um exército comum se não existe uma autoridade política que dirige esse exército? Aquando da criação do euro, eu escrevi – e posso prová-lo porque está escrito – que concordo e sou a favor do euro! Mas o que também perguntei foi de que serviria uma moeda comum sem uma autoridade central? Esta autoridade deveria submeter a moeda a uma política orçamental e a uma política fiscal comuns”.

euronews: Será a Europa um projecto político incerto? Será que a ideia de uma Europa unida irá permanecer uma utopia?

Alfred Grosser: “Não é uma utopia, é uma necessidade! Ninguém parece querer admitir esta necessidade o que é já de si mau. Começou com a França em 1953 que disse “não!” a uma Europa politicamente organizada. Foi por isso que mais tarde falharia a Comunidade de Defesa. Em França ainda se mantém uma atitude negativa alimentada pelas palavras de Georges Pompidou em 1964. Ele disse: ‘A França deveria desempenhar o papel de Europa’; ele não disse, ‘a França deveria desempenhar um papel na Europa’. Ele disse que o papel da Europa deveria ser assumido pela França. Esta arrogância francesa é uma das causas da crise”.

euronews: Quais são as ameaças a uma Europa política?

Alfred Grosser: “Não vejo quaisquer ameaças a não ser por parte das vaidades nacionais que deveriam ser ultrapassadas”.

euronews: A política europeia é definida em Bruxelas ou em Paris e Berlim?

Alfred Grosser: “Paris e Berlim tentam falar a uma só voz para pressionar a Europa. Após o Tratado de Lisboa, tornou-se ainda mais difícil localizar o poder na Europa porque, por exemplo, ninguém sabe onde e quem está encarregado da política de negócios estrangeiros. Será que cabe ao presidente da Comissão Europeia? Ou ao novo ministro que é também vice-presidente da Comissão? Ou será caberá ao presidente do Conselho? Eles estão a interferir muito uns com os outros. E também igualmente importante, ninguém sabe como é que uma política europeia deverá ser”.

euronews: Será o Tratado de Lisboa um guia adequado para o futuro da Europa?

Alfred Grosser: “Eu diria que é um bom passo. Talvez esta crise venha a forçar os governos, talvez mesmo os franceses e alemães a dizerem para si próprios: precisamos de uma Europa mais integrada com mais poder central”.

euronews: O que pensa das instituições europeias?

Alfred Grosser: “O Parlamento está a funcionar bem, conseguiu fazer coisas muito positivas e obteve mais responsabilidades. É uma pena que não se saiba – na Alemanha sabe-se melhor do que em França – que este Parlamento é uma instituição escolhida de forma democrática. A Comissão está a funcionar melhor do que se esperava com a inclusão dos novos Estados membros. Infelizmente, o antigo sistema ainda existe: cada governo nomeia o seu comissário. O presidente da comissão deveria poder escolher os seus comissários pelas suas capacidades e não pela nacionalidade”.

euronews: Qual é a sua opinião sobre o primeiro presidente permanente da Europa? Será que tem poderes suficientes?

Alfred Grosser: “Não, ele não tem poderes suficientes mas está a desempenhar as suas funções muito bem. É muito mais difícil para a chefe das Relações Externas porque ainda se tem que familiarizar com o cargo, precisa de conhecer a fundo questões sobre as quais terá que decidir. Ela leva consigo uma administração demasiado grande nas suas missões externas. Existe um conflito entre o Presidente da Comissão Europeia, o presidente do Conselho e o chefe das Relações Externas sobre quem vai representar a Europa no estrangeiro, sobre quem serão os embaixadores europeus. Existe alguma desordem neste campo. Mas penso que o presidente da Europa está contente por não ser primeiro-ministro da Bélgica porque esta função é muito mais difícil do que alcançar coisas na Europa. Ele está a desempenhar as suas funções de forma calma e competente”.

euronews: A Europa deve aumentar ou diminuir?

Alfred Grosser: “De forma nenhuma mais pequena! E ninguém quer sair também! Tem sido assim desde o início: todos criticam a Europa mas todos querem fazer parte. Há muitas questões difíceis mas a Turquia não é um problema para mim. Alguém deveria dizer à Turquia: “façam como a Suíça, aproveitem todos os benefícios mas não façam parte”. Aproveitem todos os benefícios económicos sem responsabilidade política porque caso contrário seríamos ameaçados por conflitos com o Iraque, Irão etc… Por exemplo, há intervenções militares turcas no Curdistão iraquiano. A independência dos curdos da Turquia não é desejável porque não se sabe o que podem vir a fazer”.

euronews: Você sempre defendeu a Europa? Qual é a sua mensagem para os mais novos?

Alfred Grosser: “Em primeiro lugar, nunca defendi a Europa, eu queria a Europa! Fiz tudo o podia pela Europa. Devemos mostrar aos mais novos o que já alcançámos. Se mostrássemos a Robert Schuman, em 1950, o que temos hoje ele ficaria agradavelmente impressionado. É menos do que seria desejável mas é mais do que esperávamos”.